Como a noção de tempo afeta produtividade

O tempo é uma medida relativa, historicamente constituída diante da relação do homem em uma determinada sociedade e uma época específica. Isto quer dizer que a ideia de tempo modifica com base nas interações, necessidades e instâncias de poder. A produtividade está atrelada ao tempo e, portanto, as empresas precisam repensar novos meios de se relacionar com seus funcionários através de novas perspectivas do tempo.

O tempo medido pelo relógio é algo recente se pensarmos na trajetória da humanidade. As sociedades pré-industriais baseavam sua percepção de tempo com base nas suas tarefas, orientada pelo ciclo natural do sol, que guiava o indivíduo em suas atividades básicas na agricultura. O indivíduo não estava preso à necessidade de cumprir uma jornada de trabalho determinada por um limitador, o tempo, mas valia-se pela conclusão de sua tarefa diária, o que poderíamos chamar hoje, de forma anacrônica, de meta.

Com o processo de industrialização, surgem novos agentes sociais que interferem na ideia de relação de trabalho. O empregado, que saiu de seu ambiente agrário controlado por si, torna-se uma engrenagem que compõe uma das partes de uma fábrica. Seu tempo passa a ser controlado, não mais pelas condições naturais, mas por um industrial que controla rigidamente boa parte de seu dia e de seus curtos intervalos enquanto dispõe no mínimo, dez horas por dia na fábrica. Manipulados pela necessidade de sobrevivência em um novo ambiente urbano, os primeiros operários das fábricas inglesas no século XVIII submetiam-se à disciplina do trabalho conduzida pelo relógio, equipamento ainda restrito a poucos.
A excessiva carga de trabalho, as condições degradantes em troca de baixos salários, característicos da fase inicial da Revolução Industrial não existiu sem disputas e conflitos. Como destaca o historiador inglês E. P. Thompson, das reinvindicações para a redução de horas de trabalhos, os trabalhadores passaram a exigir adicional de hora extra, ao tomarem o tempo com um novo sentido, a noção capitalista de que “tempo é dinheiro”.

Este percurso histórico traz uma importante reflexão para os dias atuais. Embora as condições de trabalho sejam bem diferentes dos nossos trabalhadores do passado, a ideia de que o tempo é ainda a matriz disciplinar do empregador que guia a rotina do seu empregado mantem-se vigente.

Não precisa ir muito além, basta perceber como o home office ainda não é um modelo de trabalho naturalizado nas empresas. Constitui-se ainda em um lento processo para que as organizações implementem como um meio factível de relação de trabalho. Existe ainda uma questão cultural introduzida desde a infância no ambiente escolar, a necessidade em atender os horários pré-definidos pela sociedade como o horário padrão das atividades cotidianas.

Por outro lado, algumas empresas mais flexíveis perceberam que a questão do tempo é um fator mutável. Não há necessidade de exigir que o funcionário esteja limitado a um horário específico, se é possível entregar seus resultados e objetivos no prazo, independente de seguir um horário delimitado.

Contudo, a gestão do próprio tempo pelo empregado não muda, necessariamente, a percepção do tempo atrelado a um intervalo limitador. Tais limites estão atrelados ao prazo com que suas atividades e objetivos devem ser concluídos. E por isso, a produtividade deve ser estimulada com base na eficiência e eficácia dos processos. Não adianta controlar o tempo do empregado dentro da empresa, se não há retorno, muito menos produtividade, nem excelência. Cabe ao líder orientar seus empregados a encontrar os meios mais adequados para desempenhar as atividades, com foco nos objetivos e na qualidade do serviço prestado. Ao personalizar a gestão pensando na própria equipe como indivíduos, o líder e a equipe podem repensar em uma relação mais saudável com o próprio tempo. Provavelmente, os trabalhadores pré-industriais tivessem uma relação mais saudável com o tempo e menos angustiante por não serem pressionados pelos ponteiros do relógio.

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Tags: produtividade Revolução Industrial tempo