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Arranjos produtivos locais

discussão sobre os arranjos produtivos locais do ABC, sua relevância e aderência aos modelos teóricos de clusters.

 

A iniciativa para desenvolver polos de arranjos produtivos locais no ABC com foco nas indústrias de plásticos, ferramentaria e autopeças com a participação de diversos atores como centros universitários FEI e Mauá, consultorias, empresas de consultoria, órgãos governamentais como SEBRAE, SENAI com o apoio econômico do Banco Mundial não chegou a ser um caso de sucesso, muito embora tenha sido louvável o esforço das partes envolvidas.

Um dos primeiros problemas que surgiram quando os consultores visitavam as empresas alvo do programa, vinha uma série de lamentações da maioria dos proprietários que esperavam apoio financeiro para equilibrar os caixas. Evidentemente não era essa a proposta do projeto. O objetivo, em última análise, era agregar conhecimento de gestão e de tecnologia para essas empresas, de forma que pudessem construir os seus próprios caminhos, melhorando a competitividade.

Evidentemente tiveram exceções, como os empresários que recebiam os consultores com muita atenção e se interessavam em aprender novos conceitos e ferramentas de gestão financeira, de recursos humanos, qualidade assegurada, tecnologias, marketing e vendas. Mas infelizmente a regra geral foi a descrença sobre o projeto, ocorrendo casos de alguns empresários olharem com desconfiança o trabalho de assessoria que o projeto oferecia. Numa das empresas visitadas a esposa do proprietário que trabalhava na parte administrativa de uma empresa se recusou a dar informações para que a empresa pudesse desenvolver um programa de qualidade assegurada ISO 9000. Como o empresário não quis contrariar a esposa, o programa não tinha condições de ser elaborado de acordo com os padrões estabelecidos.

Muitos problemas foram detectados pelas equipes, que envolviam professores universitários especialistas em áreas de gestão. Um dos mais recorrentes foi a ausência de controle sobre o fluxo de caixa, com muitos empresários misturando suas despesas pessoais com as finanças da empresa, dificultando a apuração real dos resultados e da saúde financeira do negócio.

Outro problema bastante comum observado foi a ausência de critérios para apuração dos custos dos produtos. Muitas empresas não sabiam qual produto dava resultado positivo ou prejuízo, pois calculavam o total das vendas sobre os custos totais. Isso impedia a apuração sistemática dos custos por produto e dificuldades para identificar fontes de desperdícios e custos fixos que encareciam o preço final. Numa das empresas, após a orientação de técnicas de apuração de custos, descobriu-se que um dos produtos da empresa com grande volume de vendas, resultava em constante prejuízo, fato que levou o proprietário a suspender a produção desse item.

Uma parte do programa, que visava dar capacitação aos funcionários das empresas na gestão de pessoas, com cursos de aperfeiçoamento disponibilizados, teve fraquíssima adesão. A expectativa era de pelo menos cinquenta participantes, mas o comparecimento não chegava a dez pessoas. Os empresários alegavam que não dispunham de funcionários para participarem dos cursos, pois tinham muitas atividades para desenvolver nas empresas. Com isso, houve um desperdício de recursos e o programa não atingiu os seus objetivos.

 Os Arranjos Produtivos locais é uma fase do processo de desenvolvimento de clusters ou aglomerados de empresas com o mesmo ramo de atividade ou produtos similares e complementares. A rigor, seguindo o conceito de Michael Porter, um dos primeiros estudiosos sobre esse fenômeno, as empresas participantes de um cluster devem estar numa mesma localidade, fator que possibilita a troca de experiências, tecnologias e atividades complementares, sendo apoiadas por instituições públicas locais.

Infelizmente não é o caso da região, com a maioria dos negócios dispersos nos municípios da região do Grande ABC. A rigor as empresas participantes do projeto se constituíam muito mais em ramos ou setores e não num Arranjo Produtivo clássico.  A grande diferença entre ramos e aglomerados é que os ramos não captam importantes informações de natureza tecnológica, marketing, qualificação de mão de obra, necessidades dos clientes etc. Outro fator importante que determina o sucesso de um futuro cluster é a existência de fornecedores comuns de insumos, o que torna inviável a integração vertical para trás dos participantes. A existência de problemas comuns para os envolvidos fortalece os elos entre eles, estimulando a cooperação, o que raramente ocorre nos ramos, mesmo situados em uma mesma região.

Enfim, a experiência, em que pese o sincero interesse dos gestores municipais e demais stakeholders, não deve ter alcançado os resultados esperados, não em razão de incompetência dos seus atores, mas da ausência das condições peculiares que regem o desenvolvimento de aglomerados de sucesso.  Em São Paulo existem polos de desenvolvimento em que as condições para a construção de aglomerados ou clusters são bem mais favoráveis e pelas informações disponíveis estão avançando com vigor, como é o caso de São Carlos onde se estabeleceram várias indústrias de equipamentos voltados para a medicina. Nessa localidade a interação entre a universidade e os demais atores é de fato um caso bem sucedido. É interessante citar outros casos como as indústrias de calçados em Franca e Jau, alimentos em Marília, bijuterias na região de Limeira entre outros, que podem se apropriarem das condições favoráveis e gerarem crescimento econômico, competividade e inovações.

 

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Tags: Aglomerados Arranjos produtivos locais cluster