"Wall Street: Poder e Cobiça": o cinema transformando o mundo financeiro

Mesmo após mais de trinta anos do lançamento do filme, Wall Street continua evidenciando que às vezes as melhores intenções podem influenciar negativamente os pensamentos e ações do indivíduo.

Em minha opinião de cinéfilo, o cinema pode desafiar nossos valores e até nos conscientizar em relação a outras culturas. Se pensarmos na cultura da "lei do mais forte", existem poucos filmes melhores do que Wall Street: Poder e Cobiça (Wall Street, EUA, 1987), dirigido pelo polêmico cineasta Oliver Stone (de Um Domingo Qualquer, filme sobre o qual também escrevi aqui no Portal Administradores). Curiosamente, Stone tinha em mente pregar uma mensagem sobre os perigosos efeitos da avareza e da arrogância, entretanto, o filme acabou inspirando milhares de pessoas a imitar o mau-comportamento de seu protagonista, o poderoso executivo Gordon Gekko (Michael Douglas, no papel que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator). Mesmo após mais de trinta anos do lançamento do filme, Wall Street continua evidenciando que às vezes as melhores intenções podem influenciar negativamente os pensamentos e ações do indivíduo.

Para quem não conhece a história, Wall Street: Poder e Cobiça mostra a jornada de Bud Fox (Charlie Sheen, repetindo a parceria com Stone após sua atuação no drama de guerra Platoon, lançado no ano anterior), um jovem e ambicioso corretor de ações que tem sua grande chance na carreira ao ser escolhido para trabalhar para Gekko, uma verdadeira lenda dentro do mercado financeiro. É claro que Gekko não chegou ao topo apenas sendo competente; o cara é um verdadeiro tubarão de terno e gravata, cujo senso ético é no mínimo, deficiente. Bud se destaca em sua função de especulador, e o dinheiro começa a jorrar, não só para ele mas também para Gekko, que coloca o pupilo sob suas asas. Contudo, não demora para Fox ser encurralado pela Comissão de Segurança e Comércio (a temida SEC), que quer informações e provas sobre os esquemas sujos de seu chefe.

Mais interessante do que sua narrativa, é o impacto que Wall Street teve na cultura popular e business schools ao redor do mundo. Pesquisando na internet, encontrei algumas informações e opiniões muito interessantes e relevantes sobre o filme, como por exemplo um artigo publicado no Financial Times em setembro de 2010, chamado "Como Wall Street transformou o mundo dos negócios", onde vários executivos concordam em como o filme, mesmo sem querer, glamourizou a cultura financeira.

Pesquei algumas opiniões como exemplo: William Tattler, um professor da Universidade de San Diego, na época um estudante de matemática da Universidade de Kansas, relembra como ele ficou mesmerizado com o filme. "Eu era ingênuo," ele diz, "mas o filme realmente me inspirou. Stone e Douglas fizeram Wall Street parecer exótica e atraente." O ex-banqueiro Ben Ellis diz, "(Wall Street) se tornou um fenômeno cult em todas as business schools do país," onde estudantes eram pegos frequentemente recitando os diálogos mais conhecidos do filme, como "greed is good" (cobiça é boa) ou "lunch is for wimps" (almoço é para os fracos). Jean Yves Fillion, um banqueiro do BNP Paribas em Nova York e também citado no artigo do Financial Times, diz que "O filme era um reflexo do que a indústria era naquela época, mas a produção também capturou uma guinada no ramo. O mundo financeiro costumava se equilibrar sobre os pilares da estabilidade, valores e relacionamentos. O filme estava no outro lado do espectro, mostrando um lado oculto e ascendente do mundo financeiro.

E de fato, este "lado oculto" do mundo financeiro reinou por pelo menos 30 anos, até que o estouro da bolha do mercado imobiliário de 2008 colocou mercado e investidores de joelhos. Vale lembrar que também falei sobre a crise imobiliária de 2008 em meu texto sobre o filme A Grande Aposta (The Big Short), aqui mesmo no Portal Administradores.

Com Wall Street, Oliver Stone tentou tecer um conto moralista sobre os perigos da ganância e assim mudar o comportamento das pessoas. No entanto, seu filme teve o efeito contrário, e terminou por inspirar centenas de milhares a entrar no ramo. E considerando o fato de que os mercados ao redor do mundo ainda estão sofrendo com o rescaldo da última crise financeira global (é só dar uma olhada na Grécia, Islândia, Portugal, Irlanda, entre outros), uma revisão do filme levanta a questão se a sociedade como um todo está pronta para as intenções originais de Stone.

Como exemplo, cito novamente o artigo do Financial Times, que diz que para os futuros formandos em matemática e economia, a atração de Wall Street ainda permanece, mas agora de maneira mais moderada. O mesmo professor Tattler, diz que "Quando eu mostro o filme para os alunos na sala de aula, é perceptível a mudança da ética nos estudantes. Em 1990, o filme era visto como inspirador; hoje os alunos ressaltam de cara o tema da moralidade presente na produção. Um outro caso curioso envolvendo o filme, foi uma carta enviada recentemente ao editor do citado Financial Times, onde cerca de vinte banqueiros da cidade de Londres atestam que é essencial reestabelecer e afirmar o propósito social das instituições financeiras, ao contrário do que "filmes como Wall Street" mostram em suas narrativas.

É claro que a mentalidade cão-come-cão da indústria continua existindo e com força total. No entanto, talvez haja espaço também para a indústria devolver um pouco aos clientes ao invés de somente tomar de suas mãos; espaço para relacionamentos e não somente transações; e aconselhamento ao invés de apenas compra e venda. Economias mundiais, empresas e indivíduos se apoiam na disponibilidade do crédito, seguros e outros serviços financeiros para que possam sobreviver, expandir e prosperar. A indústria financeira é necessária para a expansão econômica. Mas talvez uma indústria mais contida, focada em "contribuir para o bem social", seja ainda mais importante dado o sensível momento sócio-econômico do mundo em que vivemos.

Com relação à sequência de seu filme original, Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme (Wall Street: Money Never Sleeps), lançado em 2007, e o filme de minha próxima coluna aqui no Portal Administradores, Stone diz que as questões são as mesmas tratadas aqui. Seria a cobiça algo bom? Ela funciona? Seriam os valores humanos mais importantes do que os financeiros? São tópicos que sem dúvidas enfrentamos em nosso dia-a-dia e que continuam mais relevantes do que nunca. Talvez seja hora da comunidade global revisitá-los.

Wall Street: Poder e Cobiça está disponível para o mercado de Home-Video.

As opiniões veiculadas nos artigos de colunistas e membros não refletem necessariamente a opinião do Administradores.com.br.

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