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Vendo bastante e nunca vejo a cor do dinheiro

Apesar de vendas estabilizadas, muitas vezes em crescimento, nunca há dinheiro em caixa suficiente.

Esta situação é um dos problemas que ocorrem com maior frequência nas pequenas e médias empresas no Brasil. Aliás, é sempre bom lembrar de que a cada três novos negócios abertos no país, um vai acabar fechando as portas em até dois anos.

Segundo dados do SEBRAE, a taxa de empreendedorismo no Brasil é a maior nos últimos anos. Impulsionados pela falta de oportunidades no mercado formal e movidos mais pela necessidade do que pela vocação, a nova geração de empreendedores se depara com os mesmos problemas enfrentados há décadas pelas PMEs em todo o país:

GRANA!

Por quê isso ocorre?

Uma das frases que escuto diariamente de pequenos empreendedores é que, apesar das vendas estarem estabilizadas, muitas vezes em crescimento, nunca há dinheiro sobrando em caixa.

Assim como a sobra de dinheiro em caixa não significa lucro, o faturamento não significa necessariamente dinheiro em caixa.

COMO ASSIM??

Vejamos um exemplo prático

 Você é um lojista que realizou uma venda de R$ 12.000,00 para determinado cliente.
 Você negociou também os prazos de recebimento desta venda para 30,60 e 90 dias, no valor de R$ 4.000,00 cada.
 Para atender a este pedido, foram comprados de determinado fornecedor R$ 6.000,00 em mercadorias.
 O fornecedor trabalha com prazo de pagamento para 30 dias.


Neste caso, o empresário comprou R$ 6.000,00 em mercadorias e as revendeu por R$ 12.000,00, gerando um lucro de 100%, correto? Errado!

Apuração Resultado


Vejamos no exemplo acima, desconsiderando despesas fixas e variáveis, que o resultado, que é a diferença entre o valor de vendas e o custo da mercadoria, foi de R$ 6.000,00. Se dividirmos este valor pelo total de vendas, veremos que o resultado representa 50% sobre o faturamento bruto, e não 100%. Este valor é o lucro apurado no período.

Considerando apenas esta venda, seu faturamento mensal seria de R$ 12.000,00, devidamente contabilizado, onde incidirão impostos e taxas. Isso se chama regime de competência.

À medida que o cliente vai efetuando os pagamentos acordados, o dinheiro vai entrando em seu caixa. Isso se dá o nome de regime de caixa.

Veja como ficaria seu fluxo de caixa considerando os recebimentos e pagamentos de nosso exemplo:


Fluxo de Caixa

Então note no exemplo acima que foi efetuada uma venda de R$ 12.000,00, com a previsão de recebimentos futuros. Mas naquele exato momento, a empresa não possuía nenhum recurso disponível, apenas previsões destes recebimentos. Analisando seu fluxo de caixa, é possível observar que a empresa não terá recursos suficientes em caixa para cumprir suas obrigações no mês 1, o que a obrigaria a encontrar alguma fonte de financiamento.

Existem diversos motivos que podem levar a esta situação. Entre os mais comuns, encontram-se:

Descompasso entre Contas a Pagar e Contas a Receber
Neste caso deve-se analisar o fluxo de caixa da empresa (sua projeção de recebimentos e pagamentos). Talvez o prazo médio de recebimento de suas vendas seja superior ao prazo médio de pagamento de fornecedores, causando a falta de recursos em caixa para suprir as necessidades da empresa. É exatamente isso que ocorre em nosso exemplo.

Insuficiência de Capital de Giro
O capital de giro é o oxigênio de uma organização. É o capital necessário para manter as contas em ordem. Muitas empresas em início de operação sofrem com a falta de capital de giro necessário para financiar suas operações e investimentos, e terminam por buscar soluções em bancos (empréstimos, desconto duplicatas, antecipação de cartão crédito, etc), comprometendo sua margem de lucro.

Prejuízo ou Lucro medíocre
Este caso é o mais grave, pois caso não seja resolvido a tempo, pode comprometer a sobrevivência da organização. Precificações sem critérios, custos fixos elevados, descontrole financeiro são alguns exemplos que podem levar a esta situação.

Nível elevado de estoques
Compras equivocadas, estoques ocupando espaço nas prateleiras, produtos com pouco giro comprometem a saúde financeira de qualquer empresa.

Imobilização de Capital
Outro equívoco comum devido à falta de critério e planejamento. Dinheiro que serviria de capital de giro sendo utilizado como investimento para aquisição de máquinas e equipamentos, veículos, reforma do ponto, compras à vista, etc. Nestes casos é preferível utilizar um financiamento a longo prazo, onde os juros são menores, ao invés de descapitalizar a empresa e necessitar de capital de curto prazo mais adiante, a um custo mais elevado.

Dinheiro dos Sócios x Dinheiro da empresa
Caixa da empresa não é o bolso do dono. Já vi empresário falando que não retirava nenhum valor da empresa, quando na verdade as contas pessoais como de veículo, colégio dos filhos, cartão de crédito pessoal eram pagas pelo caixa da empresa. Definir um pró labore, fazendo a retirada em datas fixas é a melhor maneira de lidar com as despesas pessoais. Misturar as duas coisas, nem pensar!

Empreender no Brasil é difícil e complicado. O governo atrapalha, o sistema tributário é complexo, o juro é alto, o custo da mão de obra assusta. Enfim, o risco é alto para um retorno incerto. Mas é possível administrar melhor o risco, caro empreendedor. Peça ajuda. Geralmente empreendedores tem aptidões em uma ou duas áreas, mas a gestão de um negócio envolve uma série de conhecimentos diversos (finanças, marketing, contabilidade, gestão de pessoas, impostos, produção, etc). E NINGUÉM entende de tudo. Firme parcerias, faça cursos, planeje, estude, elabore um plano de negócios, não desista e, principalmente, cuide da gestão financeira do seu negócio.

Vamos mudar o Brasil!

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Tags: empreendedorismo finanças fluxo de caixa

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