Um domingo qualquer: quando o líder se coloca entre seus liderados

"O que acho que o filme transmite de melhor é a difícil mecânica da relação entre o líder e seus subordinados, que é retratada dentro do âmbito de um time esportivo"

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Já foi o tempo em que o futebol deixou de ser apenas uma paixão esportiva, em que seus praticantes profissionais jogavam por amor à camisa. Hoje o futebol é um negócio. Um negócio de cifras milionárias e transações idem. E isso não vale só para o futebol, é claro. Nos EUA, o beisebol, o basquete (a potência NBA), e principalmente o futebol americano (e sua liga profissional, a NFL), movimentam uma incalculável gama financeira, que envolve primariamente a contratação de novos jogadores e seus portentosos salários.

É nesse universo da milionária liga de futebol americano que o sempre polêmico diretor Oliver Stone (de Platoon e Nascido em 4 de Julho), situa este seu Um Domingo Qualquer (Any Given Sunday, EUA, 1999), filme bastante injustiçado pela crítica e público na época de seu lançamento. De fato, não é um filme fácil de digerir. Com três horas de duração, o filme é um retrato didático e bastante realista dos bastidores politicamente podres do futebol americano, que envolvem desde as gestões corruptas dos times e da liga em si, até os excessos cometidos por seus praticantes, como o uso de drogas, esteróides e participação em orgias, etc...

Um Domingo Qualquer, por si só, já é uma produção que tem o business como sua essência narrativa, o que já vai totalmente de encontro com a proposta desta coluna. Entretanto, meu ponto nem é esse. Na verdade, o que acho que o filme transmite de melhor, é a difícil mecânica da relação entre o líder e seus subordinados, que aqui é retratada dentro do âmbito de um time esportivo.

O time em questão é o fictício Miami Sharks, os "Tubarões de Miami", numa clara alusão aos "Golfinhos de Miami", o Miami Dolphins. Disputando a NFL, os Sharks vão de mal a pior. A direção do time é mais suja que cozinha de restaurante da 25 de Março, e está dividida entre mãe e filha (papéis de Ann-Margret e Cameron Diaz), que vivem em atrito depois da morte do patriarca e fundador do time. Isso se reflete dentro de campo, onde o time faz um início de campanha pífio. O principal jogador da equipe, o veterano Cap Rooney (Dennis Quaid, de Alta Frequência e A Fera do Rock), acabou de se machucar seriamente, o que só complica ainda mais a vida do também veterano técnico da equipe, o experiente mas desmotivado Tony D'Amato (o grande Al Pacino, mais uma vez impecável), que não consegue unir os seus jogadores, um mais mercenário que o outro.

A sorte do time parece começar a mudar, entretanto, quando o novato Willie Beamen (Jamie Foxx, da cinebiografia Ray), substituto do veterano Rooney, injeta talento, velocidade e energia renovada à equipe, que aos poucos volta a ganhar conjunto e a vencer seus jogos. Não demora muito porém, para Beamen também passar a se sentir a última bolacha do pacote e começar a rebater as ordens do técnico, que por sua vez bate de frente com o genioso atleta. E é neste ponto em que eu queria chegar com este texto, pois Um Domingo Qualquer guarda uma das mais (senão a mais) motivadora sequência cinematográfica de todos os tempos, que acabou virando figurinha carimbada em muitas reuniões motivacionais de equipe em várias empresas por aí. Vou descrever o quadro para vocês:

Aos trancos e barrancos, o Sharks chega às semifinais da liga. No vestiário, prestes a entrar em campo para a partida, o time está em frangalhos. Ninguém fala com ninguém, o astro do time é odiado por todos, e o técnico há tempos perdeu o respeito de sua equipe. A derrota parece inevitável. É então que o experiente treinador toma uma decisão que acaba por fazer toda a diferença: ele se coloca junto de seus jogadores. Num monólogo de aproximadamente cinco minutos, um impecável Pacino discorre no que ficou famoso como o "discurso das polegadas", onde o treinador reconhece seus próprios erros como erros de todo o time. Ao se colocar no lugar de seus subordinados, de maneira franca e emocionante, Tony escancara que para vestir a carapuça de um líder, não basta apenas o cargo, mas sim dividir o fardo com seus comandados. O Sharks então entra em campo, de espírito renovado, e o que se vê a seguir eu deixo para você conferir, para não dar nenhum spoiler.

A importância da boa liderança talvez seja a máxima do mundo corporativo atual; o líder que caminha ao lado dos seus, e não à frente, puxando-os como burros de carga, ou atrás, empurrando-os contra suas vontades. O discurso do treinador em Um Domingo Qualquer vai além do sentimentalismo ou da solução improvável, e sua aplicação serve à todas as esferas da sociedade, incluindo, é claro, a corporativa. Com a emocionante e vibrante sequência do discurso das polegadas, Oliver Stone, Al Pacino e o roteirista John Logan (de Gladiador), constroem um verdadeiro testamento sobre o valor e o peso da responsabilidade, que se aplica não só dentro do campo de futebol, ou dentro dos limites de um escritório, mas sim na vida. Um Domingo Qualquer pode não ser um filme para todos os públicos, mas com certeza retrata um mundo que há muito perdeu boa parte de sua magia, e que hoje existe mais por seu valor financeiro do que pela paixão que provoca.

Um Domingo Qualquer está disponível no mercado de Home Vídeo e programação de alguns canais a cabo, e caso você queira conferir apenas a sequência do discurso, veja abaixo: 

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