O Lobo de Wall Street: a epítome do "business cinema"

"Ainda que Belfort seja um sujeito de ações de caráter duvidoso, é inegável que o cara sabia liderar".

Olá, prezado leitor do Portal dos Administradores. Para quem não me conhece, meu nome é Eduardo Kacic e é com muita satisfação que hoje faço minha estreia no Administradores, com uma coluna sobre cinema. Aqui, irei trazer, quinzenalmente, um texto que mostra a forte relação que existe entre o cinema e o mundo corporativo - ou "mundo dos negócios", se preferirem. Antes de falar do filme desta coluna de estreia, no entanto, quero falar um pouco sobre mim, já que posso dizer de cadeira que conheço bem ambas as vertentes da coluna: o cinema e o escritório.

Sou formado em Administração e trabalhei no mundo corporativo por cerca de quinze anos, sempre na área de planejamento estratégico das empresas por onde passei. O cinema sempre foi uma paixão na minha vida, e quando não suportei mais as agruras do chicote corporativo, que me colocava para trabalhar doze horas por dia ou mais, decidi deixar este mundo de lado e abracei o cinema e o inglês como minha nova carreira. Hoje, trabalhando como professor de línguas, tradutor cinematográfico (ou não) e crítico de cinema, ganho pouco mais da metade do que ganhava sentado em minha mesa no escritório. Mas, garanto a vocês: sou muito mais feliz e realizado assim, fazendo o que realmente gosto.

Ser feliz no que se faz, inclusive, é algo que todo indivíduo almeja. Ser feliz profissionalmente é um dos principais vértices desta busca pela realização individual e, na maioria das vezes, encontrar esta felicidade pode levar o profissional a caminhos tortuosos e nem sempre corretos.

É exatamente o que acontece com o protagonista deste neo-clássico baseado em fatos reais O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, EUA, 2013), filme que considero ser a epítome do cinema que aborda o mundo corporativo, e que foi dirigido com energia quase que adolescente pelo já octogenário Martin Scorsese, gênio que dispensa apresentações. O Lobo de Wall Street marca a quinta reunião entre Scorsese e o astro Leonardo DiCaprio, que no filme interpreta Jordan Belfort, um pequeno investidor do ramo de ações da cidade de Long Island que, através de muita astúcia e malandragem fiscal, tornou-se uma potência no cobiçado mercado de ações de Wall Street.

O filme, é claro, mostra a ascensão e queda de Jordan, desde sua meteórica entrada no jogo corporativo de Wall Street, até a descoberta de seu massivo esquema de fraude contra investidores nos anos noventa, que levou Jordan a uma pena de 22 meses de prisão e ao fim de seu casamento com a bela Naomi Lapaglia (uma estonteante Margot Robbie, no filme que a fez famosa). O esquema de corrupção de Belfort se espalhou por todo o mercado de investimentos de Wall Street, incluindo instituições bancárias e atingindo até o famoso designer de sapatos de luxo Steve Madden (interpretado aqui por Jake Hoffman).

O que é curioso notar é que, ainda que Belfort seja um sujeito de ações de caráter um tanto (ou deveras) duvidoso, é inegável que o cara sabia liderar. Sua equipe o idolatrava e o seguia de olhos fechados. Seus companheiros de empreitada mais próximos sacrificariam o que fosse necessário para que o ideal de Jordan e sua empresa fosse alcançado. Jordan era o rei da motivação, e não media esforços para recompensar e motivar seus funcionários, a ponto de organizar verdadeiras orgias banhadas à drogas e álcool, dentro do próprio escritório! O mais importante, entretanto, era o fato de que Jordan realmente se importava com os seus. Belfort protegia e blindava cada um dos membros de sua equipe, e, quando precisava, era protegido por eles.

Porém, é claro que o que é visto em O Lobo de Wall Street não deve ser seguido de maneira literal. Jordan, durante boa parte de sua vida profissional, foi um contraventor, merecedor da punição que sacrificou seu casamento e sua carreira para sempre. Entretanto, é inegável a existência de lições corporativas importantíssimas a serem tiradas do filme. Vamos dar uma olhada em algumas delas:

Motivação

Belfort era um motivador nato. Seus discursos eram sempre inflamados e empolgavam seus colaboradores. Belfort inclusive era um auto-motivador excelente, o que rendia a si mesmo uma persona sempre energizada (desconsiderando o barato de seu vício em drogas pesadas, é claro).

Foco nos resultados

Belfort era um profissional de resultados. Ele dava muito aos seus, mas também exigia bastante. Performance e comprometimento eram dois de seus pilares, tendo em vista sempre um foco do business bem definido.

Seja leal à corporação e aos seus

Uma instituição de negócios não chegará a lugar algum se seus membros e colaboradores não forem leais e fiéis uns com os outros. Todos na corretora de Belfort eram mais que parceiros de negócios, eram verdadeiros amigos, o que é exemplificado muito bem na figura de Donnie Azoff (Jonah Hill), que além de fiel parceiro de negócios do protagonista, era também seu confidente e amigo pessoal. Apesar de tudo de podre que acontecia dentro da empresa, todos na organização seguiam seus valores e ganhavam dinheiro com isso. Muito dinheiro.

Acreditar em si mesmo

Quando Belfort começou seu negócio, ninguém acreditava nele a não ser ele mesmo. Belfort teve a seu favor apenas o empurrão inicial de seu mentor, Mark Hanna (aqui num pequeno mas essencial papel do ótimo Matthew McConaughey), mas tudo o que veio a seguir foi conquistado graças à crença do próprio Belfort de que ele chegaria ao topo, e trabalhou duro para isso. Uma pena que, durante este processo, Jordan tenha passado a acreditar tanto em si mesmo a ponto de se achar acima da lei.

Saiba vender seu peixe

Se tinha uma coisa que Belfort sabia fazer, era vender. O homem transformava qualquer situação em uma oportunidade de venda, e pavimentou seu caminho rumo ao topo através de gordas comissões. Belfort estava sempre preparado, com argumentos na ponta da língua para fazer seu negócio faturar. Com o tempo, Belfort transformou seu time de corretores em verdadeiras potências de venda, sob o mote de que "quanto maiores suas vendas, maiores serão suas comissões." Parece óbvio, mas é a mais pura verdade.

O fracasso é sempre um novo começo Belfort foi um case de sucesso, até que se tornou um criminoso. O protagonista era um homem de extremos, e isso nunca é saudável para os negócios. Entretanto, cabe ao espectador utilizar o discernimento sobre o que é saudável e o que não é na jornada do personagem, e utilizar as valiosas lições do Belfort homem de negócios na sua própria jornada profissional. Seja sempre justo, honesto, e mesmo o fracasso servirá como uma nova porta em sua carreira.

Hoje em dia, Jordan Belfort, o Lobo de Wall Street, ganha a vida longe do brilhantismo e do luxo, como palestrante de negócios. Talvez ele sinta falta dos tempos em que viveu o auge, mas creio que a honestidade em sua atividade atual, e a maneira com que ajuda os sonhadores com suas inestimáveis lições sobre o sucesso e, principalmente, o caminho para se chegar até ele, tornam seu trabalho algo muito mais recompensador.

"Venda-me esta caneta."

Trailer do filme: 

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