Lar-doce-escritório

Afinal, empreendedorismo hoje virou sinônimo de home office, empresa online e aplicativo? E isso dá certo no Brasil ou somente nos Estados Unidos? São muitos os exemplos de empresas Brasileiras seguindo o modelo americano de fazer negócios. E a tendência é cada vez mais isso acontecer de casa mesmo.

Em 1984, em seu dormitório na Universidade do Texas, Michael Dell fundava a Dell Computers: com apenas 19 anos e mil dólares no bolso, o garoto começava uma das maiores empresas americanas. Em 15 de Fevereiro de 2005, na garagem da casa de um deles, Chad Hurley, Steve Chen e Jawed Karim registraram o domínio youtube.com, para só então começarem a montar o sistema de streaming de vídeos, que seria vendido 18 meses depois para o Google por 1,65 bilhões de dólares. Em Fevereiro de 2008, no sótão de uma casa alugada, os jovens designers Brian Chesky, Joe Gebbia e Natham Blecharczyk começaram um dos negócios mais valiosos da atualidade: o Airbnb vale hoje 31 bilhões de dólares. Em Março de 2010, Ben Silbermann, Paul Sciarra and Evan Sharp lançaram a rede social Pinterest, que se tornou a 6a startup mais valiosa do planeta, estimada em 11 bilhões de dólares.

Os casos de sucesso de empreendedores americanos parecem infinitos. Quanto mais a gente busca, mais encontra exemplos incríveis de como a simples combinação de uma ideia original com ação e perseverança é capaz de criar algo novo, transformar a vida de milhões de pessoas e, quase que da noite para o dia, gerar grandes fortunas. Hoje, nos Estados Unidos, devido à histórica mentalidade de empreendedorismo e à facilidade com que se monta um negócio, grande parte dos businesses lançados recentemente (talvez até a grande maioria) começou em casa, seja numa garagem, num quarto de adolescente ou num dormitório de universidade. Até o sonho americano, já tão cultuado em filmes e livros, mudou sua composição básica. Pouco antes da virada do milênio, a combinação de bom emprego, carro novo, casa de subúrbio hipotecada (subúrbio nos EUA é área nobre no entorno das cidades) e família com filhos representava a maior das conquistas, mais que suficiente para o contentamento de pais e mães de classe média suburbana na América. Hoje, com a onda digital quebrando forte, ocorreu uma maior democratização dos meios de produção. Assim, os jovens millennials não querem mais empregos. A era digital permitiu que ideias se tornassem startups, jovens (muitos sem formação acadêmica) se tornassem empresários, e aplicativos se tornassem grandes empresas. Algumas dessas empresas virtuais vem nascendo cotidianamente dos computadores de ambiciosos ex-adolescentes, cujo sonho não é mais faculdade-emprego-família. O sonho de hoje é ideia-startup-IPO-fortuna-ideia-startup-IPO-fortuna, num ciclo contínuo, que pode gerar mais riqueza e durar mais tempo que o ciclo tradicional faculdade-carreira profissional-promoções-contínuas. E uma boa parte desses novos jovens nunca sequer pisou os pés numa Universidade.

Mas será que começar uma empresa em casa e ter sucesso é uma condição especial apenas de países superdesenvolvidos como os Estados Unidos? Como isso acontece em terras Brasileiras?

No Brasil, é tudo bem diferente. A começar que a dificuldade para abrir uma empresa é muito maior. Enquanto nos Estados Unidos, é possível abrir uma empresa em apenas 4 dias, no Brasil se leva 107 dias, de acordo com dados do Banco Mundial. Isso posiciona nosso País na 123a posição entre 189 países do mundo. Segundo pesquisa da Wharton School, Universidade da Pensilvânia, com mais de 16 mil pessoas entrevistadas, a Alemanha é o melhor país do mundo para se empreender. A mesma pesquisa mostra o Brasil em 30o lugar. Os critérios abrangem a facilidade para se obter capital, a segurança jurídica do país, o nível de presença de inovação, e outros ítens num total de 10. Mas já foi pior. Houve época em que o Brasil nem aparecia nas listas finais de pesquisas. Apesar disso (ou justamente por causa de tamanho desafio), o perfil do Brasileiro é cada vez mais marcado pela forte iniciativa, pela perseverança, pela autoconfiança e outras características claramente empreendedoras, conforme atestam consultores em atendimento a brasileiros iniciando um novo negócio. Em meio a essa evolução de perfil, é enorme a contribuição vinda da Geração Millennial, constituída pelos nascidos entre os anos 1980 e 2000. Este grupo tem sido retratado como “Perfil de Dominância” na classificação oferecida pela Teoria DISC (Dominância, Influência, Estabilidade e Conformidade), acabando por gerar comportamentos também tidos como essencialmente empreendedores: os que apresentam esse perfil estariam mais dispostos a aceitar riscos e seriam mais voltados à tecnologia. O contraste é grande com os Brasileiros nascidos entre 1970 e 1980, a chamada Geração X, em sua maioria mais propensa a seguir regras e questionar menos o sistema em que estão inseridos. A conclusão é que vem mais mudança por aí. E tudo está mundando muito rápido.

Até 2008, home office, ou escritório caseiro, era um termo bem desconhecido. Apenas poucos executivos, gerentes de certas áreas em multinacionais estrangeiras, trabalhavam 2 a 3 dias na semana no conforto de casa. E foi exatamente nesse ano, em que eu passei a olhar para esses caras sortudos e querer ser um deles também. A pergunta que não parava de me provocar era…Será que vai dar certo pra mim? O que me fez desejar pela primeira vez a possibilidade de trabalhar de casa foi algo extraordinário na vida de qualquer ser humano: a paternidade. Nosso primeiro filhote havia nascido um ano antes e a vontade de ficar perto dele era maior que tudo. Ao mesmo tempo, a vida encarregou-se de dar um empurrãozinho na direção dos nossos desejos. Uma crise no mundo batia no Brasil e resvalava no nosso negócio. Por conta dos dois acontecimentos, decidimos, eu e Adriana, minha mulher e sócia na nossa consultoria em comunicação e marketing, transformar a empresa física em um negócio virtual. Ficaríamos próximos do Eduardo e resolveríamos a equação da empresa. Passamos pelo processo penoso de demitir 17 funcionários, todos registrados em carteira, e montamos, no terceiro quarto lá de casa, um escritório caseiro, ou home office. Criamos uma rede de fornecedores online e seguimos a vida muito mais leves. Foi difícil pacas, mas aquilo para nós era sinônimo de sucesso. Para nossa surpresa, muitos amigos passaram a querer a mesma coisa. Trabalhar em casa, e pela Internet, se tornou sinônimo de sucesso generalizado, o Santo Graal profissional.

Quase dez anos depois, mais do que de repente, já existem muitos outros brasileiros trabalhando em casa. De acordo com pesquisa feita em 2016, pela SAP Consultoria, com apoio da SOBRATT - Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades e patrocínio da GCONTT - Grupo de Consultoria Teletrabalho, o número de posições home office cresceu 50% no último ano: agora, 55% das empresas brasileiras tem funcionários produzindo na modalidade “em casa”. Segundo pesquisa do IBGE feita em 2017, já existem novos 22.5 milhões de pessoas trabalhando em casa. Alguns fizeram a opção motivados pela falta de emprego, passando a buscar trabalhos freelance. Porém, há muitos outros que nunca quiseram saber de emprego e decidiram meter a cara e empreender. A conclusão é que qualquer que seja o motivo, trabalhar em casa é uma megatendência em plena realização.

Mas, e aí… o futuro do trabalho em casa no Brasil é promissor?

A Easy Taxi, do mineiro Tallis Gomes, começou em Abril de 2012, em casa, ligando taxistas a quem precisava de transporte: 90 mil taxistas e mais de 3 milhões de usuários depois, a Easy Taxi atua em 29 cidades no exterior e em 27 cidades no Brasil. Em 2011, Patrick Sigrist e três amigos começaram de casa a IFood, uma central de Internet que gerencia pedidos de entregas de refeições em domicílio: hoje, já são mais de 900 mil pedidos mensais, para mais de 5.000 restaurantes, em mais de 100 cidades Brasileiras. O paulistano Márcio Kum­ruian começou na rua, de forma improvisada, a NetShoes, que hoje fatura mais de 2 bilhões ao ano e seguiu em Abril de 2017 para IPO, a oferta pública de ações.

É fato que, no Brasil, os exemplos de jovens à frente de startups de sucesso só aumenta. Segundo pesquisas recentes da Revista Exame e também da Firjan, 2 em cada 3 jovens Brasileiros deseja empreender. E, provavelmente, começarão fazendo isso de casa, inspirados por uma pilha de exemplos de sucesso, turbinados pela autonomia que a tecnologia entrega, e animados pela perspectiva de nunca mais terem chefe na vida. Mas tem gente que topa ter chefe. Só que quer fazer isso à distância. Pesquisa da CNI - Confederação Nacional da Indústria mostra que, hoje, 80% dos trabalhadores Brasileiros ativos gostaria de… sim, trabalhar em casa. Parece que o sonho Brasileiro está cada vez mais parecido com o novo sonho Americano ideia-startup-IPO-fortuna. E é uma tendência que não respeita fronteiras, como comprova pesquisa feita pela empresa de software Citrix, que aponta o seguinte: em 2020, mais da metade do planeta vai estar trabalhando a maior parte do tempo em casa.

Mas o que é que impulsiona essa onda? O que a faz cescer e quebrar com tanta força e por tanto tempo? A resposta é simples e está provavelmente na sua frente nesse exato momento: é a nossa adoração por tecnologia. Essa criação humana, principalmente a que trata da robotização de tarefas e a que engloba a conectividade de tudo à Internet (a web 2.0, ou IoT, a chamada “Internet of Things” ou Internet das Coisas) é o protagonista dessa nova história. Do ponto de vista do trabalhador, tantas mudanças só se fazem possíveis por causa do amadurecimento da Rede. São muitos avanços nascidos em sequência, com constância e força avassaladora, vindos das mãos de empreendedores digitais: a velocidade da conexão, a comunicação em tempo real via aplicativos de vídeo-chamada, a possibilidade de compartilhamento instantâneo de arquivos cada vez mais pesados, o surgimento de tarefas online para praticamente qualquer perfil de profissional, o impressionante avanço do e-commerce e muitos, muitos outros saltos. Tudo isso cria uma fundação segura para que nossas mentes voem em busca de insights e retornem sabendo que é possível levar adiante um plano de metas e obter resultados. E alguns conseguem resultados extraordinários.

Numa tarde dessas, trabalhando de casa, entre uma sessão de pesquisa digital e o compartilhamento de um texto redigido minutos antes, me peguei pensando se o que queremos, no fundo, não seria voltar a priorizar o aprendizado. Parece até que retornamos a uma mentalidade escolar, quando a vida se resumia a admitir que pouco sabemos. Quando éramos crianças ou jovens adolescentes, evoluíamos focando 100% em duvidar, perguntar e pesquisar. Parece que estamos iniciando uma era de reaprendizados. Fiquei intrigado. De fato, através desses novos entendimentos, pode vir a reconstrução do nosso futuro, coletivo e individual. E se estamos voltando aos bancos de escola, não seria o binômio freelar-empreender o novo dever de casa desse momento mundial tão digital? Na vida adulta contemporânea, apesar das tantas responsabilidades que ela traz, parece que continuamos buscando a reinvenção de nós mesmos, sonhando com um possível relançamento. Assim, seguimos todos continuamente pesquisando e aprendendo. A diferença é que, agora, o Homework não vem mais da escola. Ele vem do home office.

 

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