Cruzar a linha de chegada

Desvendando a alma do maratonista

O que você pensa ou sente quando vê um maratonista cruzar a linha de chegada? Apenas na dura prova que ele acabou de realizar? Já parou para pensar no que o levou até aquele momento?

Quais foram as suas razões, os seus motivos? Vários podem ter sido os motivos: amor ao esporte, desejo de provar a si mesmo do que é capaz, motivos de saúde etc.

Agora, já parou para pensar o que teve que fazer o maratonista para tornar-se capaz daquela façanha? O desenvolvimento de uma disciplina férrea, a nova sensação de poder, de elevação da sua autoconfiança e da sua autoestima? Por outro lado, o cansaço, as dores musculares, as ameaças de lesão?

Ser maratonista é um estilo de vida. Envolve escolhas, disciplina e muita persistência.

Um estilo de vida dos mais democráticos, pois está ao alcance de qualquer um (exceto crianças e adolescentes, para os quais se recomenda distâncias menores). Um estilo de vida para o qual não há barreiras. Independente do gênero, da etnia, da condição socioeconômica e da faixa etária (com a exceção da acima citada), vemos maratonistas pelas ruas e trilhas do mundo.

A adoção desse estilo é gradual. Aos poucos percebemos que algumas coisas estão mudando. Já não sentimos tanta vontade de ir às baladas e as churrascadas regadas a barris de “chops” também não nos atraem como antes. As conversas e piadinhas que costumam acompanhar esses eventos já não têm tanta graça. Os amigos começam a nos estranhar. Sentimo-nos cada vez mais atraídos pelas histórias de vida dos nossos novos amigos, seus treinos, suas dificuldades, suas superações e vitórias. É, meu amigo, sinais de que está chegando o momento de realizar escolhas. Sem dramas, sem culpas e, acredite, com uma sensação de leveza impossível de ser descrita.

Brota um sentimento de profundo respeito para com o maravilhoso instrumento de ação que é o nosso corpo físico. Exames médicos completos, detalhados e periódicos são o indicativo da nossa preocupação em mantê-lo, o corpo, no melhor das suas condições. Uma alimentação equilibrada e saudável passa a ser o nosso novo hábito alimentar. Passamos a merecer a nova refeição. Sabe o que isso significa? Sabe o que significa superar a muleta da gula para encobrir frustrações e desânimos? Passamos também a merecer o repouso abençoado. A fazer questão dele.

Sabe o que significa riscar do nosso vocabulário o termo e o comportamento danoso chamado preguiça? Desenvolvemos um condicionamento mental (que é o outro nome que dou à disciplina), que nos beneficia em todos os demais aspectos da nossa vida. Definimos objetivos, metas e um programa de treino para atingi-los. Não importam fatores externos, o nosso impulso interno nos move na realização dos compromissos assumidos. Sabe aquele dia frio e chuvoso do mês de julho? Pois é, lá vamos nós realizar o nosso treino de velocidade, de força, o longo ou mesmo o nosso repouso ativo, ou seja, o trote que também denominamos “apenas” rodagem. Faça chuva, faça sol, calor ou frio, você sempre verá um maratonista “maluco” correndo por aí. Só mesmo com a queda de raios muitos deles se recolhem, digo muitos porque em uma dessas quase virei churrasquinho do tempo. Nunca mais corri com a ocorrência de raios.

Há um ditado que diz: “Há dois tipos de maratonistas. Os que já sofreram lesões e os que ainda vão sofrer”. Por mais cuidados que tenhamos, elas, as lesões, podem ocorrer. Exames médicos, nutrição, trabalhos de fortalecimento físico, alongamentos, tênis adequados ao tipo de pisada e repouso adequado além do nosso inseparável frequencímetro cardíaco previnem e muito, mas... elas, podem acontecer. Experimentamos, então, além da dor física, tristeza, frustração e um quase desânimo. Por que quase? Porque o maratonista não desiste. Algum limite foi rompido e o aprendizado constante continua.

A glória do existir nos oferece novos começos ou recomeços. Com persistência e novamente muita disciplina, iniciamos o caminho da recuperação. Forças titânicas do nosso interior, as quais muitas vezes desconhecíamos, são liberadas e superam qualquer tendência derrotista. Aos poucos, os degraus da recuperação são vencidos até que da aflição da inatividade retomamos a alegria das nossas passadas. Poucos são os sentimentos que se assemelham a essas vitórias sobre as surpresas e contratempos. E o que nos impede de direcionarmos essas forças para outros aspectos da nossa vida? Nada. Essa força interior, essa capacidade de superação são o suporte para outros tipos de vitórias e conquistas.

Desvendando a alma do maratonista

Desenvolvemos algo que está cada vez mais raro nos dias de hoje, o hábito de mergulhar em nosso íntimo e sondar nossas capacidades, limites, sonhos e aspirações. Isolarmo-nos da superficialidade da existência e ampliarmos nossas percepções para o fato do existir. O que passa pela cabeça de um atleta quando está realizando os seus treinos de ritmo? O esforço físico, o desejo de superação naquele momento? O fazer acontecer, não amanhã ou depois, mas ali e naquele exato momento? Melhorar em alguns segundos o seu ritmo por quilômetro? Manter a sua frequência cardíaca programada durante todo o treino? Parecem pequenas coisas, mas acreditem, são momentos de absoluta plenitude. E quando é um longo de 35 quilômetros, principalmente se estiver só (você sabia que o maratonista realiza não um, mas vários treinos de 30 ou 35 quilômetros?)?

Toda a nossa vida pode passar pela nossa cabeça como se fosse um filme ou a visão da nossa próxima prova, ou, ainda, ambos em momentos diferentes do treino alimentando-nos com energias para o esforço continuado. O contato com a natureza. Quantas vezes surpreendi os primeiros raios de sol a aquecer a relva que sob os meus pés agradeciam o orvalho da madrugada que saciou sua sede. O ritmo das passadas molhadas pelo orvalho e que recebiam agora o calor amigo da nossa estrela generosa. A vida, a nossa vida, pode ser muito mais simples e feliz. A sensação do pertencer pulsa intensamente dentro de nós e um profundo sentimento de gratidão catalisa todo o nosso ser naquele momento, naquele instante sublime. No meu caso, aproximadamente 02h30min depois, termino o meu longo, os trinta e cinco quilômetros. Cansaço, suor, e, algumas vezes, dores musculares ficam submersas em um mutismo pleno de significados.

EXISTO, tenho o comando sobre o instrumento maravilhoso que é o meu corpo, para conquistar os meus sonhos, os meus objetivos. Quais? Aqueles que eu desejar. Afetivos, emocionais, espirituais esportivos, profissionais, sociais, não importa. Ou seja: posso me realizar cada vez mais enquanto SER. Posso eliminar os meus pensamentos negativos, posso se quiser, deixar para trás possíveis viciações, posso ser o ATOR E O AUTOR DO MEU NOVO EXISTIR. O que é isso? É SER MARATONISTA.

O maratonista não é um ser solitário. Juntos vivemos alegrias e tristezas.

Entretanto, os treinos longos, muitas vezes os realizamos com amigos e irmãos (sim, porque nos tornamos irmãos) da corrida. Quantas vezes e em quantos diferentes cenários, realizamos os nossos treinos juntos. O verdadeiro maratonista, aquele que treina para valer, pouco conversa durante os treinos. As falas são curtas e objetivas. Vez por outra, nos permitimos algum humor leve para descontração. No mais, o ritmo quase mágico das passadas a nos insuflar energia para o trabalho ao qual estamos nos propondo realizar. Não dá para descrever o sentimento de companheirismo e de cumplicidade que se forma em um grupo de maratonistas durante os seus treinos. Gratidão, alegria pelo companheiro ao lado, felicidade mesmo ao final do treino cujo significado em si é complementado pelo compromisso do próximo treino. Assim, simples e pleno.  

Até que chegamos ao momento da prova. Juntos, felizes mesmo, desejamos aos companheiros de treino a sua melhor prova. Cada um no seu ritmo, mas que cruze a linha de chegada, inteiro e feliz. Que tristeza, que dor, quando um de nós acaba sofrendo alguma lesão. Uma equipe unida, é como se fosse um corpo único, um único organismo. Quando uma parte desse organismo sofre, é todo ele que sofre. Uma sensação, não exatamente a do vazio, mas de que falta sim, uma parte importante de nós. Essa sensação nos invade quando perdemos um companheiro de treino em função de lesão.

Contamos o tempo juntos e acompanhamos cada passo da sua recuperação. Atuamos como se fossemos o sistema imunológico contra a tristeza, a decepção, e, muitas vezes, a ideia sabotadora do desistir.  Quando volta o companheiro, quantos treinos juntos, cadenciados, realizamos até que esteja no melhor da sua forma e a alegria retorne plenamente. Mas... E quando algum de nós, por circunstâncias da vida, para de treinar ou nos deixa? Acreditem: é algo semelhante à morte. Um vazio que não se consegue preencher. Lembranças que não se apagam. As trilhas amigas nos falam das passadas ritmadas, o orvalho nos lembra das lágrimas misturadas ao suor.

Os primeiros raios de sol, como que nos questiona e nos pergunta do amigo e irmão distante. Pedimos então, de todo o nosso coração, que aqueça também aquele coração amigo. Que o seu calor e a sua luz, Sol generoso, ilumine as novas trilhas do irmão que partiu. Que ele descubra novos momentos de realização plena. Que o ruído das nossas passadas ritmadas continue alimentando sua alma em direção aos seus novos objetivos de vida.   

O túmulo vivo do sedentarismo. Só o que importa agora é dele sair.

E quando esse partir diz respeito a nós? Acreditem, não há nada que preencha o vazio criado. Um “buraco” se forma em nós e nos acompanha para o resto de nossas vidas provocando uma sensação de “murchar”. Lágrimas silenciosas nos acompanham e as batidas do nosso coração, já não se realimentam ao ritmo mágico das passadas. Uma fonte sublime de alimentação energética é suprimida para sempre. Resta a ele, coração, o sacrifício imenso de nos suportar no túmulo vivo do sedentarismo.

Tudo o que pudermos fazer para evitar esse abismo é pouco. O verdadeiro maratonista jamais elimina de dentro de si aqueles momentos mágicos, e, no seu íntimo, alimenta sempre, a esperança de algum dia retornar. As trilhas da vida são infinitas, e, nelas, sempre encontraremos a relva molhada e os primeiros raios de sol a nos acariciar felicitando-nos o retorno, o retorno ao existir.

Repito: maratona não é simplesmente o ato de correr. É a escolha que fazemos de superar as superficialidades da vida e nos permitir momentos de conexão com o nosso Eu profundo. É a sondagem permanente da nossa capacidade de SER, de realizar, de fazer a diferença.

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