A ideia de Estratégia para Alfred Chandler, o fundador da Business History

O historiador norte-americano, Alfred Chandler, é considerado no meio acadêmico e empresarial como o principal teórico da historia dos negócios.

Pouco conhecido no campo da História, com exceção da história econômica e da história dos negócios, Alfred Dupont Chandler Junior nasceu em 1918 e ingressou na Universidade de Harvard como estudante de história. Sua primeira incursão na pesquisa história foi seu trabalho de conclusão focado na campanha governamental da Carolina do Sul de 1876. Deste trabalho, o seu rigor metodológico de análise das fontes se tornou seu diferencial. Em seguida a sua conclusão, ingressou na Marinha e, como oficial, serviu durante a II Guerra na 1940. Segundo o historiador da economia Thomas MacCrawn (1998, p. 11), a participação ativa de Chandler na análise fotográfica da movimentação militar, durante a operação na base de Pearl Harbor demonstrou ao jovem historiador uma visão empírica da grandes inovações que mobilizaram uma grande instituição, neste caso a militar, direcionada a um objetivo estratégico.

O "papa" da História das Empresas

Com o fim da guerra, Chandler retoma seus estudos históricos na pós-graduação. De modo fortuito, encontrou seu objeto de pesquisa num improvável espaço familiar com itens pessoais destinados ao descarte. Entre o entulho de documentos pertencente a sua tia-avó que acabara de falecer, o jovem Alfred Chandler havia encontrado um manancial de documentos relacionados ao seu bisavô, Henry Varnum Poor, especialista em ferrovias no século 19 nos Estados Unidos. Varnum Poor era na verdade um analista da evolução das ferrovias, chegou a editar um jornal especializado no assunto e uma publicação periódica do Manual of Railroads of United States até 1897. Deste rico acervo, Chandler se propôs a investigar a evolução das empresas de ferrovia nos Estados Unidos, seguindo uma abordagem comparativa da história, iluminando os diferentes contextos do longo século 19.

Estudiosos, como Richard Tedlow são taxativos em afirmar que Alfred Chandler foi o fundador do campo de estudo da Business History, que no Brasil se denomina História dos Negócios e a disciplina História das Empresas. Ao desenvolver métodos e generalizações com base em um amplo acervo de fontes, tendo como lastro o método comparativo, Chandler tinha como objetivo elaborar generalizações teóricas que tivesse utilidade empírica. Apesar de já existir os estudos de casos da Harvard Business School e o Centro de Pesquisa do economista Joseph Schumpter, ao qual Chandler se associou, e alguns estudiosos neste campo, foi a partir de sua concepção de história vinculada ao sentido empírico da aplicação de suas conclusões em modelo teórico, combinado ao seu rigoroso método de pesquisa que Chandler ajudou a legitimar o território do campo da Business History, modernizando o modo de fazer da história das empresas e, segundo McCrown, tornando-a em "uma área de estudos independente e importante".

Ideias Principais

O primeiro livro que inovou o campo da história das empresas, Strategy and Structure (1962) é uma investigação das mudanças na administração de grandes empresas industriais norte-americanas relacionadas à inovação nos métodos e formas de administrar. Para isto, Chandler se propôs a analisar as mudanças de estrutura das maiores empresas industriais na primeira década de 1910. Seu estudo identificou que estas empresas implementaram o modelo descentralizado ou, como por ele chamado de "organização multidivisional" na gestão das mais diversas unidades de negócios das empresas.

Focalizando seu estudo na comparação entre a General Motors, a Du Pont, a Standard Oil e a Sears, Roebuck and Company, Chandler entendeu que a estruturação em um modelo descentralizado de linha de produção e de equipe, sob a coordenação de um "escritório central" seria uma consequência natural da complexidade do negócio e das estratégias estabelecidas.

No livro The Visible Hand (1977), que lhe concebeu o prêmio Pulitzer de História no ano seguinte, em uma alusão deliberada à clássica obra de Adam Smith, Chandler buscava com este título demonstrar que o modelo pensado por Smith não funciona nos dias atuais. O objetivo principal da obra foi a investigação dos processos de produção e distribuição de empresas comerciais norte-americanas e como esses processos foram administrados.

Para Chandler, o sentido da mão invísel que controla o mercado, prenuciado por Smith, não funciona na economia industrial de produtos massificados. Uma vez que as grandes corporações operam de modo verticalizado, conseguem deter a maior parte dos recursos, detendo o poder de "ditar" as regras do mercado. A mão vísivel pensada por Chandler, nada mais seria do que a própria "mão" das grande corporação na coordenação de atividades econômicas e na alocação dos recursos necessários. Segundo Chandler (1998, p. 248), "o advento da moderna empresa comercial nos Estados Unidos trouxe consigo, portanto, o capitalismo gerencial".

Com foco nas grandes transformações operadas no século 19 ao início do século 20, Chandler demonstrou que a existência de uma hierarquia gerencial caracteriza a moderna empresa comercial, definindo um novo tipo de capitalismo. A noção do controle de mercado pelas forças invisíveis do próprio mercado já não se comportava para a fase em que surge o mercado de massa de nível global. As grandes empresas passaram a ter recursos que as empresas menores não têm, cujo poder estava nas mãos da gerência. E este poder referia-se a alguma das funções das forças de mercado que passaram para o controle gerencial.

Origens da Grande Empresa Moderna Americana

Para Chandler, foi na década de 1850 que se formou a empresa moderna, decorrente da expansão da rede ferroviária e do sistema industrial que se firmava neste período. Teriam sido as estradas de ferro a se tornarem as primeiras grandes empresas que mobilizaram um sistema único de investimentos que até então não existia. "As estradas de ferro tiveram este papel porque seus empresários, financistas e administradores foram os primeiros a montar, financiar e dirigir empresas comerciais que exigiam maciço investimento de capital e complexos sistemas administrativos" (CHANDLER, p. 173).

A grande empresa do século 19 tinha por função coordenar e gerir recursos, cujas atividades descentralizadas estavam nas mãos de inúmeras pequenas empresas familiares. Neste momento, a função administrativa não tratava de planejar e definir estratégias para o crescimento da empresa. O cenário muda apenas entre os anos de 1890 e 1900, com o grande movimento de fusões que as grandes empresas norte-americanas passaram e que resultariam na integração das empresas e na formação de grandes corporações industriais.

Os empresários inovadores criaram novas redes de distribuição. Contavam ainda com redes varejistas e, para atender a demanda, estabeleceram organizações especializadas em compra, além de adquirir fábricas para abastecer sua necessidade de matéria-prima. Para Chandler (1998, p. 178), este mesmo processo aconteceu em muitas indústrias norte-americanas em face à queda de preços, provocando a tomada de decisão pela verticalização dos negócios, de modo a controlar o preço e a produção gerenciados por um escritório central.

Relação entre Estratégia e Estrutura

Para Alfred Chandler, a estratégia empresarial é conjunção entre a definição de objetivos de longo prazo vinculados a tomada de decisções e a necessidade de alocar recursos com foco nos objetivos. Os objetivos seriam aqueles que mobilizam grandes recursos com o objetivo de retorno do investimento num amplo prazo, como a aquisição de novas unidades de negócio, a expansão para outras regiões, o aumento de produção, entre outros.

Com isto, as empresas precisam tomar importantes decisões, uma vez que estas mudanças refletem no aumento ou redução de pessoal, na aquisição de imobilizados e ativos. E para dar conta de tais estratégia, seria exigida uma nova estrutura organizacional. A principal teoria pensada por Chandler, com base nos estudos comparativos das grandes empresas industriais norte-americanas, é de que novas estratégias demandam a criação de nova estrutura

Discordâncias

As conclusões de Chandler de que a a estrutura é uma consequência da estratégia e que permearam todos seus principais trabalhos, tem vozes dissonantes entre os estudiosos. Há aqueles que não concordam de que a estrutura está atrelada, necessariamente, a uma mudança de estratégia, e aqueles que entendem que ambos elementos podem operar as mudanças de modo concomitante.

No caso de alguns historiadores brasileiros, as críticas se refletem na ideia de eurocentrismo, em que as generalizações de Alfred Chandler não alcançariam a realidade brasileira, e portanto, não se aplicariam em empresas nacionais (FARIA, 2012). 

Mudanças à vista

Ao pensar sobre as grandes mudanças provocadas pela tecnologia, Chandler entende que a Internet é uma "nova-infraestrutura revolucionária", mas depende do desenvolvimento de outras tecnologias para operar em toda a sua potencialidade.

Em entrevista para a Revista Strategy+Business (2002), o próximo capítulo da estratégia está em dar valor ao "conhecimento tácito". A principal atitude gerencial é compreender, em profundidade, o negócio, a partir de meios informais, assim como conhecer cada vez mais o cliente e os distribuidores. A empresa deve investir em pesquisa e no aprendizado e evitar a grandes fusões. A informalidade e o aprendizado contínuo parecem ser a base estratégica pensada por Alfred Chandler nos seus 83 anos, quando foi entrevistado .

Diferentemente da linha de pensamento perseguida ao longo da carreira acadêmica em que o ambiente externo são suficientes para limitar as ações dos dirigentes, Chandler percebe que as mudanças operadas nos últimos anos devem ser percebidas com uma nova visão de mundo, em que as constantes mudanças servem como meios capazes de mobilizar ações estratégicas com foco no desenvolvimento empresarial.

Por fim, para os gerentes, administradores e estudantes de administração e atividades correlatas, o nome de Alfred Chandler talvez não seja tão conhecido como Henri Fayol, Peter Drucker ou Igor Ansoff. Contudo, o campo dos estudos da teoria da administração, da gestão estratégica e da história empresarial são devedores do trabalho deChandler que faleceu em 2007. Ao deixar como legado a possibilidade de tecer generalizações teóricas com base empírica como resultado de estudos históricos comparativos, não apenas nos ofereceu uma nova maneira de pensar a história das empresas, como nos forneceu um anteparo para compreender o sucesso ou a decadência das grandes empresas.

Referências:

CHANDLER, Alfred Dupont. Alfred Chandler: ensaios para uma teoria histórica da grande empresa. Org. Thomas K. McCrawn. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1998.

CHANDLER, Alfred. Whats is a firm? A historical perspective. European Economic Review, 36(3): 483-492, Apr. 1992. Disponível em:  https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/0014292192901067

FARIA, Alexandre. Descolonizando a gestão estratégica: o (des)encontro Alfred Chandler-Celso Furtado. 130. | CADERNOS do DESENVOLVIMENTO, Rio de Janeiro, v. 7, n. 11, jul-dez 2012.

SCHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, socialismo e democracia. Rio de Janeiro: Zahar, 1984.

Professor Chandler’s Revolution. https://www.strategy-business.com/article/18594?gko=103b7

As opiniões veiculadas nos artigos de colunistas e membros não refletem necessariamente a opinião do Administradores.com.br.
Avalie este artigo:
(1)
Tags: Alfred Chandler Business History estratégia estrutura história das empresas