A nova batalha de Nikaia

*Ana Paula Alfredo

A história da luta feminina para conquistar mais espaço na sociedade atual está diariamente estampada nas páginas dos jornais. As mudanças trazidas pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman na Arábia Saudita são apenas uma demonstração de extremismo nos limites impostos às mulheres ao longo da sua história e que apenas agora poderão dirigir e frequentar arenas esportivas naquele país. Contudo, a trajetória feminina e sua busca por maiores realizações vai além do mundo árabe, da violência doméstica e da privação dos direitos básicos. Mesmo nas sociedades mais modernas e abertas, a mulher enfrenta a realidade de oportunidades reduzidas.

E uma das formas mais claras de vermos isso expresso em números é analisando o mercado de trabalho. De acordo com a Pnad 2015, as mulheres representam 44% da força de trabalho no Brasil, mas apenas 37% dos cargos de liderança. Por sua vez, o número de lares brasileiros chefiados por mulheres saltou de 23% para 40% entre 1995 e 2015, segundo informações da pesquisa Retrato das Desigualdades de Gênero. Hoje, as empresárias brasileiras já são quase 8 milhões, porém, segundo levantamento do Sebrae, a maioria delas atua em empresas informais ou com menor estrutura, como os MEIs.

Infelizmente, a realidade brasileira não é única. Mesmo em locais que são sinônimos de avanço tecnológico e inovação, como o Vale do Silício, a situação da mulher é similar. Para se ter ideia, no Vale, apenas 2% das startups são chefiadas por mulheres. Um estudo de uma professora da Universidade de Toronto mostrou que um mesmo pitch (proposta “vendedora” de um projeto para financiamento) tinha duas vezes mais chances de obter recursos simplesmente por ser lido por uma voz masculina ao invés de uma feminina.

Nos surpreendemos com os indicadores, mas a verdadeira questão é por que isso acontece. Racionalmente, todos consideramos esses dados absurdos. Mas, esses conceitos nos acompanham em pleno século XXI e continuam entranhados em nossa cultura, principalmente, na forma que tomamos decisões. E veja que não falta luta.

Ao longo do tempo tem se buscado alternativas para provar a importância da presença feminina nas organizações, para mostrar que seus resultados são efetivos, que suas características de gestão e liderança são uma força para as empresas. Mas, a professora e especialista em diversidade nas organizações, Sarah Kaplan, da Rotman School of Management, trouxe à tona uma questão fundamental. Por que temos que provar que a mulher é necessária nas organizações? Por que temos que criar casos para justificar a sua performance? Alguém já pediu essas informações a algum homem? A verdade é que até nossas perguntas são permeadas por essa visão.

A história da mulher é marcada sempre pela busca de uma justificativa para ser valorizada, de correr atrás de prejuízos e de buscar equilibrar milhares de pratos sem deixar nenhum cair. No entanto, na prática a história que temos que escrever é a da deusa grega Nikaia ou Nice.

A representação mais comum da deusa é a de uma mulher com asas. Sua imagem é hoje obrigatória nas medalhas olímpicas de verão e a mais famosa está exposta no museu do Louvre em Paris, a Samotrácia. Nikaia ou Nice, na mitologia grega, estava sempre próxima à Atena, a deusa da estratégia e das batalhas, garantindo-lhe o bom resultado em cada investida. E o melhor: Atena nunca perdeu uma batalha.

E foi justamente para mostrar a importância desse lado vitorioso da mulher, que eu, juntamente com nove outras executivas dos mais variados segmentos, criamos o Grupo Nikaia. O objetivo é, através de um curso de desenvolvimento, empoderar as mulheres e fazer que entendam o contexto no qual estão inseridas dentro das organizações, além de fazer com que acreditem na sua capacidade de voar e chegar aonde desejam, assim como a deusa grega.

Essa batalha é longa e árdua. Que Nikaia nos garanta mais uma vitória!

*Coach e membro do Grupo Nikaia

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