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Comprometimento social, influenciadores digitais e inclusão

Nos últimos anos estamos convivendo com o crescimento da preponderância que as mídias digitais têm assumido na veiculação de conteúdo através da internet. O processo de criação e compartilhamento de conteúdos está implicado por maneiras de como entendemos as relações humanas e que por sua vez está balizado pela compreensão ética de como falamos e agimos com relação ao outro e tudo o que esse outro me impõe refletir.

A internet como meio de comunicação social passou então a ser um dos principais focos de criação de discursos que atravessam o mundo todo e chegam a lugares inimagináveis. A facilidade de acesso ao mundo virtual e a crescente onda de surgimento de criadores e criadoras de conteúdo tem sido visto pelas instituições de um modo geral como uma ferramenta de gestão para divulgação de marcas, ideias e projetos.

O movimento desse processo de investimento de uma marca em determinados criadores e criadoras passou então a ser mais uma possibilidade de atingir públicos e dessa forma vincular o que essa instituição representa a um influenciador ou influenciadora digital. Dessa forma, a vinculação entre instituição e influenciadora/influenciador passa por um determinado encadeamento de fusão, no sentido de que o discurso dito por um passa a ser percebido como o discurso assumido por outro.

Aqui chegamos a um ponto crítico desse movimento que é a financeirização de determinados discursos através desse contrato que fica estabelecido. Quando determinada marca assina a parceria com algum ou alguma produtora de conteúdo na internet ela está assinando que sua visão como instituição está intrinsecamente ligada com o que está sendo dito dentro desses conteúdos produzidos. Mas e quando o conteúdo criado e compartilhado não condiz com uma postura ética com relação à dignidade humana?

Os tempos atuais exigem que as organizações assumam uma postura comprometida socialmente, isso porque a teoria da administração de empresas recente compreende que as organizações constroem e reconstroem o contexto que estão inseridas e isso implica a necessidade de que as empresas assumam pautas que incluam grupos que são politicamente destituídos da possibilidade de viver uma vida digna, grupos como mulheres, negros e negras e LGBTQI (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queer e intersexo). A equipe gestora da sua empresa está preparada para lidar com essa realidade que vem se desenhando dentro das políticas empresariais?

Esse comprometimento social que vem ganhando espaço dentro das políticas de gestão empresariais pode ser vista, por exemplo, nas campanhas publicitárias que grandes marcas assumem quando pautam por incluir grupos minoritários, como por exemplo, campanhas de maquiagem com mulheres transexuais e mulheres negras. Apesar disso, antes de vincular uma imagem de que essas empresas estão comprometidas socialmente, é necessário que se reavalie criticamente se estão mesmo preocupadas em incluir e ampliar vozes ou se essas campanhas articulam essas demandas sociais com a pretensão de somente criar uma falsa imagem de responsabilidade social.

É necessário nos perguntarmos enquanto gestores e enquanto consumidores de determinadas marcas se a empresa realmente se preocupa em possibilitar inclusões e oferecer oportunidades. Talvez ao nos fazermos algumas perguntas, possamos refletir melhor sobre:

  • A empresa possui programa e políticas de inclusão da diversidade?
  • A empresa possui políticas contra práticas discriminatórias anti racista, anti misóginas e anti LGTQIfóbicas?
  •  A empresa possui pessoas trans em seu quadro de funcionários e mais, esses e essas funcionarias lidam diretamente com os clientes?
  • A empresa possui políticas de equidade salarial entre homens e mulheres?
  • A empresa possui mulheres, negros e negras em cargos de chefia e liderança?
  • A empresa possui projetos sociais de treinamento e desenvolvimento da comunidade?


Vincular a imagem de uma instituição à influenciadores e influenciadoras precisa estar constantemente em análises para identificar se essas parcerias compactuam com a visão de sociedade que a empresa estruturou para seguir. Além disso, não há mais margem para que não se discuta, analise e implemente praticas, programas e políticas que inclua cada vez mais, aumentando a possibilidade de que essas vidas possam ter dignidade humana e outras oportunidades de crescimento. Tornar o corpo de funcionários cada vez mais diverso é se comprometer com a pluralidade, a diversidade e a vida humana em suas mais amplas formas de ser e estar.

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Tags: diversidade ética empresarial influenciadores digitais lgbt