Educação e Cultura da Confiança
08 de maio de 2008 às 17:12
Educação vem da palavra educare, que quer dizer desenvolver ("educe") o potencial interno.
Confiar vem de confidare, que quer dizer depositar em alguém, sem mais segurança do que a boa fé, qualquer coisa – o que implica ser vulnerável ante ele.
O que relaciona os dois conceitos é a abertura, o abrir-se ao outro e permitir que o outro se abra, sendo ele mesmo, desenvolvendo todo seu potencial.
Quando trabalho no mundo empresarial, onde quase sempre se procura o resultado econômico acima de tudo, tento sugerir aos altos diretores que pensem que esses resultados não são apenas conseqüências do que os trabalhadores fazem, mas também do que se faz com os trabalhadores. Eles respondem que concordam e que motivar os trabalhadores é fator fundamental. Digo que a única coisa que devem fazer, como diretores, é não desmotivar os colaboradores com estilos de direção inapropriados, políticas injustas de recursos humanos, favoritismos, falta de ética.
É importante permitir que a organização flua e facilite a participação de todos, não apenas nas tarefas do dia-a-dia, mas também na possibilidade de contribuir com idéias, tomar decisões em conjunto e até discordar de algum superior. É aqui que aparece a confiança. Ela é como um líquido lubrificante, que facilita o fluir e faz que cada um na organização possa se sentir mais comprometido.
As organizações, inclusive as educacionais, desejam que os alunos e todos os profissionais que trabalham nelas vivam a instituição, envolvam-se, comprometam-se com o fim educativo... Mas não se consegue isso numa atmosfera de não-confiança, onde destacam-se o controle, a norma, a imposição frente à participação.
Ao darmos confiança a alguém, sabemos que arriscamos, pois renunciamos a um verdadeiro grau de controle e deixamos recursos à disposição de outros com a expectativa de não sermos prejudicados.
E só utilizar a equação:
C + C = C
O primeiro C é a Confiança, o segundo é o Controle e o terceiro é a Constante. Isto é: quanto mais confiança existe num sistema, menos controle (inspeção, vigilância) será necessário. Todos sabem que esse tipo de controle custa dinheiro. Por isso, a confiança vai além do conceito psico-social e entra no campo econômico - e o fator econômico está ao redor de tudo hoje. É uma questão de sobrevivência.
Quando existe um clima de confiança, abrem-se os sistemas de comunicação, ampliam-se as condições do meio, criam-se liberdades. No caso da educação, abre-se a possibilidade de reconhecer que os erros são elementos básicos em qualquer processo de aprendizagem. A confiança do aluno no sistema e do sistema no aluno permite ao estudante descobrir mais de si mesmo, incitando-o a participar de todo o processo mais ativamente.
Na relação professor-aluno, acontece a mesma coisa. Com muita freqüência, os preconceitos na mente do professor condicionam seus comportamentos inconscientes e "fixam" o sistema relacional, dificultando a abertura do aluno (Efeito Pigmaleão).
Estamos trabalhando atualmente com um modelo que chamamos Direção Por Confiança (DPC), sustentado em sete formas e atitudes relacionais.
DPC = 7 C
Para conhecimento geral, os Cs significam:
• C1 - Concorrência Profissional: Consiste “no grupo de habilidades, concorrências e características que permitem ao confiado ter influência num campo específico” (Mayer, 1995).
• C2 - Clareza: Comportar-se sinceramente dizendo o que realmente pensa e quais são suas expectativas em relação ao outro, incluindo os limites de responsabilidades e atividades. É necessário refletir sobre as regras não-escritas e fazê-las explícitas sempre que possível. Existe abertura e em nenhum momento se tenta ocultar informação. A comunicação flui em todos os sentidos e são transmitidos artigos concretos.
• C3 - Cumprimento: Assinala a segurança de ser formal cumprindo o que prometeu. Na medida em que a pessoa em quem se confia conhece as expectativas que existem sobre a sua atuação, é possível estabelecer um diálogo e facilitar o cumprimento da tarefa.
• C4 - Consistência: Refere-se à trajetória percorrida, que deve ter atuações alinhadas e sem grandes surpresas. A consistência tem sua base no conhecimento daquele que confia e daquele em que se está confiando.
• C5 - Compromisso: Possui uma dupla personalidade, uma profissional e outra interpessoal. A primeira delas refere-se à entrega para as funções que se levam a cabo na atividade profissional que se realiza. Ela tem sua base na auto-responsabilidade e na auto-realização, que implica em cumprir as tarefas no prazo acertado e da forma planejada. No lado pessoal, refere-se a um compromisso com o outro que se faz evidente pelo interesse que se tem a respeito da outra pessoa. A pessoa que confia quer o bem para o confiante, à margem dos motivos centrados em si mesmo.
• C6 - Coerência: É o fator mais crítico da confiança. Há o discurso que é transmitido aos outros e, por outro lado, o comportamento que quem fez o discurso adota diante das coisas que ele mesmo pregou. A premissa que sustenta a coerência prega que o que é bom para os demais é bom para si mesmo. No entanto, isso não se confirma na prática em muitos casos.
• C7 - Cumplicidade: Refere-se à criação de um espaço mútuo onde a pessoa se expõe a um terceiro. Existem transações ulteriores que permitem saber a todo momento se as partes "navegam no mesmo barco".
O desenvolvimento de uma cultura organizacional que reforce esses parâmetros de atuação vai permitir fluidez e, ao mesmo tempo, vai suprimir as ações ameaçadoras (que podem ser reais ou não), convertendo-as em ações impulsivas e estimulantes, que vão potencializar a autoconfiança do que aprende. Autoconfiança que exige nesse indivíduo um respeito, uma responsabilidade e um sentimento de pertença.
É preciso considerar que a educação de hoje tem o mesmo sentido que sempre se atribuiu a ela: não pode ou não deve ser uma educação prática para sobreviver. É fundamental conseguir uma preparação integral e global, em que a pessoa possa interpretar seu meio próximo, possa exercer seu poder de argumentação e seu sentido crítico, e desenvolva uma capacidade de atuar nele.
Finalmente, qualquer tentativa de criar um nível de confiança que ajude no que acabamos de dizer exige respeito do outro como ser humano - e não, por favor, "recurso humano" ou "cliente". Isso é um ato de amor, como definiria Maturana.
Paulo Freire ratifica: "O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético, e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros".