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Aquela dificuldade de ensinar que empresas e capitalismo fazem bem

O problema é mais profundo, tão arraigado na nossa cultura que a coisa acontece sem nem nos darmos conta

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O problema não é a Matemática, o Português, entre outras coisas que até o professor Girafales poderia ensinar

É difícil ensinar Administração no Brasil. O problema não é a Matemática, o Português, entre outras coisas que sempre podem melhorar. O problema é mais profundo, tão arraigado na nossa cultura que a coisa acontece sem nem nos darmos conta.

Vou usar um exemplo de um artigo do jornal Valor Econômico. Não que eu tenha algo contra, pelo contrário, é um jornal muito bem escrito, teoricamente voltado ao mundo dos negócios e economia. O último lugar para encontrarmos o tipo de problema de que vou tratar aqui.

Em uma matéria que fala da diferenciação entre “Caixa 2” e Corrupção, fala-se que a ideia é separar o “joio do trigo”, explicando da seguinte forma: “Caixa 2 simples é quando um empresário faz doação não declarada a um político por motivos ideológicos, sem pedir nada em troca - como um fabricante de armas que doa recursos a um deputado da “bancada da bala”. Já na corrupção, a doação é feita mediante uma contrapartida ou promessa de benefício.

Você consegue encontrar a pegadinha? Não estou falando da tristeza que é ler que “joio” nesse caso é quem “só" fez caixa 2 (termo que vi repetido em vários jornais). Vamos prestar atenção à forma como a coisa é escrita:

O caixa 2 ocorre quando “empresário faz a doação”, a corrupção é “feita mediante contrapartida”. O empresário é descrito como o agente ativo da situação. É ele que “faz a doação” esperando ou não uma contrapartida. O político é apenas alguém passivo. Nessa descrição de mundo, o político fica ali parado, enquanto o empresário faz as doações e caixa 2, e é o agente da corrupção.

“Ah Fábio, você está exagerando…” Acontece que já ouvi de mais de um economista com doutorado que o mercado de capitais é um grande casino, já ouvi de professores de Administração que “o grande Capital” controla o mundo, que a culpa é sempre dos banqueiros ou algo parecido. Já tive que explicar a centenas, não, milhares de estudantes que o capitalismo não é o problema, que empresas são coisas boas. Que Marx, coitado, levou a culpa por uma geração preguiçosa de professores que viu nas suas ideias uma forma fácil de explicar o mundo e culpar os outros pelos seus fracassos.

A dinâmica de “empresário sempre é malvado” é algo terrível na nossa cultura. Não aprendemos que Atenas só foi o berço da Democracia pois suas navegações eram bancadas por pequenas instituições financeiras que juntavam dinheiro de investidores; não aprendemos que o Renascimento foi bancado pela nascente burguesia (do termo “quem vive em cidade", em oposição à nobreza que possuía terras no campo) europeia. Também não aprendemos que as grandes navegações, invenções e muitos dos maiores empreendimentos do mundo foram bancados com dinheiro de investidores independentes. Talvez se aprendêssemos na escola que a Administração no Império Romano era realizada em boa parte por escravos, que ganhavam dinheiro pelos seus serviços e podiam até comprar a própria liberdade, tivessemos uma visão mais "libertadora" da iniciativa privada. Quantos aqui sabem que Marco Polo, por exemplo, negociou uma taxa de sucesso pela navegação que o trouxe à América?

O Estado tem sim, e sempre teve, o seu papel, principalmente estados eficientes fizeram muito pelo desenvolvimento científico de base, pela expansão da ideia de democracia e pela ideia de que as pessoas deveriam ser iguais. Infelizmente, aprendemos sem querer que o empresário é o agente do mal, o cara que corrompe, o dono do capital pronto a arrancar dinheiro dos outros sem dar nada em troca.

Por ser cultural, essa imagem é passada e repetida sem mal percerbermos que estamos fazendo isso. É hora de se tornar atento, se informar, e parar de repetir os mesmos erros.

É hora de enfiarmos na cabeça que ter empresas faz bem.

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