O ambiente escolar e as novas gerações

O Netflix aposentou as locadoras de vídeos, assim como os classificados de jornal, o sistema bancário tradicional e o serviço de táxi tem sido ameaçados pela proposta de modelo de negócios de empresas como OLX, Nubank e Uber. Adolescentes não assistem mais canais abertos assim como não enviam cartas a seus amigos e são nas redes sociais que se eles comunicam e interagem com o mundo. Isto reflete o novo estilo de vida dos jovens que estão adentrando ao mercado de trabalho: pessoas que preferem trabalhar com propósito, em um ambiente informal, com horários flexíveis, fazendo o que gosta e acredita e sendo felizes. Estes profissionais desejam colocar suas ideias em práticas mesmo diante dos riscos inerentes ao negócio em que desejarem atuar.
Inovação, mudanças e empreendedorismo são alguns dos ingredientes que compõem a receita do sucesso de jovens que ganham a vida despoluindo o meio ambiente, reformando casas a preços populares, ofertando orgânicos em um sistema de delivery ou até mesmo fazendo um trabalho diferente por dia para fugir da rotina, entre vários outros exemplos de empreendimentos que tem em comum jovens em busca de ambientes menos burocráticos e hierárquicos.
Diante disso, o mercado de trabalho como conhecemos atualmente poderá deixar de existir em breve e, como Charles Darwin já dizia em 1860, não é o mais forte nem o mais inteligente que sobrevive, mas o que melhor se adapta às mudanças. Os jovens já vêm procurando alternativas de fonte de renda fora do ambiente tradicional e novas profissões começam a surgir. No entanto, voltando à base da formação destes profissionais, será que o sistema educacional está preparado para acompanhar tal evolução? Professores dos diversos níveis de ensino estão estimulando seus alunos a buscarem um propósito para suas vidas ou continuam adotando a abordagem tradicional que tem sua origem na Revolução Industrial?
Considerando que: a) as seis características¹ dos nascidos na geração Z, os chamados millennials, são: jovens pragmáticos, indefinidos, conversadores, “selfies reais”, “comunaholics” e “meme thinkers”, ou seja, são hipercognitivos e capazes de viver situações múltiplas, tanto presenciais como digitais, ao mesmo tempo e, b) em contrapartida, temos uma sala de aula com cadeiras enfileiradas, vestimentas idênticas (uniformes), com o uso de tecnologia restrito e hierarquia, formalidades e normas pré-estipuladas, podemos afirmar que, infelizmente, nosso sistema educacional tem apresentado, ao longo dos anos, uma adaptação tardia e defensiva às mudanças da sociedade como um todo, fato que não tem sido diferente com os millennials.
Os jovens desta geração conseguem criar seu próprio método de aprendizagem diante do imenso número de ferramentas que a tecnologia propicia. Eles são ansiosos pelo conhecimento, mas não tem paciência para assistir uma aula nos moldes tradicionais. Desta forma é importante que a escola proporcione um ambiente favorável para que alunos e professores possam interagir e colaborarem à construção de um processo de aprendizagem que seja benéfico para ambas as partes.
O site Carta Educação² destacou algumas tendências e desafios para a Educação nos próximos anos, dentre elas: colaboração entre escolas e famílias, desenvolvimento do senso crítico dos alunos e de suas habilidades socioemocionais e promoção de um modelo de avaliação que integre ao processo de ensino ao invés de punir o aluno. Estes são alguns exemplos de práticas que podem ser incorporadas no ambiente escolar utilizando recursos como gamificação e sala de aula invertida.
Apesar de já existirem práticas que estimulam a vivencia do conhecimento em um formato que propicia o desenvolvimento de habilidades sociais, críticas e, principalmente, da autonomia do aluno como, por exemplo, o Projeto Âncora que possui uma escola de Ensino Fundamental que, inspirada na Escola da Ponte de Portugal, implantou um “modelo organizacional de gestão democrática e uma reorganização das estruturas educativas tradicionais”³ , ações deste tipo requerem uma adaptação da cultura no ambiente escolar que pode se estender por anos.
Neste contexto, destaca-se ainda a educação empreendedora que tem cada vez mais ganhado espaço nos ambientes escolares. A pedagogia empreendedora, proposta por Fernando Dolabela ou o Programa Nacional de Educação Empreendedora zelam por metodologias de ensino para a educação básica e superior, onde estimulam os alunos a serem empreendedores em qualquer atividade ao mesmo tempo que os preparam para participarem de ações que propiciam a melhoria da qualidade de vida das comunidades em que estão inseridas. Ao contrário do que é difundido erroneamente, a educação empreendedora não tem como objetivo instigar os alunos a serem empresários de sucesso. Na verdade, as metodologias que tem como base o empreendedorismo preocupam-se em desenvolver os comportamentos necessários para empoderar e tornar os jovens capazes de pontuar os riscos, analisar oportunidades e escolherem uma atividade para atuar – seja funcionário público, funcionário da iniciativa privada ou proprietário de uma empresa, caso este seja seu desejo.
Enfim, existem diversas ferramentas e metodologias disponíveis que podem agregar na relação aluno e professor, bem como na construção de um ambiente escolar que propicie o desenvolvimento de competências e habilidades que tornem os jovens mais seguros para atuarem naquilo que tenha um propósito. Vale ressaltar que a escola deve estimular o senso crítico dos alunos, desenvolvendo o protagonismo e, ao mesmo tempo, instigando a reflexões de temas como educação política, sustentabilidade para que eles se tornem parte do processo decisório e tenham voz ativa. Assim sendo, muito além de transmitir conteúdos, os professores estarão colaborando à formação de cidadãos engajados na busca de um mundo mais justo e sustentável.

¹ Conforme pesquisa da Box 1824 com a McKinsey Consultoria.
² http://www.cartaeducacao.com.br/reportagens/tendencias-e-desafios-para-a-educacao/
³Fonte: Projeto Âncora, disponível em https://www.projetoancora.org.br/

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Tags: Educação Empreendedora