Almacenados: somos todos formigas

Com sua estrutura narrativa extremamente simples e sua curta duração, é uma verdadeira gema escondida do Business Cinema

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"Almacenados é uma rápida mas valiosa reflexão sobre o que levamos conosco todos os dias para o nosso ambiente de trabalho"

Segunda-feira de manhã. O jovem Nin (Hoze Meléndez), assim como milhões de pessoas ao redor do mundo, atravessa a cidade dentro de conduções lotadas rumo ao trabalho. É seu primeiro dia no trabalho novo, como encarregado de um depósito localizado em uma região afastada da Cidade do México. Chegando lá, Nin conhece o Sr. Lino (José Carlos Ruiz), a pessoa a quem irá substituir na função. O Sr. Lino está em sua última semana de trabalho, após 39 anos na mesma empresa e na mesma função, e tem até sexta-feira para repassar ao seu substituto como o depósito funciona. Até aí tudo dentro da normalidade, mas bastam alguns minutos no local para Nin perceber algumas coisas estranhas em seu funcionamento, e logo ele percebe que sua semana de trabalho não será nada comum.

Almacenados (Warehoused, MEX, 2015), é uma verdadeira gema escondida do Business Cinema. Com sua estrutura narrativa extremamente simples e sua curta duração (menos de 1:30h), é difícil imaginar que a comédia carregue tanto significado e analogias sobre as particularidades, os clichês, e os absurdos do ambiente de trabalho. Os próprios protagonistas, o jovem Nin e o balzaquiano Sr. Lino funcionam como amálgamas de um pouco de tudo que permeia o mundo corporativo atual. Tanto a parte boa, quanto a ruim. Neste peculiar cenário, onde o tal depósito/armazém encontra-se completamente vazio e onde o Sr. Lino é a única pessoa no local, Nin simboliza o novo, a mudança em um rotina estagnada de trabalho em que o idoso simboliza o fim de uma era. Numa analogia mais explícita e até ingênua, Nin é o computador, e o Sr. Lino a máquina de escrever.

Dirigido por Jack Zagha Kababie, o filme explora com oportunismo o roteiro extremamente inteligente de David Desola, cujos diálogos são a maior qualidade da produção. Toda a narrativa se concentra na dupla de protagonistas, e 99% do filme se desenrola dentro do galpão vazio, exceto pela presença dos dois e de uma pequena mas ativa colônia de formigas num dos cantos do depósito. Esta colônia, diga-se de passagem, rende ao filme uma de suas melhores e mais relevantes sequências, quando Nin e Lino traçam paralelos entre as formigas e a raça humana, com resultados surpreendentes e engraçados.

O humor aliás, é afiadíssimo, tanto no texto como na troca de diálogos entre os dois. O choque cultural entre estes dois funcionários separados por pelo menos 40 anos de idade, é uma das grandes forças da produção, que começa a desenvolver o humor e a química entre os personagens como forma de chegar ao que o filme realmente quer discorrer: As peculiaridades do ambiente de trabalho. E o que não falta no funcionamento deste depósito vazio são peculiaridades...

A começar do velho relógio de ponto na parede, que há pelo menos 39 anos (tempo em que o Sr. Lino tem sido o encarregado do depósito), marca o horário sete minutos adiantado. Então, segundo as palavras do meticuloso Sr. Lino, para que no cartão de ponto apareça o horário das 07:00h, é preciso inserir o mesmo no relógio precisamente às 06:53h. Na saída entretanto, o velho marca sua saída às 15:00h do relógio, ou seja, às 15:07h, e mal sabe ele que estes sete minutos a mais trabalhados todos os dias durante 39 anos, segundo os cálculos do recém-chegado Nin, renderiam à ele cerca de 26 mil pesos a mais na sua aposentadoria.
Outra peculiaridade é que o armazém está sempre vazio. Ninguém entra, ninguém sai, com exceção dos dois, assim como qualquer tipo de mercadoria. Segundo o Sr. Lino, "às vezes os caminhões chegam, às vezes não", mas Nin começa a perceber que as coisas não são bem assim como o velho empregado diz.

O que é mais interessante observar neste Almacenados, é a profundidade de suas camadas narrativas, escondidas sob a faceta de um filme comum. Apesar de sua simplicidade na concepção, a produção trabalha com propriedade temas que vão desde a necessidade de se ganhar o pão de cada dia, até a burocracia do mundo corporativo (representadas pelo irredutível Sr. Lino), que para se ter uma ideia, passou onze anos em pé quando começou na função de ajudante do encarregado anterior, porque simplesmente não pensou em trazer uma segunda cadeira.

Por vezes agindo até como uma paródia e extrapolando os clichês do mundo corporativo, Almacenados também desenvolve o lado humano da relação improvável que começa a surgir entre Lino e Nin, que simboliza a chegada do novo, e o rompimento dos velhos costumes. Num determinado momento da história, Nin fica sozinho no armazém enquanto o Sr. Lino vai à sede da empresa tratar dos assuntos de sua aposentadoria, e o que se vê é o quanto a situação do local poderia ser diferente com uma pessoa com outra mentalidade ocupando a função. Vale ressaltar a sequência que vem em seguida, envolvendo uma chamada telefônica e as hilariantes consequências imediatas de tal ligação.

Neste cenário, brilham as atuações da talentosa dupla central, cujos personagens aos poucos vão ganhando a simpatia e a compaixão do espectador, à medida em que começamos a entender um pouco mais sobre suas vidas, em como foram parar ali e principalmente, porque continuariam a trabalhar em um local como aquele. A narrativa traça um equilíbrio perfeito entre a disciplina e o respeito inerentes na curta relação entre mestre e aprendiz, e em como não só o jovem Nin tem a aprender com o Sr. Lino, mas principalmente o contrário. Na vida, realmente nunca é tarde para se aprender algo.

Almacenados é uma rápida mas valiosa reflexão sobre o que levamos conosco todos os dias para o nosso ambiente de trabalho, e em como mesmo o funcionário aparentemente mais descartável, tem a agregar na corporação para a qual presta seus serviços. Kababie e seu filme traçam a linha entre aqueles que consideram e dão importância a seu trabalho, não importa ele qual seja. Para a grande maioria, o que importa é o sucesso. Para outros, o que mais importa é o pão sobre a mesa. Assim como até as formigas no canto do depósito deste Almacenados já sabem, trabalhar é preciso. A questão é como você o faz.

Almacenados está disponível no catálogo da Netflix.

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