A Grande Aposta: o dia em que a crise bateu à porta

O filme, adaptado do livro "The Big Short: Inside the Doomsday Machine", é sobre os eventos que levaram os Estados Unidos à crise imobiliária e a subsequente implosão da economia global em 2008

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Quem acompanha o humor nacional, desde alguns espertos sketches do time do Porta dos Fundos ou até o atroz Zorra da Rede Globo, já percebeu que a grande onda do momento é zombar de figuras políticas, dado o momento politicamente catastrófico em que se encontra o país. Tal humor, apesar de muitas vezes grosseiro ou forçado, de certa forma se comunica de uma maneira que permite a compreensão da grande fatia do público. Da massa, por assim dizer. Um raciocínio similar permeia este A Grande Aposta (The Big Short, EUA, 2015), uma aguda comédia dirigida por Adam McKay (de comédias menos construtivas como Os Outros Caras e Quase Irmãos), que consegue a improvável façanha de ser um filme bastante divertido, ainda que conte uma história complexa e no final das contas, depressiva.

O filme, adaptado do livro "The Big Short: Inside the Doomsday Machine" do escritor Michael Lewis, é sobre os eventos que levaram os Estados Unidos à crise imobiliária e a subsequente implosão da economia global em 2008. Antes de seguir em frente com o texto, vamos entender exatamente o que foi esta crise e suas implicações.

A "Crise do Subprime", como também ficou conhecida, foi uma crise financeira desencadeada a partir da queda do índice Dow Jones motivada pela concessão de empréstimos hipotecários de alto risco (em inglês: subprime loan ou subprime mortgage), prática que arrastou vários bancos para uma situação de insolvência, repercutindo fortemente sobre as bolsas de valores de todo o mundo. A crise foi motivada pela concessão desenfreada de créditos imobiliários, através das empresas controladas pelo governo americano, assim como por falhas na regulação do sistema financeiro que permitia a transferência dos créditos hipotecários em série, permitindo a transferência de riscos para outras contrapartes. Alguns citam também que, a esse quadro, se acrescenta, como pano de fundo da crise, a manutenção de juros reduzidos pelo FED (o sistema de bancos centrais dos Estados Unidos), como forma de estimular a economia norte americana, recém saída da chamada crise da bolha da internet (falência das empresas ponto com), que teria ocorrido em 2001. Como deu para perceber, não se trata de um assunto engraçado, mas McKay trata o tema com uma bem sacada atmosfera farsesca.

O diretor McKay foi corajoso ao abordar um material que muitos economistas americanos e até banqueiros não foram capazes de compreender totalmente. O filme é repleto de referências à credit default swaps (CDS) e débito colateral, por exemplo, e McKay, numa tremenda sacada, ajuda seu público a entender tais assuntos repletos de jargões financeiros inserindo interlúdios onde uma determinada celebridade, como Selena Gomez, Margot Robbie e até o falecido chef Anthony Bourdain, por exemplo, fala diretamente para a câmera explicando o que está rolando.

Em outras passagens, McKay utiliza-se de sketches com narração para evidenciar outras particularidades sobre a crise, como por exemplo as strippers da Flórida que eventualmente passaram a "possuir" (ou a pelo menos ter alguma participação na hipoteca) de múltiplas propriedades. Como o filme aponta, o linguajar do mundo das finanças é deliberadamente enigmático. O público supostamente não deveria entendê-lo. A ironia é que, durante muito tempo, os próprios banqueiros claramente também não entendiam nada.

Os "heróis" do filme são na verdade os excluídos que tomaram o tempo para fazer a matemática. O paradoxo aqui é que a maioria deles é motivada pelo mesmo instinto básico - extrema avareza - que os banqueiros, que fizeram tremendo estrago na economia americana, enxergando uma oportunidade de fazer dinheiro com o estouro da bolha imobiliária. Há referências às execuções hipotecárias, assim como uma assustadora tomada em que vemos um jacaré na piscina de um condomínio abandonado, mas A Grande Aposta não é o tipo de filme que reserva muita atenção para o sofrimento dos americanos comuns. Focar demais nisso seria um risco para uma comédia.

Não tem como não suspeitar de que os responsáveis pela produção não estejam também com o rabo preso. Afinal, trata-se de um filme feito por um estúdio de Hollywood que pertence a uma empresa cujo board já teve alguns dos banqueiros que o filme tenta cutucar. Mesmo assim, as contradições são parte da atração. Os protagonistas são bem diferentes dos mestres do universo de filmes como A Fogueira das Vaidades (The Bonfire of Vanities, 1990) ou os Wall Street do diretor Oliver Stone (filmes sobre os quais ainda pretendo falar aqui no Portal Administradores). Eles são excêntricos, reclamões e muitas vezes desbocados, todos interpretados por atores da lista A de Hollywood, todos mandando ver.

Em uma brilhante performance, Christian Bale interpreta Michael Burry, um administrador de um fundo de investimentos da Califórnia cujas habilidades sociais são praticamente nulas. Apesar de sua maneira peculiar e solitária de ser, Burry é praticamente o primeiro a notar que o mercado imobiliário está "entulhado de maus empréstimos", e pelas leis de gravidade econômica, o mercado está prestes a desmoronar. Seus próprios investidores rejeitam sua previsão, no entanto, ele está determinado a torná-la de conhecimento geral.

Steve Carell está igualmente ótimo no papel de outro investidor, Mark Baum, uma figura pessimista e boca-suja que vê na situação uma chance de vingar as indignidades cometidas contra o povo americano pelas mãos dos bancos. Para Baum esta é uma cruzada moral, muito mais importante do que uma oportunidade de ganhar dinheiro. Sua atitude é diferente da atitude do oportunista corretor e malandrão de Wall Street, Jared Vennett (Ryan Gosling), este sim ávido para fazer fortuna com a desgraça alheia. Há ainda o recluso ex-banqueiro Ben Rickert (Brad Pitt, co-produtor do filme), que atua como mentor de dois corretores iniciantes que também enxergaram a iminente calamidade no mercado imobiliário com certa antecipação. Numa cena de imensa inteligência, enquanto a economia mundial entra em colapso, o personagem de Pitt senta calmamente em um bar, e usa seu laptop para facilitar negociatas milionárias, enquanto os locais o xingam.

Utilizando-se de cenas como essa, McKay combina elementos da comédia bobinha com a mais cáustica das sátiras. Há uma tremenda cena, em que várias figuras importantes de Wall Street se encontram em um espaço para conferências, esperando por um debate sobre o mercado imobiliário. Quando seus celulares começam a tocar, simultaneamente, eles constatam que seus bancos estão em perigo e fogem apressados em direção às saídas do auditório, com a dignidade em retalhos. Igualmente impactante é o surreal interlúdio em que Baum e seu staff se dirigem à Flórida para pesquisar sobre a bolha imobiliária. Eles encontram um estado onde ninguém tem dinheiro e o desemprego está nas alturas, e ainda assim, todos parecem possuir fiapos de alguma propriedade e podem inclusive pedir empréstimos para comprar mais. Empréstimos tóxicos são embalados num pacote, vendidos, reclassificados e ganham uma avaliação "Triple-A" (a melhor do mercado) pelas agências de crédito.

Quando o colapso finalmente bate à porta, fica evidente o quão terrível e dolorosa é a colisão entre os banqueiros e suas formulações abstratas, e a dura realidade das famílias que perdem suas casas, seu lares. McKay e seu roteiro vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, em parceria com Charles Randolph (do thriller A Vida de David Gale, 2003), brincam com as expectativas do público, que torce para que os heróis sejam vingados, ainda que tal vitória signifique um desastre para a economia.

A Grande Aposta termina de maneira esperta, como todo o restante do filme, mas sua mensagem é pessimista, já que pouco mudou desde a queda imobiliária e a crise financeira de 2008. Partindo do pressuposto de que sua história seria muito depressiva se optasse por seguir os eventos de outra maneira, McKay acentua o elemento cômico que anda de mãos dadas com a incompetência e a corrupção, e é por isso que A Grande Aposta é um filme-catástrofe em que ao menos rir ainda é seguro.
A Grande Aposta está disponível para o mercado de Home-Video. Confira o trailer:

 

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