A verdadeira função da Imprensa

Várias teorias existem sobre porque os jornais com notícias negativas e manchetes catastrofistas sobrevivem, quando a lógica mostra que lentamente deveriam ir à falência por falta de leitores.


Já apresentei três destas teorias: Ilusão do Acaso, a Cultura do Pessimismo e a Validação da Mediocridade.
 

A primeira diz que as notícias são distribuídas meio a meio entre boas e ruins, e ninguém percebe que existe uma melhoria insignificante no mundo de  0,05% ao dia, que, no final do ano, traz muitas alegrias. Jornalistas não escolhem más notícias; elas simplesmente são mais freqüentes do que imaginamos.

 

A outra sugere que temos um gene do pessimismo que, ainda bem, nos faz ficar mais atentos a perigos potenciais do que notícias de que tudo anda bem.

 

A terceira sugere que os fracassados, e os temos muitos, adoram ou ler o fracasso dos outros ou ouvir, por exemplo, que este ano está perdido.

 

Lars Hall e Petter Johansson, no New Scientist, sugerem uma quarta e excelente razão. Nem todo mundo compra jornais para ser bem informado ou para ser auxiliado a tomar decisões, como todo mundo imagina.

Muitos de nós usamos o jornal PARA CONFIRMAR DECISÕES JÁ TOMADAS.

 
 

Se você decidiu postergar a compra de um carro, a leitura de que o PIB irá cair 4% vai de encontro à decisão já tomada. "Eu sabia que tomei a decisão correta." Se você decidiu não montar um novo negócio, não crescer neste ano, não se arriscar, são notícias negativas que você quer ouvir.

 

É, sem dúvida, mais uma forma de AUTO-ENGANO. E, como Eduardo Gianetti já escreveu, o auto-engano é benéfico para o ser humano. Todos nós somos inseguros e poderíamos estar constantemente mudando de opiniões e decisões já tomadas se não confirmássemos estas decisões já tomadas, mesmo que equivocadas e erradas.

 

Ler jornal com informações totalmente incorretas e imprecisas acaba sendo útil porque isso ajuda a solidificar nossas decisões.

 

Ao contrário do que muitos comentam por aí, Míriam Leitão acaba sendo útil. Ela ajuda àqueles que desistiram de alguma coisa na vida, de comprar, de investir, de casar, de prestar vestibular e assim por diante. Ela é lida e adorada pelos conservadores, tímidos e assustados - e estes são a maioria neste país. Tanto é que ela está na mídia com muito sucesso há mais de 30 anos, sucesso ela tem.

 

Meu post A BOLSA SUBIRÁ 6 VEZES EM 6 ANOS foi lido por 1000 pessoas. Todavia, eu descobri que a maioria já estava na Bolsa. Fiquei frustrado porque eu, pelo jeito, não influenciei ninguém, não mudei a vida de ninguém para melhor, que é o objetivo final deste blog.

 

"Eu acabo de entrar na Bolsa graças a você", me disse um amigo. Fiquei temporariamente feliz. "Há um mês estou pensando nisto, e você foi o empurrãozinho de que eu precisava".

Ou seja, não mudei nem a vida dele: ele teria entrado na Bolsa sem mim, só que uma semana depois. Só dei um empurrão. Sou uma gota d'água.

 

Conheço a maioria dos jornalistas e posso declarar que muitos se sentem igualmente frustrados, acham também que não mudaram nada. Por isso o desânimo e pessimismo, a cara de tédio. "Este país não tem jeito", "vai continuar tudo na mesma".

 
 

Os pessimistas cumprem, sim, o seu papel: o de confirmar as decisões da maioria. Que ainda é cedo para investir, empreender, arriscar e arrojar. Escrevem para os cordeiros, e não para os líderes da sociedade, que não têm paciência para ler jornal.

 

O máximo que um jornalista consegue, em poucos casos, é acelerar uma decisão que já vinha se formando na cabeça do leitor. Como livros, adoramos aqueles que dizem aquilo que já acreditávamos no íntimo, nem sempre com aquelas palavras.

 

A ação do jornalista é sempre na margem: modificar somente 1% dos leitores, ser o empurrãozinho final.

Não é o que ensinam na Faculdade de Comunicação da USP. Lá, frustam gerações e gerações de jornalistas prometendo que serão os grandes protagonistas sociais, que irão mudar o mundo e a sociedade com suas duras críticas à realidade existente, expondo as mazelas de todos os setores.

 

Adoram Gramsci, que pede que jornalistas sejam revolucionários. Mal sabem que irão modificar 1%, e olhe lá,  das vidas das pessoas graças com o que estão escrevendo.

 

Eu também andava frustrado com meus 10 anos na Veja. A maioria dos meus artigos na realidade é lida por quem já compartilhava das minhas idéias.

 

O Segredo do Casamento, que circula até hoje na internet, é lido por quem está feliz no casamento, e não por aqueles prestes a se separar.

 

Meu artigo sobre dança, A Escolha do Seu Par, está afixado nas academias de dança deste país.

 

Meu artigo Você Está Despedido é lido por todos que são despedidos, quando meu objetivo foi influenciar os seus ex-patrões.

 

Foi só quando escrevi O Poder da Validação é que percebi o que Lars Hall e Petter Johansson estão afirmando. O jornalismo também é uma forma de validação, razão pela qual o jornalismo religioso é o que mais cresce no Brasil, porque desde o início eles perceberam como a coisa funciona.

 

Somos inseguros e precisamos que outras pessoas digam o que nós mesmos sacamos. Todos nós temos o “cheiro de rua”, todos nós somos economistas práticos, para o desespero dos economistas acadêmicos, mas precisamos que alguém confirme nossas observações.

 

O Brasil Que Dá Certo é o fórum das pessoas que já estão dando certo neste país, dos que acreditam em si e neste país.

 

Eu me senti frustado nestes dois meses do blog porque no fundo estou escrevendo para os já convertidos.

 

O meu intento de mudar a imprensa que está aí, que vocês certamente perceberam, era absolutamente inviável, como Lars Hall e Petter Johansson demonstraram. Jornalistas jamais irão mudar porque o que publicam é justamente o que a maioria dos seus leitores quer ler.

 

Portanto, O Brasil Que Dá Certo nunca terá uma enorme circulação, porque somos poucos.

 

Mas longe de isso ser um desestímulo para desistir, isso é um estímulo para continuar.

 

São estes poucos, que são vocês, que precisam de um veículo que confirme as suas boas decisões, a sua visão de que o Brasil, de fato, está dando certo, e que continuará dando certo.

 

O blog americano semelhante já me avisou que quando as coisas melhorarem a circulação deste blog cairia, como de fato já está acontecendo.

 

"Quando a Bolsa sobe, nosso blog cai, quando a Bolsa cai, nosso blog aumenta rapidamente: são as pessoas em dúvida querendo confirmar a decisão tomada meses atrás".

 

Portanto, estarei aqui para acalmá-los no futuro, ou não. Quando vocês virem as coisas que davam certo darem um revés (provavelmente temporário), venham para cá. É o porto seguro.

 

Peço desculpas por ter jogado a toalha algumas vezes, agora percebo que a minha missão é outra. É ajudar a sustentar as decisões que vocês já tomaram.

 

A função do jornalismo econômico não é informar, e sim validar.

 

Não é dar furos jornalísticos sobre ruído e barulho passageiro, mas sim confirmar o que o leitor já suspeitava. É dar uma explicação mais geral ao "cheiro de rua" que o leitor já percebia.
 


Artigo publicado originalmente no site de Stephen Kanitz

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