Gilberto Rodriguez: o traficante que lia Jack Welch e queria ser um administrador legítimo como você

Quando tratamos de organizações criminosas, conceitos como honestidade e lealdade sofrem uma perigosa relativização. Mas quando nos deparamos com figuras como el patrón de Cali, retratado na terceira temporada de Narcos, na Netflix, é difícil desconsiderar todas as nuances de sua atuação extremamente sui generis

Reprodução
Damián Alcázar no papel de Gilberto Rodriguez na terceira temporada de Narcos

Ninguém vira chefe de um cartel de drogas sendo bonzinho. Principalmente num mercado disputado como o colombiano. Mas Gilberto Rodríguez Orejuela, líder da narco-holding de Cáli, não à toa conhecido entre seus sócios e concorrentes como "O enxadrista", passa longe do estereótipo do patrón violento e sanguinário que figuras como Pablo Escobar eternizaram. Retratado na terceira temporada de Narcos, na Netflix, esse personagem da vida real é um case muito interessante para quem estuda e lida diariamente com negócios. E não venham com mimimi, dizendo que estou querendo usar um bandido como exemplo. Até porque não o apresentarei como inspiração para ninguém. Mas não é só com os mocinhos que aprendemos boas lições. Os malvados ensinam muito - antes de tudo - o que não fazer. E, às vezes, no contexto correto, podemos aplicar positivamente algumas de suas lições.

Sem ostentação

Numa Colômbia dilacerada pela violência das guerrilhas e das disputas e insanidades de Pablo Escobar, antigo chefão do cartel de Medellín, Gilberto usou a "irrelevância" a seu favor. Enquanto os EUA e o governo colombiano se preocupavam em conter o banho de sangue provocado pelos guerrilheiros (de direita e esquerda) e Escobar, o Cartel de Cáli conquistava mercado silenciosamente. Com seu principal concorrente enfraquecido, foi pouco a pouco conquistando seus territórios e impondo sua presença no mundo, sem estardalhaço.

Estima-se que 80% do mercado mundial de cocaína tenha sido dominado pelos traficantes de Cáli. Américas, Europa e Ásia foram dominadas pela rede que Gilberto comandava com os irmãos Miguel e José e o sócio Hélmer "Pacho" Herrera. Mesmo assim, antes da série da Netflix, é provável que você nunca tenha ouvido falar deles.

Embora carregue nas costas vários crimes, inclusive assasinatos brutais, Gilberto era discreto e sabia que os holofotes e a violência só prejudicavam os negócios. Tentava sempre o caminho da negociação e costumava lograr grandes êxitos com isso.

Franchising

O Cartel de Cáli cresceu tanto que virou uma espécie de franquia. Em vez de entrar em confronto por territórios, Gilberto e seus irmãos ofereciam um modelo ganha-ganha de sociedade. De um lado, oferecia segurança e liberdade para atuar sob os mesmos acordos firmados entre a matriz as autoridades colombianas. Por outro, os "franqueados" abriam caminho para o escoamento da produção, garantiam presença da holding no território em questão e ainda repassavam parte dos lucros.

Rede internacional

Além dos sócios em várias regiões da Colômbia, Gilberto tinha também parceiros no México (traficantes que Escobar via como concorrentes, os narcoempreendedores de Cáli conquistaram como aliados) e uma operação própria no coração do maior mercado consumidor, Nova York. Nesse setor, os irmãos Rodríguez levavam a sério a noção de eficiência: em vez de viverem eternamente naquela tensão de atravessar cocaína pela fronteira, eles exportavam legalmente para os EUA a matéria-prima utilizada no processamento da droga e a produziam lá, sob o nariz do Tio Sam.

Resultados acima de tudo

Um trecho interessante da história sobre o Cartel de Cáli é o que diz respeito ao capo Pacho Herrera. Segundo William Rempel, jornalista autor do livro que inspirou a terceira temporada de Narcos, Pacho era homossexual e isso era público e notório no círculo de comando do cartel. Num dos episódios da série, o personagem ressalta que sua sexualidade nunca foi problema perante o chefão Gilberto, que sempre enxergou em sua competência um valor muito superior a qualquer possível preconceito. Não à toa Pacho ascendeu na hierarquia do grupo e passou de  "diretor" intermediário a patrón. Em troca, Gilberto ganhou do sócio, além da excelência nos serviços prestados (amedrontar rivais e sócios que saem da linha e assassiná-los com crueldade quando necessário, sem deixar rastros), uma lealdade imensa.

Saída para a legitimidade

Quando a caçada a Escobar acabou, os colombianos ficaram com a sensação de que era possível exterminar o narcotráfico. O governo - que muitas vezes foi conivente - precisou bancar uma caçada aos cartéis. E Gilberto sabia que sua organização seria o próximo alvo. Foi aí que ele tentou sua jogada de mestre. E temos que admitir que foi um xeque. Ele negociou um encerramento amigável de suas atividades criminosas, garantindo que todos os traficantes de seu cartel se rendessem e investissem seus ganhos em negócios legítimos dentro de um prazo de seis meses. Foi uma jogada fenomenal, afinal ele garantiria impunidade para milhares de criminosos sob sua tutela. O acordo quase deu certo. Para saber o que aconteceu, deixo que vocês vejam em Narcos, para não correr o risco de dar spoiler aqui. É emblemática a cena em que o filho de Gilberto encontra um livro com Jack Welch na capa, na casa do pai, e pergunta: "O senhor continua lendo isto?". Gilberto responde: "Você deveria ler também".

Final infeliz

Os Cavalheiros de Cáli, como eram conhecidos os líderes do cartel, não tiveram um final feliz. Dois deles - José Londoño e Pacho Herrera - morreram. Gilberto e seu irmão, Miguel, estão vivos, mas presos. Foram extraditados para os EUA e cumprem pena por lá. Talvez não sobrevivam ao fim de suas penas. Gilberto, por exemplo, tem 78 anos e só terminará de acertar suas contas com a justiça americana aos 97.

Então, meus amigos, aprendam as lições. Mas encontrem outras profissões para seguirem. 

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