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As bases filosóficas da Ciência da Administração

Rubens Fava,
Antes de 1.500, a visão de mundo que prevalecia na Idade Média (de 400 a 1.400) era a visão orgânica, ou seja, vivenciava-se uma interdependência dos fenômenos materiais e espirituais e a subordinação das necessidades individuais às da comunidade.

Toda a estrutura científica dessa visão orgânica de mundo estava embasada no naturalismo de Aristóteles e na fundamentação teórica de Platão e Santo Agostinho, que consideravam mais importantes as questões referentes a Deus, à alma humana e à ética.

Naquela época, a vida na terra nada mais era do que um preâmbulo para a vida eterna.

Assim a filosofia tinha como objetivo servir de base para a teologia e tinha como causa a salvação da alma após a morte, isto é, vivia-se a fase que se denominou teocentrismo.

Para o homem medieval, tudo era sagrado, pois tudo era estabelecido por Deus e cabia ao homem contemplar e compreender toda a harmonia existente na natureza.

Foi uma época em que se exigia muito das pessoas.

E como exigia!

Foi um período em que se pregava o respeito cego às autoridades, aos textos bíblicos e aos gregos.

Uma época de muita repressão, na qual, em termos científicos, pouco se inovou.

Aquele que inovava ou discordava dos textos bíblicos arriscava-se a morrer queimado para se redimir das bruxarias e alquimias provenientes de sua inovação.

É esse o motivo por que a Idade Média foi considerada a fase negra da história do desenvolvimento humano.

Esta expressão surgiu no Renascimento.

Para os renascentistas, a Idade Média teria sido uma única e longa “noite de mil anos”, que cobrira a Europa entre a Antiguidade e o Renascimento.

Mas, sabemos que não foi bem assim.

Houve um longo período de declínio em todas as áreas da sociedade e do conhecimento logo depois do ano 400 d.C., é verdade, mas não há como negar que houve alguns reais na história do desenvolvimento da humanidade.

Podemos citar a constituição do sistema escolar, com o aparecimento das primeiras escolas nos conventos medievais.

Não poderíamos deixar de citar ainda o inteligente e estudioso frade italiano, Paciolo, que se destacou por divulgar a contabilidade por partidas dobradas e que viveu nessa época, portanto, podemos concluir que a Idade Média não foi tão negra assim, não é mesmo?

A partir dos séculos XVI e XVII, iniciou-se uma mudança na natureza da ciência e do pensamento medieval.

A visão de um mundo orgânico, vivo e espiritual foi sendo substituída gradativamente pela noção de um mundo máquina, composto de objetivos distintos, em função das revolucionárias mudanças na física e na astronomia, ocorridas depois de Copérnico, Galileu e Newton.

A partir desse período, iniciado no século XV e que os historiadores denominaram Idade Moderna, surgiu o Renascimento que recolocou o homem como centro do universo, período esse chamado de antropocentrismo.

Com o Renascimento, o comércio começou a tomar força e com ele surgiram as grandes companhias de navegação, caracterizando-se pelos descobrimentos marítimos e como conseqüência o apogeu do mercantilismo, do racionalismo e o advento da experimentação científica.

De acordo com esse modelo de ciência, o homem, senhor do mundo, podia transformar a natureza, explorá-la, e ela deveria servi-lo, fazer-se escrava e obedecer.

Sai o conceito de terra como mãe nutridora e entra o conceito de natureza supridora de todos os desejos do homem.

Do ponto de vista da ciência, essa mudança da relação homem/natureza alterou também a relação ética e teórica do homem consigo mesmo.

Na verdade, essa visão homem-máquina deu origem a um novo método de investigação científica que envolve a descrição matemática da natureza, defendida por Francis Bacon.

A filosofia capitaneada por Francis Bacon mudou profundamente a compreensão da natureza, que, desde a Antiguidade, objetivava a vida em harmonia com a natureza e a realização da ciência para a glória de Deus.

Objetivando separar o que é essencial do que ele chamava de acessório, enunciou o princípio mais tarde conhecido como a “subordinação do interesse particular ao interesse geral”, um dos catorze princípios de Fayol.

Esse período, chamado de Revolução Científica, teve seu início com Nicolau Copérnico (1473-1543).

Ao conceber o sol como centro do Universo Copérnico foi contra a concepção de Ptolomeu e da Bíblia, aceita por mais de um milênio, de que a Terra era o centro do universo.

Sob a influência do pensamento medieval, concluiu ainda que o Sol ocupava a posição central do universo, o que, para ele, simbolizava a “Luz de Deus”.

Galileu Galilei (1564 – 1642) não só concordava com as teorias de Copérnico, como deu continuidade ao estudo de sua teoria.

Introduziu a descrição matemática da natureza e a abordagem empírica como característica predominante do pensamento científico do século XVII, que, mais tarde, veio a influenciar na formulação da administração científica de Taylor, sobrevivendo também como critérios importantes das teorias científicas atuais.

Hoje os pensadores atuais reconhecem que a mentalidade moderna tem suas raízes fincadas na astronomia de Copérnico, Galileu e outros.

Contudo, surgem ainda no século XVII dois personagens que muito colaboraram para a substituição da concepção orgânica da natureza, pela visão mecanicista de homem-máquina: Descartes e Newton.

René Descartes (1596-1650), filósofo, médico e matemático francês, considerado o pai da ciência moderna, concluiu a formulação filosófica que deu sustentação ao surgimento da ciência moderna a partir do século XVII.

Descartes tinha a dúvida como ponto fundamental de seu método.

Ele só não duvidava da existência de si mesmo como pensador, o que o levou a afirmar: “Cogito, ergo sum”, “Penso, logo existo”.

Assim, para Descartes, a essência da natureza humana está no pensamento humano e esse está separado do corpo.

O pensamento cartesiano, exposto no Discurso dos Métodos, afirmava que é preciso decompor um problema em outros mais fáceis até chegar a um grau de simplicidade suficiente para que a resposta ficasse evidente.

Essa foi, senão a maior, uma das maiores contribuições de René Descarte. É o que Ishikawa faz com seu gráfico de espinha de peixe dentro da Administração pela Qualidade Total.

Muitos dos princípios da Administração, principalmente os de Fayol, estão nitidamente ligados aos preceitos cartesianos de Descartes.

A física newtoniana, como foi então denominada, é considerada o ponto culminante da revolução científica, que forneceu consistência para a visão matemática da natureza e que se constituiu no alicerce do pensamento científico de Taylor e de grande parte do século XX.

Na verdade, o inglês Isaac Newton (1642-1727), complementou o pensamento de Descartes, concebendo o mundo como uma máquina perfeita, sintetizando, com isso, as obras de Copérnico, Kepler, Bacon, Galileu e Descartes.

Newton formulou as leis do movimento ao descobrir a influência da força da gravidade em todos os objetos do sistema solar.

O universo newtoniano passou a ser um grande sistema mecânico que funcionava de acordo com as leis da física e da matemática.

Ao trabalhar com o raciocínio indutivo e dedutivo, a ciência passou da observação dos fatos à criação de leis universais mediante hipóteses, que podemos denominar também indução.

Das leis, passou às teorias, dessas aos fatos, ou seja, a dedução.

O processo lógico dedutível iremos encontrar na administração científica de Taylor, que, com seus estudos de tempos e movimentos, construiu a imagem de homem-máquina, cujas leis são fixas e imutáveis.

Esta é a razão que a Teoria de Administração de Taylor é chamada de Administração Científica, ou seja, é porque ela tem toda a sua base em uma formulação técnico-científica que vem desde Copérnico até Newton.

A partir do século XIX, a maior influência viria dos chamados economistas clássicos liberais, mas esta é outra história.

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