Inteligência Emocional? ESQUEÇA!

Texto de Nelson Lima

Desde sempre me insurgi contra a crença em uma "inteligência emocional" apesar de ser um tema que continua a vender bem em cursos, seminários e livros. Em minha opinião (e não estou sozinho nesta posição) não existe isso de "inteligência emocional". Cientificamente é um "bluff ", um conceito impossível.

Confesso, porém, que, por força do fato do tema estar já tão cimentado em nosso léxico profissional que acabo por, uma vez por outra, aceitar dirigir cursos cujo título é...."inteligência emocional".

Não estou só nesta opinião. Milhares de colegas meus da Association for Psychological Science (que reúne mais de 18 mil cientistas da psicologia de todo o mundo), onde sou membro desde 2001, também não concordam com o conceito. O brilhante neurologista António Damásio também não e, não obstante, estuda a fundo as emoções humanas desde há muitos anos.

Afinal, porque afirmo que não faz sentido dizer que há uma "inteligência emocional" e que, por conseguinte não pode ser objeto de treinamento?

O problema está em que se tentou criar uma impossibilidade. Ninguém consegue desenvolver sua "inteligência emocional" porque essa inteligência não existe. Como também não existem muitas inteligências que, repentinamente, começaram a surgir em tudo quanto é livro de auto-ajuda: inteligência espiritual, inteligência sexual.....e por aí fora. A razão de tanta imaginação? Ajudam a vender muitos cursos e livros!

Vivemos num mundo em que a curiosidade é uma das mais poderosas motivações para se vender muita coisa. A "inteligência emocional", que tem sido objeto de excelentes campanhas de marketing editorial, tem vendido muito bem. E de tanto se repetir a mensagem, ela pegou.

Para que serve a inteligência emocional?

Com a "inteligência emocional" - dizem os seus defensores - pretende-se, afinal, ajustar os nossos comportamentos aos diferentes desafios que se colocam nas relações humanas: nas empresas, nas famílias, na vida pública. A crença cresceu de tal modo que, repentinamente, ela passou a ser vendida como a "chave para o sucesso na vida"! Que bobagem!


Ora vejamos. Há inteligência. Há emoções. Há sentimentos. Tudo isto (e muito mais) afetam nossos comportamentos. Saber ajustá-los a cada desafio e saber valorizá-los com novas aprendizagens é um trabalho que pertence ao domínio da consciência existencial, do auto-conhecimento, do projeto de vida, da auto-motivação, dos valores aprendidos e adotados, e do bom uso da inteligência!

Um cardápio mínimo de emoções nasce connosco (como o medo, por exemplo) e muitas outras são aprendidas (melhor exemplo? A vergonha). Elas afetam os nossos comportamentos e vice-versa. Muitas das nossas escolhas na vida são pressionadas por emoções (exemplo: o prazer) que depois desencadeiam outras (em nós e nos outros). É um jogo complexo (nós temos mais de 200 tipos de emoções e suas nuances).

Ao contrário do que algumas pessoas pensam, dar inteligência às emoções é impossível. Elas são poderosamente biológicas, de raíz animal, estão muito ligadas ao nosso cérebro "primitivo" se bem que o sistema límbico (onde elas são geradas) esteja também muito conetado com o cérebro executivo (o da tomada de decisões, do planeamento, do auto-controlo).

A "inteligência emocional", na verdade, pretende proporcionar-nos ferramentas para termos comportamentos emocional e socialmente adequados. Infelizmente, as emoções são "brutas" de mais para se deixarem limar ou aperfeiçoar pela inteligência. Assim, sob o ponto de vista neuropsicológico, as emoções continuarão independentes da inteligência (quantas vezes já vimos pessoas cultas, auto-controladas e inteligentes perderem seu domínio emocional de um instante para outro? Muitas, certamente).

Não há emoções inteligentes!

Mas será que não temos então controlo sobre as emoções? Claro que podemos ter mas....até certo ponto. Para isso torna-se aconselhável "educar" as emoções (o que não é o mesmo que tentar dar-lhes inteligência!), tarefa que começa bem cedo na vida, ainda antes de nascermos. Como assim? Por exemplo, uma mãe grávida muito ansiosa pode gerar um filho ansioso, com um sistema emocional altamente sensível. Poderá sofrer, mais tarde, de ataques de pânico. É uma das consequências.

Não havendo uma "inteligência emocional" suscetível de ser aperfeiçoada, o que nos resta? Eu digo: educação emocional. É a educação emocional - onde se incluem a aprendizagem de crenças, atitudes, valores, auto-respeito, senso crítico e outros elementos - que nos vai permitir ter comportamentos inteligentes, equilibrados, pautados por uma forte auto-consciência e também uma vigorosa consciência social.

E na vida adulta? Podemos "educar as emoções"? A resposta é SIM. Podemos aprender a aumentar o nosso auto-domínio, a aumentar nosso tempo de reflexão antes de agir, a aperfeiçoar nosso auto-conhecimento e a melhorar nossa capacidade de relacionamento social inteligente.

Assim, eu sugiro que se substitua o não-conceito de "inteligência emocional" pelo conceito de "educação emocional". Me parece mais preciso e cientificamente acertado. 

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Nelson Lima
neuropsicólogo





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Sobre o autor

Nelson Lima

Oi,

Sou um gestor sénior (62), neuropsicólogo, com doutoramento em Investigação Psicológica. Criei e dirijo há 10 anos o Instituto da Inteligência em Portugal, que já é a maior rede nacional de serviços de psicologia aplicada, desenvolvimento pessoal e inteligência executiva.

Fundei o instituto Future Intelligence Management em Londres (Inglaterra) dirigido ao mercado internacional de cursos, workshops e palestras sobre inteligência executiva, mentalfitness, visão estratégica, mapas de futuro, etc.

Dentro do Instituto da Inteligência dirijo diretamente o Centro de Estudos Augusto Cury (http://www.centroaugustocury.com), autor de quem sou amigo pessoal há muitos anos e que tem citado meu trabalho em alguns dos seus livros.

Represento na União Europeia a Zigma Consulting Group (que tem sede em Quito, Equador) e a revista NEUROCIÊNCIAS & NEGÓCIOS.

Durante mais de 20 anos fui gestor de diferentes empresas e também consultor.

Tenho 4 filhos (2+2), sou divorciado e adoro uma série de coisas. Sou fanático por uma boa saúde e pela longevidade (por isso cuido bem de meu corpo/mente) e me sinto 100% operacional, activo e criativo.

Tenho residência em Portugal e em Inglaterra.

Meu blog pessoal:

http://www.inteligenciaexecutiva.blogspot.com

Meu email:

www.nelsonlima@gmail.com



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Quem você acha que ganhará a "guerra" dos leitores eletrônicos (e-readers)?

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