Japão: uma transição econômica que leva junto seus parceiros comerciais

A única coisa que Washington pode fazer é compreender a transição pela qual o Japão está passando. É preciso levar o Japão a sério, pois ele é o único grande cliente que resta para os produtos agrícolas e florestais dos Estados Unidos e um dos seus maiores clientes de produtos manufaturados. O Japão ainda é o único país não-ocidental plenamente desenvolvido e democrático e já teve a segunda economia do mundo, hoje com a China.

O Japão S. A. Está em desordem. Individualmente, as empresas japonesas competem com a mesma agressividade de antes no mercado mundial. Mas não existe mais uma política distintamente japonesa, e menos ainda em economia. Ao contrário, a norma são ajustes de curto prazo e reações temerosas ao inesperado. Como no Ocidente, não são substitutos para a política e têm pouco ou nenhum sucesso. Uma parte do problema é que nenhuma das opções de que o Japão dispõe parece atraente: nenhuma produziria consenso. Ao invés disso, elas causariam divisão entre os grupos mais importante da nação – burocratas, políticos, llíderes empresariais, acadêmicos e trabalhadores. Os jornais japoneses estão repletos de protestos contra a “fraca liderança”. Mas este é somente um sintoma. O problema básico é que os quatro pilares que sustentaram a política japonesa por mais de trinta anos cederam ou estão balançando.


O primeiro pilar da política japonesa era a crença de que o Japão era tão importante como baluarte contra o comunismo que os Estados Unidos da América (EUA) subordinariam seus interesses econômicos à manutenção da estabilidde política de Tóquio e á aliança estratégica EUA-Japão. Durante os anos setenta e oitenta, o embaixador americano Mike Mansfield afirmou muitas vezes a prioridade das relações políticas entre os dois países sobre todas as outras considerações. As mesmas prioridades foram claramente mantidas no governo George Bush (pai). Os japoneses supuseram, e corretamente, que por mais que os americanos latissem, a mordida seria apenas de leve e não tiraria sangue.


Agora o Japão precisa questionar essa suposição. O governo Clinton subordinou interesses econômicos americanos a alianças políticas? Parece que não, em nome do sustentação da ideia de que o fortalicimento da golbalização torna estas práticas obsoletas. É claro que a América se declara comprometida com a defesa do Japão, caso o país seja atacado por forças armadas. Porém, os japoneses estão começando a compreender que os EUA irão cobrar um preço econômico cada vez mais alto por este suporte político – exatamente quando a China, a grande vizinha do Japão, tornou-se a única grande potência mundial que está aumentando seu poder militar. Os europeus, que nunca concordaram com a tese de Mansfield, estão menos embaraçados. Nos próximos anos, a Europa estará decidindo não só quantos itens de fabricação japonesa deixará de entrar, mas também se produtos lá fabricados por empresas japonesas poderão ser vendidos livremente e em grandes quantidades nos mercados europeus.


O segundo pilar da política japonesa era a crença de que suas empresas poderiam dominar os mercaods mundiais projetando tendências ocidentais e fazendo melhor e mais rápido aquilo que os ocidentais faziam devagar e timidamente. Esta estratégia, usada primeiramente pela Sony no início dos anos sessenta para rádios transistorizados (que substituíram os valvulados. Depois dissos já surgiram os de circuito integrado – CI e por último os de Ship e Microship, impactando no tamnho dos aparelhos) e seguida pouco depois por fabricantes de cãmeras e copiadoras, foi bem-sucedida em inúmeras ocasiões. Ela ainda pode ser um sucesso – como demonstra a maneira pela qual os japoneses aumentaram sua participação em relação aos fabricantes europeus de carros de luxo no mercado americano nos últimos anos, ou tomaram o mercado de máquinas de fax dos americanos que as inventaram.


Mas esses sucessos não são mais uma certeza. A estratégia fracassou em computadores. Ao projetar para onda ia a IBM e então tentar superá-la, os japoneses perderam as indústrias em crescimento de estações de trabalho e deles. Em chips par acomputadores, eles deixaram de perceber a mudança para circuitos integrados especializados de altovalor e se concentraram em produtos de baixo valor, nos quais estão sendo agora fortemtne pressionados por fabricantes de países com baixos salários. Em telecomunicações, os japoneses perderam a passagem para os telefones celulares, onde é provável que ocorra o crescimento do mercado mundial. Em eletrônicos de consumo e televisão de alta definição, onde os retornos ainda não se concretizaram, os japoneses estão mais uma vez na defensiva.


Embora em termos quantitativos o superávit das exportações japoneas com os EUA tenha subido novamente, em termos qualitativos ele está deteriorando. Quase três quartos dele se devem a produtos de uma indústria antiga, com mercados saturados em todos os países desenvolvidos: automóveis. Mesmo nessa área, os japoneses não estão tirando vendas dos fabricantes americanos, mas dos produtos importados da Europa. A General Motors Company (GMC) ainda está perdendo participação, mas agora é para a Ford e a Chrysler.


O terceiro pilar tradicional de força do Japão era a suposição de que a economia doméstica do país era praticamente imune aos problemas externos. Em apoio a esta crença, havia o conhecimento de que as maiores importações são alimentos e matérias-primas e as maiores exportações são produtos manufaturados. Numa recessão, os preços das matérias-primas caem depressa e por mais tempo que os dos manufaturados – isto é, das exportações do Japão. Assim sendo, tanto os termos de comércio do Japão (sua força econômica relativa) como a balança comercial (sua força econômica absoluta) tendem a melhorar quando a economia mundial declina.


Esta equação ainda é válida e explica, em grande parte, o persistente superávit comercial japonês nos últimos anos. A depressão nos preços mudiais de alimentos e matérias-primas – agora em sua segunda década – constitui um enorme subsídio à economia japonesa. Em relação aos preços de produtos manufaturados, o Japão obtém suas matérias-primas e alimentos pela metade dos preços do ano de mil novecentos e setenta e nove. Contudo, o país está atolado numa recessão há década. Taxa de emprego, produção, lucros e investimento ainda estão em declínio, e isto parece ser determinado por tendências na economia mundial ás quais o país deveria ser imune.

O quarto pilar era o compromisso com uma política de longo prazo, com flexibilidade para abrir exceções, atender interesses especiais e aproveitar oportuidades. O compromisso era revisto periodicamente e, se necessário, atualizado ou revisado. A estratégia evitava remendos rápidos de curto prazo, cuja ineficácia colocaria em risco o consenso nacional.


Esse compromisso foi mandito por vinte e cinco anos até o anos de mil novecentos e oitenta e cindo, quando a flutuação do dólar supervalorizado levou a moeda a uma queda de cinquenta por cento em relação ao iene em poucos meses. Os japoneses entraram em pânico diante da ameaça às suas exportações, dois quintos das quais iam para os EUA. Para manter a política de emprego vitalício e a estabilidade social, o governo entrou numa campanha frenética para estimular o consumo doméstico, visando a repor as vendas e os lucros perdidos com as exportações.


É discutível se os fabricantes japoneses necessitavam realmente de uma dose tão forte de adrenalina econômica. A maioria ajustou-se rapidamente ao valor mais baixo do dólar e aos menores ganhos com exportações. Porém, necessário ou não, o estímulo ao consumo doméstico não poderia ter vindo em pior momento para a economia japonesa. Ele ocorreu extamente quando o poder de compra e os estilos de vida estavam passando rapidamente de uma geração mais velha avessa ao consumo, ainda assustada pelas privações do tempo de guerra, para os yuppies nascidos depois da guerra. Assim, a política do governo disparou a maior farra de consumo da história econômica e uma tempestade especulativa nos preços dos imóveis e das ações. No ano de mil novecentos e oitenta e nove, no auge daquilo que os japoneses chamam hoje de “economia de bolha”, as ações na Bolsa de Valores de Tóquio eram contadas a cinquenta ou sessenta vezes seus ganhos antes do imposto (isto é, a um rendimento pós-imposto inferior a um por cento). Imóveis nos melhores bairros de escritórios de Tóquio eram hipotecados por até cinquenta vezes sua renda anual de aluquel.


A bolha estourou no início do ano de mil novecentos e noventa, com o mercado de ações perdendo a metade do seu valor em apenas alguns meses. Se os bancos e as companhias de seguros tivessem sido forçados a reduzir a valores realistas as suas ações e hipotecas, teria havido um colapso financeiro em massa. Ao invés de organizar uma retirada administrada e controlada – semelhante àquela que os americanos fizeram com os empréstimos a países latino-ameicanos e as hipotecas - , o Japão está fingindo que os prejuízos nunca ocorreram. Na primavera de mil novecentos e noventa e três, as compras maciças de ações e bônus pelo governo responderam por um terço do total de compras na Bolsa de Valores de Tóquio. A linha oficial é que os mercados “devem” subir tão logo a economia se recupere, permitindo que o governo venda seus papeis e até tenha lucro. Mas isso nuca funcionou. A própria existência desses papeis em poder do governo limita o mercado. E cada dia que se passa sem que a realidade financeira seja encarada torna o problema menos tratável, mais controverso e politicamente corrosivo.


A linha oficial no Japão ainda é que o páis irá retornar á tradicional política de longo prazo logo que a situação voltar ao normal. É duvidoso que qualquer japonês bem-informado, dentro ou fora do governo, leve isso a sério. É provável que o Japão, em futuro previsível, não volt a ter uma política econômica. Ao contrário, ele irá se tornar cada vez mais parecido com os grandes países ocidentais, cuja falta de direção e indecisão econômica os japoneses riram po anos. Não haverá mais “Japãp S.A.”, nem condesenso, tampouco um grup fixador de políticas dirigindo a economia através de orientação administrativa. Empresas, indústrias e grupos de interesse nacionais. Ao invés de uma política haverá medidas ad hoc de curto prazo e, talvez, uma imobilidade crescente (provavelmente acompanhada, como o Ocidente, por promessas cada vez mais grandiosas).


Esta dissonância política será universalmente deplotada no Japão, como o é no Ocidente, mas não será universalmente impopular. Os grandes fabricantes, em especial aquelas bem-sucedidos nos mercados mundiais, preferem uma volta aos dias de uma política econômica consistente nas mãos de uma forte burocracia governamental. Porém, muitos outros líderes empresariais japoneses estão desencantados com a orientação administrativa que os comprometeram, nos últimos quarenta anos com asneiras estratégicas comoa ênfase em computadores de grande porte e supercomputadores e a manutenção dos monopólios em telecomunicações e equipamentos de telecomunicações.


Se não houver uma política de consenso e nem orientação administrativa, as empresas japonesas deverão se tornar as concorrentes mais duras no mercado mundial. Suas respostas às oportunidades e aos desafios do mercado serão mais rápidas. É provável que elas se esforcem ainda mais nos três pontos com os quais elas atacam seus concorrentes ocidentais: controle da economia de todo o processo de produção e distribuição, ao invés do controle contábil dos custos de cada etapa, qualidade absoluta e redução dos ciclos de desenvolvimento, produção e entrega através de investimentos para poupar tempo.


Muitas empresas já deixaram de lado a estratégia tradicional de adivinhar mais depressa que suas concorrentes ocidetais, dedicando-se a pesquisas genuínas visando a avanços inovativos. Assim como algumas empresas ocidentais prosperaram agindo inteiriamente à sua própria maneira, algumas empresas japonesas deverão prosperar agindo à sua maneira ao invés da maneira japonesa. Mas é questionável se a economia japonesa como um todo irá melhor, sem uma política consistente de longo prazo e uma liderança forte, do que as economias voltadas para o curto prazo dos Estados Unidos, do Reino Unido, da França ou da Alemanha.


Os Estados Unidos deveriam se abster – mas provavelmente não o farão – de se alegrar com os problemas japoneses. Uma crise financeira no Japão é a última coisa de que os Estados unidos ou qualquer um no mundo deenvolvido necessita. Nem é de interesse para a América que a segunda economia do mundo tenha um governo desprganizado e á deriva, ou uma sociedade cada vez mais desorientada. Tais condições somente poderiam significar que os japoneses iriam buscar um bode expiatório e o encontrariam nos americanos.


Washigton deve pressionar Tóquio com muito mais energia pela eliminação dos obstáculos è entrada de bens, serviços e investimentos americanos em condições justas. O Japão não é tão protecionista quanto o público americano acredita, senão, as exportações de manufaturados americanos ao Japão não teria quase dobrado no últimos quarenta anos, particularmente na área de produtos de alta tecnologia. Na verdade, como proporção do comércio total EUA-Japão, o déficit é hoje apenas uma fração daquilo que era há quarenta anos. E o Japão ainda é, de longe, o melhor cliente para alimentos e produtos florestais americanos, os quais os japoneses poderiam comprar facilmente de outros fornecedores ao mesmo preço e com a mesma qualidade.

Contudo, existem obstáculos reais às empresas estrangeiras no Japão. Bem ou mal, o desaparecimento da ameaça soviética significa que agora não há motivos pelos quais os Estados Unidos não devam exigir, para seus produtos, serviços e investimentos, o mesmo acesso de que gozam os japoneses nos mercados americanos, muito menos restritos.


Washington necessita de ma polítca comercial que focalize as áreas nas quais a remoção das barreiras japonesas fará realmente diferença. Isto significa, por exemplo, esquecer a proibição japonesa às importações de arroz. A inssitência americana a respeito do arroz só ajuda os políticos japoneses, que habilmente culpam as pressões americanas pelas reduções dos subsídios, cada vez mais onerosos, aos plantadores de arroz japoneses, que são politicamente poderosos. Se algum país estrangeiro conseguir suprir o Japão com grandes quantidades de arroz, não serão os Estados Unidos, mas a Tailândia ou o Vietnã, que têm custos menores. E a penalização das importações de carros japoneses, uma providência pela qual as Três Grandes de Detroit vêm clamando, não passa de pura emoção; ela seria aplaudida pelo sindicato dos trabalhadores na indústria automotiva, mas não ajudaria Detroit em nada. Entretanto, ela ajudaria, em muito, as relações públicas dos grandes fabricantes de automóveis japoneses, pois essas exigências lhes dariam o pretexto de que tanto precisam para acelererar seus planos de transferir para suas fábricas nos Estados Unidos a produção destinada ao mercado americano, onde os custos estão mais baixos do que no Japão. Isto lhes daria uam desculpa perfeita para fazer o politicamente impensável, mas economicamente inevitável: demitir trabalhadores japoneses que têm empregos vitalícios.


Além de usar um pouco mais de inteligência e muito menos retórica nas relações com o Japão, a única coisa que Washington pode fazer é compreender a transição pela qual o Japão está passando. É preciso levar o Japão a sério, pois ele é o único grande cliente que resta para os produtos agrícolas e florestais dos Estados Unidos e um dos seus maiores clientes de produtos manufaturados. O Japão ainda é o único país não-ocidental plenamente desenvolvido e democrático e já teve a segunda economia do mundo, hoje com a China. O fato de aprentemente não haver, na atual administração, ninguém em posição para formular políticas que conheça ou se interesse muito pelo Japão não é de bom agouro. Outras informações sobre o tema podem ser obtidas no livro Administrando em tempos de grandes mundaças de autoria de Peter F. Drucker.

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