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As lições de uma travessia

Em minha prova de maratona aquática, vivenciei semelhanças e desafios parecidos - com o seu devido contexto - da saga de quem busca empreender

5:40 da manhã. O despertador toca. Coloco a mão na coxa direita sentindo um desconforto do último treino realizado. Mas hoje essa dor não podia atrapalhar.

Levanto ansioso mirando já uma alimentação balanceada, afinal, hoje é o dia da minha primeira competição de travessia no mar. Seriam 2000 mil metros em um percurso, até por hora, ainda não divulgado aos participantes. Mas não era só a Travessia agendada para 10h que me deixava inquieto. Às 7h30 já teria a Corrida da Infantaria, uma prova pela orla de João Pessoa em que optei por correr os 5km.

6:10. Não precisei olhar o céu para perceber a chuva torrencial que caia. Da janela, o céu preto e uma chuva tão intensa que a vontade era desistir ali mesmo e voltar a deitar. Fiquei pronto esperando São Pedro dar uma aliviada para poder ir ao primeiro desafio. Ele não deu. Ou melhor, só fez isso com a prova já iniciada. E foi com chuva que fiz o meu melhor tempo de prova da vida para essa distância. Um pouco mais de 26 minutos, com uma média de 5:15 por Km percorrido. Feliz, apesar do desconforto da perna direita ter se tornado dor na reta final.

Mas ainda tinha a outra prova, a Travessia, e era ali que realmente os desafios iram se mostrar. Adoro esporte, ajudo vários atletas, mas há um abismo grande para eu poder se considerado um. Pratico por hobby, por estilo de vida e não tenho pretensão de ser profissional. Ainda assim, montei um planejamento com minha parceira de exercícios para realizarmos bem as duas provas. Apesar de alguns furos no treino, achava realmente que estava preparado, só que não contava com o que iria acontecer durante a Travessia.

Disparo inicial, resolvo ficar um pouco atrás para evitar as cotoveladas de quem disputa as primeiras posições. Não adiantou. Na primeira parte levo uma que, por alguns centímetros a mais a esquerda, quase deixaria meu nariz quebrado e provavelmente desacordado. Apesar da disputa pelo espaço na água, fiz o primeiro trecho bem. O mapa da prova era o seguinte: você nada reto 200m à frente para a boia vermelha e logo depois inicia um losângulo aquático divido em bolas amarelas. O objetivo é cruzar o losângulo por fora, voltar para a boia vermelha e ir até areia tocar o tão sonhado sino.

Estava indo para a primeira boia amarela, a confiança dominava, o pique era de que iria conseguir completar a prova com facilidade. Nadava ao lado da minha parceira de treino e ultrapassávamos alguns nadadores à frente. Criamos o objetivo de completar a prova em menos de 60 minutos e abandonar nossa marca de treino de 68 minutos. Ela, a Jahnavi, sempre foi melhor nadadora, e acaba funcionando como meu guia/bússula dentro da água. Seria difícil o tempo, mas não impossível.

A primeira curva da boia amarela foi mais uma disputa por espaço entre braçadas, pernadas e cotoveladas involuntárias. Nadei forte e aberto para sair da muvuca. Estava flutuando, empolgado pelo rendimento, mal sabia o que ainda aguardava.

Chegando na parte 3/6 da prova, sinto meu pé esquerdo travar, uma contração muscular tão forte que me fez parar de nadar na hora. Tirei o óculos do rosto. Logo em seguida uma cãibra iniciou-se na mesma perna. Merda! Ter cãibra por si só já é péssimo, mas há 500m de distância da areia, vai por mim, é pior ainda. Com um sofrimento latente no meu rosto, Jahnavi e mais um colega param e me esperam. Eu levanto o braço em sinal de ajuda. De stand up, chega o apoio e coloco a perna dolorida em cima da prancha com o objetivo de puxar e aliviar a dor. Os bombeiros do jet-ski se aproximam e indicam que a cãibra iria voltar e recomendam que eu desista. Mas não queria parar, eu me preparei para estar ali. Olhei para minha parceira parada, me esperando. Eu tinha que continuar, eu tinha que me esforçar.

Já sem dor, voltei para a prova e chegamos na metade dela. Minha parceira sinaliza: “ainda estamos muito bem: 28:37 agora. Vamos conseguir”. E fomos em frente! No entanto, agora, com alguns obstáculos a mais: quando recoloquei os óculos após a parada, ele embaçava e entrava água com facilidade, o que passou a atrapalhar bastante. Minha parte psicológica também estava abalada. Mas eram só mais desafios.

Íamos para parte 4/6 e a cãibra voltou, mas eu não queria parar, não queria o apoio novamente. Passei a executar a estratégia de deixar de usar a perna esquerda, batendo na água apenas a direita. O rendimento, logicamente, já não era mais o mesmo, mas eu queria, naquele momento era acabar a prova, tocar o sino. Porém, de tanto forçar a perna direita, o desconforto matinal na coxa voltou com tudo. Parei por completo mais 20 segundos.

As duas pernas doíam muito, minha vontade era de dar um grito na água como forma de me libertar de tudo. Pensei em desistir, mas algo em mim falou mais alto e resolvi só usar os braços. O esforço era dobrado, mas precisa vencer outro inimigo nesse momento: o meu psicológico. Achei a solução: passei a contar as braçadas... 1,2,3 respira, 4,5,6 respira... 88,89,90 respira... finalmente cheguei na parte 4/6.

Indo para a quinta parte, 5/6, e vendo que meu rendimento estava muito abaixo apenas gritei para minha parceira: “VAI, ACELERA!!!”. E ela, como um foguete (ou, melhor, um peixe) disparou. De forma quase instantânea, o mar mudou, em vez de brando do início da prova, algumas ondas daquelas que puxam para o seu lado oposto de nado simplesmente se tonaram mais fortes. Uma delas me fez engolir o equivalente a um copo de água. Eu pensei: Só mais um desafio – e voltei para minhas contagens. Os óculos embaçavam, a perna nessa hora alternava entre dor e nada. No nada, batia elas fortes e quando começava a senti-las, voltava a usar apenas os braços – que de tanto esforço com a maré contrária, já se encontravam cansados e pesados.

Olhei em volta já próximo de concluir a parte 5/6 e não vi ninguém. Não tinha competidores a frente, competidores a trás, apoio. Uma solidão bateu estilo o filme O Náufrago, mas sem o Wilson como auxílio. Era eu e o mar. O meu adversário do dia. Dei mais 30 braçadas e parei. Ajustei os óculos embaçados novamente e olhei melhor em volta. Vi alguns nadadores me ultrapassando à esquerda, vi a última boia vermelha próxima, o vazio passou, eu estava perto do fim.

Ultrapassei a boia vermelha. Era o sprint final. Os últimos 200 metros. Na minha cabeça pensava na dor, na dificuldade. Até que vi o rosto de esforço de um colega nadador ao meu lado e pensei: “PORRA! Para de se lamentar. Todo mundo aqui está lutando também. VOCÊ NÃO É O ÚNICO. VAI!!!” Aquela frase veio como um raio dentro do meu corpo. Sentia ele se arrepiando por completo. Faltava apenas 150 metros e comecei a nadar o meu limite, muito rápido, muito forte. Em 70 metros, meus dedos do pé travaram, cruzaram, a cãibra na perna esquerda voltou, a dor na direita estava impossível e eu parei. Tentei descruzar meus dedos do pé. Era a pior dor. Olhava para areia e já via o sino a ser tocado para quem concluísse a prova.

Vi o pessoal do apoio, era quase um convite a desistir e ser carregado para areia naquela prancha. Mas eu não ia parar ali, eu estava muito perto. Consegui descruzar o dedo depois de longos 30 segundos e continuei. Cada braçada era dolorida e comemorada por mim até que senti meu pé encostar na areia. 30 metros me separavam do sino e eu começo a escutar aplausos e gritos de incentivo: - VAMOS FÁBIO! FALTA POUCO.

E cambaleando das duas pernas, sem conseguir andar direito eu corri meus 30 metros mais longos, essa hora eu só enxergava o sino. E ao melhor estilo da corredora Gabrielle Anderson nas Olimpíadas de Moscou, eu o toquei com força. Queria que todos escutassem. Eu tinha conseguido!

Fui direcionado para o fisioterapeuta que ajudou a aliviar as dores na perna. Mas a felicidade já era bem maior do que qualquer sofrimento. Sobre a posição, o primeiro lugar fez em 27 minutos, menos da metade dos meus 61 minutos. Mas para mim, com a medalha de conclusão já no peito, vibrei mais do que qualquer campeão no pódio. Afinal, eu estava no meu pódio particular. Vencedor dos meus próprios obstáculos. Campeão da minha própria persistência e dos meus limites.

Mas o que isso tem a ver com Administração?

Se você chegou até aqui no texto deve ter se questionado: ok, texto legal, mas o que isso tem a ver com Administração? Com empreendedorismo?

Como empreendedor, consultor e quase dez anos de atuação no Administradores.com, vi semelhanças e desafios parecidos - com o seu devido contexto - da saga de quem busca empreender e o que passei na travessia e queria compartilhar aqui.

1 - Adapte-se as mudanças
Nem sempre o planejamento sai como gostaríamos. Muitas vezes montamos uma rota, mas por motivos diversos, ela pode fugir da previsão. Por isso é importante se adaptar - e rápido - as adversidade e pensar em soluções que não atrapalhem o andamento do projeto.

2 - Desistir é sempre mais fácil
As dificuldades vão aparecer e desistir, sem sombra de dúvida, é o caminho mais fácil. Mas sem insistência não há conquista, a maior parte das vitórias virá com muito esforço. Quer outro exemplo: Para montar o Starbucks, Howard Shultz falou com 242 investidores antes de conseguir o financiamento. Resiliência é a palavra chave.

3 - Juntos chegamos mais longe
Uma das minhas maiores motivações na água foi ver minha parceira de treino esperando e - até diminuindo a velocidade - para que conseguíssemos completar a prova. Sem dúvida, quando você tem uma equipe, pessoas que confiam, quando elas estão no mesmo barco (ou mar), isso lhe motivará a chegar mais longe. Ultrapassar seus limites.

4 - O objetivo não precisa ser o primeiro
Se transformar no player número 1 do mercado é um desejo de qualquer empresa. Mas para isso é preciso respeitar as etapas naturais de crescimento da empresa. Então, coloque sempre metas reais e lute para alcançar. Meu objetivo na travessia, por exemplo, nunca foi pelo primeiro lugar ou pelo pódio. Respeitando minhas limitações e as adversidades, eu queria completar a prova e me sinto vitorioso por conseguir.

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