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Millennials, Youtubers e a Nova Revolução

O que você quer ser quando crescer? Youtubers são um exemplo da nova Revolução instaurada pela geração dos Millennials, exigindo mudanças de empresas, governos e escolas

O que você quer ser quando crescer?

Esta foi uma pergunta que provavelmente todos nós ouvimos em algum momento de nossa infância ou adolescência, como um sinal de que deveríamos direcionar a vida em função de alguma carreira. Era uma pergunta cheia de significado, principalmente se você nasceu antes dos anos 1980, e traduzia desde que grupos integraria no futuro, até o padrão de família e consumo que acabaria desenvolvendo. Hoje a pergunta permanece feita por pais e educadores, mas as respostas são um tanto diferentes das obtidas há (alguns poucos) anos atrás. As antigas ambições tradicionais, de ser médico, advogado, dentista, ou mesmo as opções tidas como fantasiosas ou muito avançadas, como cientista ou astronauta, parecem não ter mais encontrado espaço entre uma galerinha que já nasceu na versão digital. São os tais “Millennials”, que chegaram ao mundo usufruindo da infância ou juventude no limiar dos anos 2000, e que tem demonstrado o quanto o mundo será diferente, muito em breve.

Da minha geração, não tão vivida assim, muitos ainda são mais familiarizados com jornais, rádios e TV’s, no quesito informação. Recentemente, estive envolvido em uma pesquisa que demonstrou em alguns segmentos que a esfera digital já sobrepujou plenamente estes canais, não apenas com sites e portais, mas especialmente com Blog’s. Os blogueiros de viagem e as blogueiras de moda já são as referências principais para muitos consumidores na hora de decidir o que comprar. Isso soa como uma grande novidade aos olhos do mundo, mas é também uma amostra que as novidades tem encontrado vida curta nos dias atuais. Apesar de parecer novidade, tenho vivenciado que até este fenômeno do canal “Blog” já tem sofrido abalos significativos e (pasmem) já está ficando obsoleto. Quem me indicou foi meu filho, de apenas 09 anos, e sua turminha de escola tem referendado a observação. Lembra da pergunta inicial, do que ele quer ser? Pois a resposta dele é: “ser como o Rezende”. E aí, conhece?

Tenho certeza que muitos de nós, até pouquíssimo tempo, não faríamos ideia do que isso podia significar. Mas pra mais de 5 milhões de jovens, significa muito. Esta é a quantidade de inscritos que o canal feito por Pedro Rezende, de apenas 18 anos, ou melhor, o “RezendeEvil”, ostentava ao final de 2015. Além dos inscritos, seus vídeos tinham cerca de 1,5 bilhão (sim, isso mesmo, bilhão) de visualizações. Ele é um dos novos fenômenos, intitulados “Youtubers”, e sua produção é basicamente relacionadas a outro fenômeno recente, o jogo “Minecraft”, criado pela empresa Mojang (e adquirida há pouco tempo pela Microsoft). Seja dando dicas, ou apenas mostrando suas habilidades, Pedro mobilizou uma legião de seguidores e adoradores, que saíram do mundo virtual para promover cenas impensáveis em eventos lotados toda vez que ele participa. Estes seguidores são boa parte dos compradores de algumas de suas aventuras já publicadas também em livros, protagonizando o surgimento de um novo nicho de mercado.

E Pedro não é o único Youtuber admirado. Outro exemplo é a jovem “Kéfera Buchmann”, de 22 anos, que faz sucesso em diferentes redes sociais, e conta com mais de 7 milhões de seguidores em seu canal do YouTube intitulado “5incominutos”, em vídeos que falam de suas opiniões pessoais em diversos temas. Ela é uma das presentes na pesquisa "Os novos influenciadores: quem brilha na tela dos jovens brasileiros", divulgada pela Revista Meio e Mensagem e realizada pela Provokers em 2015, que indicou que dentre as 20 personalidades de vídeo mais admiradas por adolescentes de 14 a 17 anos, 10 tem canais no Youtube.

Estas novas referências são um pequeno exemplo das mudanças significativas que a nova geração tem produzido no mercado, motivando cada vez mais o estudo aprofundado sobre seu perfil. A nova geração tem sido assunto de pesquisas publicadas por empresas como Tetrapak, que em parceria com o Goldman Sachs este ano, indicou referências relativas a alimentação, percebendo que os Millennials querem comer de maneira rápida, no entanto optando por refeições saudáveis, em lugar dos atuais fast-foods. Entidades como a Casa Branca dos EUA divulgaram reportes também, como o “15 Economic Facts About Millennials” onde demonstra que os Millennials tem mais interesse em aprendizado, porém sendo flexíveis quanto onde e quando irão se dedicar aos estudos. Em eventos setoriais, como o do varejo, os Millennials foram um dos tópicos mais abordados, como visto durante a edição deste ano da NRF Retail’s Big Show, maior feira do segmento no mundo. Alguns painéis demonstraram que se trata de um grupo essencialmente conectado, exigente, imediatista, em busca de qualidade e customização. Destas características, fica cada vez mais evidente a necessidade dos negócios empenharem tecnologias como o Big Data em busca de entendimento das necessidades de seus clientes de nova geração, que até 2020 (daqui a apenas 4 anos) serão a maioria dos consumidores em qualquer mercado. É essencial mudar a linguagem, estar disponível a qualquer momento, e ofertar soluções que façam sentido, tanto do ponto de vista funcional quanto emocional.

Martin Lindstrom, em seu popular livro “Brandwashed – o lado oculto do marketing”(HSM Editora, 2013), sinaliza ainda outra característica: a necessidade de se sentir notado. Pelo Facebook, é possível perceber amostras deste comportamento, onde usuários buscam avidamente por compartilhamentos, ou pelo menos uma indicação de aprovação de suas criações e disseminações de conteúdo pelo botão “Curti”. Se sentir aceito, admirado, notado, é algo que permeia as decisões de que marca ou produto será comprado. Por isso, empresas que queiram efetivamente permanecer no mercado devem buscar mais propósito, mais emoção. Dar experiências durante a compra que façam com que o novo cliente sinta que vale a pena compartilhar com sua rede de contatos. É preciso que o novo cliente sinta que comprar aquilo vai trazer um significado, para ele e para o grupo, e vai destacá-lo dos demais.

No mercado de trabalho, também há mudanças. O sonho de gerações passadas, em integrar uma grande empresa, permanecendo nela até a aposentadoria, foi substituído por períodos menores e mais propósito. Estudo da Deloitte, intitulado “Mind the Gaps – the 2015 Deloitte Millennial Survey“, apontou que a nova geração tem buscado carreiras em que percebam impactos na sociedade, através de atividades inovadoras. Dentre diversos aspectos, o da liderança chama a atenção. Os jovens entendem que atividades de liderança devem focar nas pessoas, mas hoje tais atividades tem como foco apenas rentabilidade e recompensas pessoais.

Se não encontram espaço ideal nas organizações, criam o seu. É cada vez maior o número de jovens que idealizam e criam novos negócios, especialmente ligados a tecnologia, como o caso das start-up’s, em grande parte estimulados por ambientes como incubadoras e aceleradoras. Tem em outros jovens empreendedores sua referência, como Steve Jobs e Mark Zuckenberg, ou mesmo a brasileira Bel Pesce, e dispondo de exemplos de empreendimentos de sucesso mundial, como Dafiti, NetShoes e Easy Taxi, citados pelo relatório “The Global Startup Ecosystem Ranking 2015”, publicado pela Compass, como indicativo de um ecossistema pujante de inovação do Brasil. Seus integrantes procuram interagir para desenvolver ideias, como visto mais uma vez na recente edição deste ano da Campus Party, evento realizado em São Paulo e autodenominado a maior experiência tecnológica do mundo nas áreas de Inovação, Criatividade, Ciência, Empreendedorismo e Entretenimento Digital. Seja em que ambiente for, o espaço físico não é um problema, afinal esta nova geração criou termos como co-working e serviços compartilhados. São muitos os exemplos surgidos daí, como Uber e AirBnB, muitas vezes alavancados por plataformas onde o próprio financiamento é colaborativo.

Por tantos indicativos de mudança, o Fórum Econômico Mundial, recentemente realizado em Davos, anunciou a possibilidade de uma nova era, a chamada Quarta Revolução Industrial. Cada vez mais integrados, físico, digital e biológico estariam em uma conexão constante, o que ainda viria a impactar muito os modelos vigentes de trabalho e consumo, mas certamente decretariam o fim de diversos modelos de nossa sociedade, acentuando o que já era previsto por Manuel Castells no fim dos anos 1990, em seu livro “A Sociedade em Rede” (Paz e Terra, 2000). Logicamente a entrada desta era pode ser facilitada, e nossos Millennials serem mais que participantes, efetivos protagonistas da mudança e construção dos novos mercados. Mas a parte governamental, seja em ações de estímulo, seja na atualização jurídica, é um ponto fundamental deste processo.

O papel da educação será também fundamental para auxiliar os jovens a pensar e se preparar para o futuro, mas o modelo vigente de educação precisará se adequar também. Seja incorporando dispositivos digitais, plataformas de e-learning, games, ou tantos outros recursos já disponíveis, a escola terá que mudar seu formato, assim como marcas, produtos e empresas, para cativar e dar sentido efetivo ao que propõe, do contrário poderá sucumbir pela simples falta de interesse do novo estudante.

Um novo mundo efetivamente se descortina, e é preciso estudá-lo de maneira rápida, agir de maneira ainda mais veloz, a fim de sobreviver e se adaptar as mudanças. Que deverão durar menos que nas revoluções anteriores, visto que a futura geração Z, dos nascidos em meados de 2010, trará seus (novos) padrões em breve. Resta saber apenas se veremos esta chegada também por algum novo canal do YouTube. Até lá, busque responder a pergunta: neste novo mundo, o que você vai querer ser?

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