A número um: uma reflexão sobre modelos de parcerias entre homens e mulheres

Fui ao cinema assistir ao filme "A número um".

Fui ao cinema assistir ao filme "A número um".

Um pouco em dúvida, afinal as bandeiras que nesse momento levantam uma pseudodiscussão sobre “o papel da Mulher ”, e especialmente os tons cinzas das bandeiras unilaterais, sempre me geram uma certo incomodo. Todo radicalismo, no fundo, se transforma numa briga de poder. E na maioria das vezes, ele é efêmero e binário, portanto tendencioso e confesso que as vezes me cansa.

Porém como adoro cinema, e uma amiga querida me disse que eu ia curtir, lá fui eu com a abertura para poder desfrutar e aprender!!

E nos primeiros minutos, as imagens e os diálogos tão bem colocados me envolveram de imediato. Principalmente ao perceber que a protagonista Emmanuelle diz não acreditar em bandeiras feministas, e afirma que sempre evitou assumir essas bandeiras... Ali foi amor à primeira escuta. Ouvir aquilo me fez ficar receptiva ao filme, o que foi valioso!

A empatia foi natural e os aspectos de reflexão que quero compartilhar com vocês vão além da temática da mulher no ambiente corporativo e da escassez em posições estratégicas. O tema que para mim despertou como essencial foi o do desenvolvimento das relações entre homens e mulheres com base no Poder.

Naturalmente, independentemente das bandeiras ou do sexismo, o fato é que hoje essas posições estratégicas de CEOs e Conselheiros que atuam com foco estratégicos estão predominantemente ocupadas por homens. O filme, com um profundo toque sutil, mostra o dilema que Emmanuelle vive ao demonstrar que quer a posição de CEO.

E o que me encantou foi a forma como Tonie Marshall desvenda com suavidade a relação de Poder que habitualmente os homens estabelecem e que, verdadeiramente coloca todos eles em uma frágil posição.

 Há uma dependência quase vital do Poder externo para manter a sua identidade de homem e, consequentemente, sua virilidade de ação. O que, se olharmos com profundidade e amorosidade honesta, é cruel!

E isso torna o convívio com mulheres que almejam uma posição estratégica uma relação de desafio e disputa, no primeiro momento, como se esse lugar fosse destinado aos homens e como se não fossem possível acontecer uma sinergia entre homens e mulheres para ocuparem melhor essa posição. Como se houvessem dois lados, um para os homens e outro para as mulheres, o que é uma visão míope quando pensamos em profissionais tão capacitados e com posições de representatividade para uma mudança transformacional.

O primeiro desafio dessa natureza que Emmanuelle vive surge no julgamento dos homens que fazem parte de sua vida íntima. O pai e o marido questionam sua ambição, como se o fato de se preparar para uma posição de CEO fosse um demerecimento de sua atual posição como Diretora. Na visão deles, ela deveria estar feliz sem querer mais!

A ausência de apoio, que vem num tom protecionista de cuidado, até poderia colocar Emmanuelle fora do seu caminho. Ao avaliar e até internamente questionando sua ambição, porém, ela se certifica de que deseja fazer um trabalho de resgate da empresa, levá-la a um patamar melhor. E assim define, sem alarde, manter sua meta, mesmo correndo o risco de ser penalizada.

E as experiências com o movimento de desconforto masculino continuam com o seu gestor, ao demostra, diante da sua atitude profissional e envolvente com os clientes Japoneses, que ela poderia ser confundida com um flerte, quando na verdade é uma atitude receptiva e feminina de acolher, que muitas vezes traria soluções rápidas para conflitos pautados em ausência de respeito e escuta.

Seu gestor, ao perceber seus talentos e ambições, deixa claro que ela é muito talentosa, porém não terá espaço. Busca demover sua meta com a possibilidade de migrá-la para uma posição no RH, como uma alternativa interessante de uma área que é reconhecida como feminina e de pouca expressão. Ao que ela diz não, por não ter perfil e desejar algo voltado mais ao Business, considerando suas competências.

Algumas cenas com seus pares demonstram um grande desconforto em ter uma mulher que proporciona interação promissora com os clientes. Novamente o olhar sutil nos mostra que executivos impulsionados pelo Poder da posição ficam cegos, desconsiderando um Poder maior de realizar negócios promissores, unindo as diferenças habilidades de profissionais homens e mulheres para gerar valor!

Todas as situações que se apresentam vem repletas de limitações de como "sempre foi", considerando que a Numero Um, quer trilhas um caminho ainda não percorrido de uma mulher assumir a posição de CEO em uma Multinacional e quase uma afronta a Lealdade Masculina.

Tonie Marshall identifica o que das compõe a Lealdade masculina, tão realçada nos ambientes corporativos, como um bem maior nas posições de Poder e num diálogo de grande impacto entre o CEO atual Jean e seu fiel executivo Marc é explicitado o que compõem essa lealdade, construída em cima de 3 Poderes: Poder do Dinheiro, Poder da Função e o Poder do Sexo ou Sedução, como se traduzissem o valor de um homem com Poder.

Esse Poder é algo que desperta o desejo de outros homens, por sentir que esse Poder expressa sua identidade. E sem perceber nascem, junto com essa lealdade, talvez, sentimentos rudimentares de ganância inveja, vaidade, orgulho e, por que não dizer, para alguns, o desejo de destruição do objeto de Poder.

Essa lealdade está mais para o Poder do que para a pessoa que exerce esse Poder e essa tríade torna executivos reféns de uma pseudolealdade, pois inexiste transparência, afinal o desejo é por algo que pertence a outro, que é diferente de ter o desejo de crescer para exercer um Poder Interno que se mantém independente da posição, dinheiro ou da quantidade de pessoas que se pode temporariamente seduzir.

No filme há um diálogo muito profundo, esclarecedor e com fortes emoções, incrivelmente o único diálogo passional de ruptura com direito a agressão física e verbal, acontece entre dois homens, entre Jean Beaumel e seu “fiel executivo ”, Marc Ronsin, quando a lealdade é abalada.

Essa relação fica frágil. Nesse momento, a tal “lealdade” deixa de existir na relação, para existir explicitamente um desrespeito, raiva, despeito e vingança.

Revelando todas as crenças limitantes que estão em torno dessa ilusão de poder, e da relação estabelecida entre os homens para manter essa vantagem de Poder que se transforma, ao mesmo tempo, numa prisão para muitos profissionais.

A reflexão da abordagem traz sobre a relação dos homens para manter-se em suas posições é, de fato, um importante aspecto para refletirmos que o Poder externo quando é desenvolvimento por profissionais sem Poder Interno irá gerar desgastes e poucas alianças de crescimento e evolução.

Poderíamos refletir e trabalhar para homens e mulheres trabalharem com consciência do seu Poder interno e que, utilizando o Poder da posição, formem alianças que proporcionem crescimento e evolução!

Pensando sobre a palavra lealdade pressupõe primeiro transparência e objetivos específicos, naturalmente internamente, para depois estabelecer compromissos leais com o outro externamente. E o filme evolui para uma relação de lealdade entre um homem Marc e uma mulher Emmanuelle.

Marc procura Emmanuelle para propor uma aliança e ela surpreendentemente escuta a proposta de Marc em ajudá-la. Com serenidade e transparência, ao final da colocação dele tão disponível, ela pergunta o que ele deseja em troca. Talvez essa pergunta nunca tenha sido realizada entre Marc e Jean, pois aquela “pseudolealdade” está pautada no dinheiro, na posição e nas conquistas sedutoras. Qualquer objetivo diferente pode ser mal interpretado, limitando o espaço para a transparência muitas vezes entre homens que acham que tudo é obvio, sem especificar e acordar com detalhes os termos de todo acordo.

Emmanuelle estabelece uma relação com Marc de respeito enquanto ele responde o que quer em troca do apoio que facilitará o alcance do objetivo. Quer trabalhar durante 4 anos em uma posição de expansão na America Latina, quer ganhar bem e depois sair do cenário corporativo. Ao final ela diz que irá pensar em suas condições.

E a base da aliança que Emmanuelle estabelece com Marc é de respeito, transparência e valorização das diferenças naturais e benéficas entre homens e mulheres. A aliança, porém, é estabelecida em objetivos comuns e isso é possível por um fator: comunicação honesta.

Quando as intenções são colocadas, os objetivos individuais e os objetivos comuns são esclarecidos com liberdade e transparência para o alcance de uma meta maior, a relação amplia seu escopo e seus benefícios.

Essa aliança pode ser percebida na última cena, na caminhada de Emmanuelle e Marc na praia, demonstrando uma sinergia entre homens e mulheres na liderança por um objetivo, um projeto, uma empresa.

Nem Marc nem Emmanuelle estão ameaçados em relação à própria identidade masculina ou feminina.

Talvez a grande mudança para as próximas gerações será construirmos um cenário de alianças que tem ideais e propósitos similares e que a união entre feminino e masculino possar ter mais competitividade e resultados.

E como benefício, tanto as mulheres como os homens continuam sendo valiosos independentemente da posição ocupada e, sim, serão valiosos pelo legado entregue!!

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