Mais comentada

Um Homem de Família: as prioridades de cada um

No filme, Nicolas Cage interpreta Jack Campbell, um homem de negócios extremamente bem sucedido cuja carreira é seu único interesse na vida

Reprodução

Nesta época de celebrações, resolvi escrever uma coluna de Business Cinema com uma pegada um pouco diferente aqui no Portal Administradores. Hoje decidi falar sobre uma produção que apesar de trabalhar com alguns aspectos do mundo dos negócios, coloca seu verdadeiro foco na instituição mais importante que temos em nossas vidas: a família. Estou falando deste Um Homem de Família (The Family Man, EUA, 2000), produção que usa o artifício da fantasia para discutir temas de extrema importância, como a realização profissional e sua direta relação com o convívio fraternal.

Em Um Homem de Família, Nicolas Cage (na época em que só fazia coisa boa), interpreta Jack Campbell, um homem de negócios extremamente bem sucedido cuja carreira é seu único interesse na vida. Na verdade, a vida pessoal de Jack é inexistente, a ponto do cara trabalhar na véspera do Natal. Nesta mesma noite de Natal, Jack nem se dá ao trabalho de retornar uma mensagem deixada em seu telefone por Kate Reynolds (Tea Leoni, de Impacto Profundo e Os Bad Boys), sua namorada da época do colégio. Conforme o filme mostra, em 1987, Jack pegou um avião com destino à Londres para uma viagem de um ano, com o objetivo de enriquecer seu currículo, mesmo com Kate, às lágrimas, pedindo para ele ficar. Ela temia que se ele fosse, eles nunca se casariam. E ela estava certa: Jack nunca mais voltou.

A fantasia entra em cena na trama quando Jack, indo para seu solitário apartamento após seu longo expediente na véspera do Natal, pega um táxi cujo misterioso motorista (Don Cheadle, o War Machine do universo cinematográfico da Marvel), parece saber mais sobre Jack do que seria possível. O motorista, na verdade, lembra bastante algum daqueles "Fantasmas dos Natais Passados" da célebre história natalina do Ebenézer Scrooge, e de alguma forma, o estranho meio que abre um portal para que Jack experimente algo nesta noite que ele nunca imaginou.

Pois bem, Jack vai para a cama como um rico solteirão e acorda na manhã de Natal em uma linha de tempo paralela, onde aparentemente ele teria sim voltado de Londres, se casado com Kate, e se tornado pai de duas crianças. Ele tem até um novo cachorro, que está babando em cima dele enquanto ele tenta entender o que diabos está acontecendo nesta manhã muito louca.
O coração do filme é a gradual constatação por parte de Jack de que sua outra vida, de alguma forma, deixou de existir. Que agora ele é um homem de família, que ganhou uma oportunidade de experimentar tudo o que perdeu quando colocou sua carreira em primeiro lugar. Um pilar vital desta constatação contida na narrativa, é a personagem da esposa, interpretada de maneira adorável por Tea Leoni. A atriz dá um show ao transmitir a estranha/engraçada sensação dos inevitáveis momentos onde ela deve interagir com "o estranho que está habitando o corpo de seu marido". A história então volta a abordar a complicada relação carreira/família, quando Jack descobre que ele agora trabalha para seu sogro, como um vendedor de pneus, mas o destino mais uma vez abre uma porta para que Jack tenha que escolher entre o amor de sua recém-descoberta família, ou a grana alta que o espera em Manhattan.

Um Homem de Família é uma adorável fábula moderna, cuja direção de Brett Ratner (produtor que foi acusado de assédio sexual no final de 2017 e viu a parceria entre a Warner Bros. e sua produtora RatPac Entertainment ter o contrato rompido), garante ao filme um ar daqueles antigos filmes natalinos, ao estilo A Felicidade não se Compra (It's a Wonderful Life), clássico dirigido por Frank Capra e estrelado por James Stewart em 1946. Contudo, o roteiro da produção, à cargo de David Diamond e David Weissman (da comédia Evolução, 2001), é preciso e comovente quando coloca o dilema do protagonista no colo de seu público: O que vale mais? O sucesso ou a família?

Sem dúvida esta é uma pergunta que praticamente todos trabalhadores da classe corporativa já se fizeram um dia. Na grande maioria dos casos, um não existe sem o outro. Em um dado momento do filme Jerry Maguire: A Grande Virada (cuja crítica eu já publiquei aqui mesmo no Portal Administradores), um dos personagens diz que "se o coração não está bem, então a mente também não está", e é realmente assim no mundo dos negócios. É preciso equilibrar muito bem a demanda de trabalho e suas ambições profissionais se o seu desejo é também construir uma família.

Tanto a família quanto o trabalho geram demanda, cobram o máximo do indivíduo, e exigem sacrifícios. Muitas vezes, administrar ambas as vertentes leva o indivíduo a fazer escolhas ainda mais complicadas, onde geralmente (mas nem sempre) prevalece o âmbito familiar. E nem preciso dizer que quando a escolha é contrária, o sofrimento humano é bem maior. Neste Um Homem de Família, o personagem de Cage é um workaholic nato, cuja ambição o cegou para o que havia ao seu redor. Não há nada ruim em trabalhar bastante e principalmente em prosperar, mas quando o sucesso e o poder tomam conta do ímpeto e da bússola moral do indivíduo, sua humanidade inerente diminui em igual proporção. Por vezes, infelizmente, desaparece completamente.

Quando Jack se conscientiza de que sua "família" o faz tão feliz quanto os dólares de Nova York, é que este Um Homem de Família fala mais alto ao coração, mesmo quando sabemos, com o peito cheio de angústia, que em breve a realidade baterá na porta de Jack novamente. E com um novo ano batendo às nossas próprias portas, acho mais do que válida a proposta e principalmente a mensagem do filme, por mais clichê que possa parecer: A de que não se precisa de muito para ser feliz. Para os workaholics mais fervorosos que lerem este texto, talvez a parcela mais sentimental da produção soe piegas e irreal. E talvez até seja mesmo. Porém, prefiro acreditar que em um mundo tão cínico e feroz como o que vivemos hoje, um pouco de amor fraternal vem muito bem a calhar. Não há dinheiro no mundo que pague o valor de um abraço verdadeiro.

Um Feliz 2019 a todos.

Um Homem de Família está disponível no mercado de home-video.

As opiniões veiculadas nos artigos de colunistas e membros não refletem necessariamente a opinião do Administradores.com.br.

Avalie este artigo:
(2)