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Bom Senso x Senso Comum

Paulo Ricardo,
Para os grandes pensadores, bom senso e senso comum são expressões que se equivalem. De Descartes no Discurso do Método é “a capacidade de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso que é propriamente o que denominamos bom senso ou razão, é naturalmente igual em todos os homens”. A proposta de Galileu nos seus dois longos diálogos, nos quais a argumentação, racional e com relação aos fenômenos, possibilitava a toda pessoa de bom senso (e motivada por uma vontade sincera) a compreensão da maior verdade do sistema do mundo de Copérnico em detrimento do de Ptolomeu, o das leis elementares da mecânica e da queda dos corpos. Toda pessoa dotada de bom senso (boa vontade): isto é, dispondo de senso comum. 

Bom senso e senso comum para grande parte dos homens envolvidos com a ciência se equivalem em um ambiente. Estão dotadas do pensamento não científico, puro, sem metodologia comprobatória. Partilhamos dessa idéia. Que tanto o bom senso, bem como o senso comum, requer de formalismo científico. Mas trazemos a tona uma outra reflexão, que os termos refletem noções simbólicas culturais distintivas. 

Será que os advogados públicos em sua greve estão usando de bom senso? Pensam eles no senso comum? 

O PIB per capita brasileiro é de apenas US$ 4.333, o que coloca o Brasil em 72º lugar no ranking dos maiores do mundo, em 2006 estávamos atrás de países como Argentina (71º), Panamá (70º) e Costa Rica (69º). 

Acreditamos que o bom senso muitas vezes cega o senso comum. O bom censo tem a capacidade de construir artimanhas e armadilhas para provar ao senso comum que o que está reivindicando está baseado no juízo e no direito. 

Temos defendido que senso comum pode ser construído e mesmo conduzido por idéias oriundas da mídia, de formadores de opinião, da escola, enfim, dos que têm influência sobre as massas.
A patologia, doença social é a incapacidade do bom senso não refletir o senso comum. Temos certeza que não é senso comum que os advogados públicos mereçam ganhar mais. 

Volta e meia o Brasil é inflado de movimentos que desejam que não cumpramos com o pagamento dos nossos financiamentos internacionais. Quantas e quantas vezes temos ido ao FMI para renegociação de nossas dívidas. Por bom senso acreditamos que somos uma nação rica, mas é senso comum que estamos às levas do caos social. Insegurança, narcotráfico, violência, grandes índices de analfabetismo, recursos ínfimos para o desenvolvimento da arte e da cultura e a saúde na beira da morte. 

Ao pensarmos no Brasil como empresa, somos a do tipo de péssimo marketing de relacionamento, se estivéssemos na Bolsa de Valores, compartilhamos com nossa Sociedade Anônima apenas o déficit e a grande carga tributária e ainda nos últimos tempos a empresa chamada Brasil passou a simbolizar um emprego para quem deseja uma vida sem esforço, competitividade e iniciativa. Como se alguma conquista não fosse fruto desses três elementos. Diante do quadro e das perspectivas dessa empresa chamada Brasil, qual executivo em sã consciência daria aumentos ao seu quadro de funcionários? 

A greve dos advogados públicos prejudicará serviços como o andamento de processos, arrecadação de tributos e contratos e convênios mantidos por toda a administração pública. Mas os mais prejudicados realmente com a greve dos advogados públicos será aquela grande parte da população feita de pobres, os que necessitam de defensores públicos (advogados custeados pelo Estado). Os advogados ficarão parados até que o governo cumpra com o acordo, que prevê reajuste salarial de 30% até 2009. Entre eles estão os advogados da União, procuradores da Fazenda Nacional, procuradores federais, procuradores do Banco Central e defensores públicos da União. 

Os mais prejudicados em sua grande maioria ganham 1 salário mínimo o que equivale a R$ 380,00. É para essas pessoas que os advogados públicos trabalham e que ganham aproximadamente em média 23 salários mínimos. 

Mas todos nós brasileiros que, cumprimos nosso ofício com a esperança de ver o Brasil um dia ser realmente mãe gentil, nos é senso comum que temos tolerado demais o intolerável, somos abusados demais em função da nossa prostração e a cada dia que passa o filme é cada vez mais dramático. Não temos nada contra os advogados públicos, mas segurem seus empregos. Desse outro lado do muro é preciso mostrar pra que se veio ao mundo. E isso é de bom senso e senso comum.

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