Lucille Ball e Desi Arnaz: o casamento que mudou Hollywood

Dentre as inovações feitas pelo casal de "I Love Lucy" está o modelo hoje consagrado de sitcoms

Domínio Público
Ball e Arnaz nos anos 50: casal criou a Desilu Productions, primeira produtora independente da indústria televisiva

Lucille Ball era nova iorquina, atriz de radionovelas e de musicais da broadway. Desi Arnaz era cubano e viajava os estados unidos com sua banda de orquestra. Os dois se conheceram em Los Angeles no set de um musical e se apaixonaram em poucos dias. Foram seis meses até o casamento e quatro anos até o primeiro pedido de divórcio. Desistiram de assinar os papeis de última hora – Desi e Lucille formavam um casal impetuoso.

Era uma relação difícil. Lucille era presa aos estúdios em Hollywood, Desi vivia em tours da banda e os dois nunca se viam em casa. Quando recebeu uma proposta de adaptar sua radionovela para a televisão, Lucille viu a chance de salvar seu casamento: só aceitaria a oferta se seu marido da vida real interpretasse o marido da televisão. O estúdio não quis – os executivos não acreditavam que o público americano aceitaria um casal formado por uma linda ruiva americana e um cubano de sotaque latino forte. Para conseguir aprovação, Lucille e Desi resolveram criar sua própria produtora, alugar o equipamento necessário e gravar o piloto de I Love Lucy. Assim nasceu a Desilu Productions, a primeira produtora independente da indústria televisiva.

Foi apenas a primeira das várias inovações do casal. Contrários à ideia de se mudar para Nova York, onde era concentrada a produção televisiva na década de 50, Lucille e Desi também precisaram mudar a maneira de produzir e gravar a série. Para transmitir I Love Lucy com qualidade em todo o país – a prática, na época, era exibir a versão ao vivo na costa leste dos EUA e uma versão gravada da televisão na costa oeste –, os dois produziram a série em filme. Tiraram do próprio salário para arcar com os custos e acabaram ficando com os direitos sobre o programa. De uma só vez, previram as maiores tendências da indústria: a mudança dos grandes estúdios para Hollywood, o uso do filme, as produtoras independentes e a lucratividade dos direitos autorais em seriados.

Todos amam a Lucy

Durante suas seis temporadas, I Love Lucy foi um sucesso de público e crítica. A série recebeu 22 indicações aos prêmios Emmy e foi o programa mais assistido dos EUA por quatro anos. O episódio mais visto da série, Lucy Goes to the Hospital, foi visto por 44 milhões de pessoas. Para se ter uma ideia do sucesso, a posse do presidente Dwight D. Eisenhower, exibida no dia seguinte, foi assistida por 29 milhões de pessoas. E a audiência continua até hoje. Segundo o TV Guide, as reexibições da série são vistas por 40 milhões de americanos a cada ano. Recentemente, o canal CBS transmitiu um especial com dois episódios coloridos digitalmente, exibidos originalmente em 1955.

Um novo formato de sitcom

Pense no modelo consagrado de sitcom. Vários sets dispostos um ao lado do outro, filmados com uma configuração de múltiplas câmeras (que permitem capturar diversos ângulos simultâneos) de frente para uma plateia que assiste e ri ao vivo. Impossível não lembrar do hit dos anos 90 Friends ou da atual The Big Bang Theory. É um modelo que surgiu em 15 outubro de 1951, data da estreia de I Love Lucy. Ao produzir uma das sitcoms mais famosas da história, Desi Arnaz deu vida ao que viria se tornar o formato mais conhecido de Hollywood, e de quebra, ainda abriu caminho para a uma prática da televisão que até hoje é presença constante nas programações: as reprises.

A primeira CEO de Hollywood

O casamento de Lucille e Desi e a série I Love Lucy chegaram ao fim no mesmo ano. Depois de duas décadas de parceria, o casal se divorciou em 1960, e Lucille acabou comprando a parte de seu ex-marido na produtora. No comando da Desilu, a atriz se tornou a primeira CEO de um grande estúdio e uma das mulheres mais influentes de Hollywood. Sua administração foi marcada por investimentos na produção de novos seriados, e foi durante seus anos solo que surgiram clássicos como Star Trek e Missão Impossível. Lucille comandou a empresa até 1967, quando a Desilu Productions foi comprada pela Paramount Pictures e transformada na Paramount Television em um acordo de US$ 17 milhões.

Linha do tempo:

1940 – Lucille e Desi se conhecem no set do musical Too Many Girls e se casam

1950 – O casal cria a Desilu Productions, primeira produtora independente da indústria televisiva

1951 – Estreia I Love Lucy, com Lucille e Desi nos papeis de Lucy e Ricky Ricardo

1957 – Depois de 181 episódios, I Love Lucy chega ao fim

1960 – Lucille e Desi se divorciam

1962 – Lucille compra a parte do ex-marido na Desilu e assume o controle da produtora

1966 – Star Trek e Missão Impossível estreiam na televisão

1967 – Lucille vende a Desilu para a Paramount Pictures

1986 – Desi Arnaz morre em decorrência de um câncer de pulmão

1989 – Lucille Ball falece vítima de um aneurisma na aorta

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