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Conheça o efeito Lúcifer - e resista às suas diabólicas tentações

Após entender o efeito Lúcifer - que leva pessoas boas a cometerem maldades - vamos descobrir quais os principais fatores responsáveis por esta transformação. E, depois de conhecê-los, seremos capazes de evitá-los?

Rodolfo Araújo,

No texto anterior conhecemos o famoso Estudo da Prisão de Stanford, onde Phil Zimbardo verificou in loco como pessoas boas são capazes de cometer atos cruéis - fenômeno batizado por ele de Efeito Lúcifer. Quais seriam, assim, os fatores capazes de operar esta perniciosa transformação?

 

Antes de tudo, Zimbardo entende que a maldade é uma questão de poder. É o exercício de poder para intencionalmente inflingir a alguém o mal psicológico ou físico. Ele identifica, então, os sete processos sociais capazes de tornar uma pessoa mais suscetível a cometer algum tipo de maldade:


1. Dar o primeiro pequeno passo sem pensar: normalmente algo quase insignificante, mas que abre as portas para abusos cada vez maiores e que, quando aumentado pouco a pouco, não se percebe o resultado final. Como um choque de 15 volts.

 

2. Desumanização do outro: é mais fácil fazer mal a alguém quando não se vê ou não se sabe quem é essa vítima. Os prisioneiros de Stanford não se chamavam John ou Peter, mas 416 e 325.

 

Guerreiros anônimos
Guerreiros anônimos

3. Desumanização própria: quando se está anônimo numa multidão, sua maldade é diluída entre os demais. O antropólogo R. J. Watson estudou 23 culturas em seus processos de ir à guerra. Dos oito povos que íam para a batalha sem pinturas ou ornamentos específicos, apenas uma tinha alto grau de violência, isto é: torturavam, mutilavam e/ou matavam seus inimigos. Mas dos outros quinze que mudavam a aparência (ou se escondiam atrás de óculos escuros espelhados e uniformes padronizados), tornando-se anônimos, doze matavam e mutilavam. Ou seja, das que matavam e mutilavam, 12 entre 13 mudavam a aparência. Mais de 90%.

 

4. Difusão da responsabilidade pessoal: quando um criminoso é linchado, a culpa é da multidão e não dos socos e pontapés individuais. Mais do que a covardia do grupo, representa a diluição da culpa.

 

5. Obediência cega à autoridade: como demonstrado por Milgram, a autoridade também funciona como pára-raios para atribuição de culpa de quem apenas executa ordens.

 

6. Adesão passiva às normas do grupo: odiar a torcida adversária faz parte do ritual de vestir o uniforme do seu time - mesmo que o seu irmão esteja do outro lado da arquibancada. Mesmo que você odeie uma pessoa que nunca viu apenas por causa das cores que ostenta.

 

7. Tolerância passiva à maldade através da inatividade ou indiferença: muitas vezes o indivíduo não é o responsável direto pela maldade mas permite, inabalável, que ela seja praticada, conforme descrito no texto sobre Latané e Darley.

 

Quando essa cadeia de eventos ocorre numa situação que não lhe é familiar, ou seja, onde seus habituais padrões de resposta não funcionam, você está pronto para perpetrar o mal - e nem se dará conta disso. Sua personalidade e princípios morais já estarão desligados.

 

O autor explica que a chave para tal comportamento está na situação em que a pessoa se encontra e na enorme influência que ela tem sobre os indivíduos. O sistema formado pelo conjunto de bases acadêmica, cultural, social e política do indivíduo cria as situações que haverão de corrompê-lo.

 

No Experimento de Stanford, os papéis de guardas e prisioneiros faziam parte do repertório dos voluntários. Assim que os sorteios foram realizados, cada um encaixou-se ao seu papel automaticamente, de acordo com os estereótipos pré-concebidos.

 

Para mudar uma pessoa, prossegue, você tem que mudar a situação. E se quer mudar a situação, precisa entender em que parte do sistema está o poder. É necessário identificar e remover do ambiente o elemento dessa equação determinante para que o voluntário assuma o seu papel de guarda sádico e mantenha-se ali.

 

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Abu Ghraib por Botero
Abu Ghraib na visão de Fernando Botero

Zimbardo esperava, ainda, que seus trinta anos dedicados ao tema pudessem ter esclarecido alguns tópicos no sentido de evitar que problemas semelhantes ocorressem novamente. Algo que o Pentágono parece não ter aprendido, haja visto os horrores praticados pelos soldados americanos em Abu Ghraib, cujo ambiente em muito se assemelhava aos porões de Stanford três décadas antes.

 

A leitora pode ter certeza de que os sete passos descritos acima estavam espalhados em cada cela da prisão iraquiana. Além disso, os militares ali presentes eram oficiais da reserva, ou seja, não estavam preparados para as tarefas designadas.

 

O pesquisador participou do julgamento de alguns soldados acusados de maus tratos em Abu Ghraib. Como parte da defesa, testemunhou em favor do sargento Ivan "Chip" Frederick na Corte Marcial. Argumentou que sua sentença deveria ser atenuada devido às circunstâncias do ambiente, onde as pessoas não conseguem resistir às pressões. Ainda assim, Chip perdeu suas nove medalhas, a pensão por 22 anos de serviço e foi condenado à cumprir a pena (máxima) de oito anos de prisão.

 

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Ambos os casos - Stanford e Abu Ghraib - representaram, na opinião de Zimbardo, demonstrações clássicas do poder de situações sociais distorcendo identidades pessoais, valores e princípios morais longamente celebrados, no momento em que alunos e soldados internalizavam o brutal papel de um guarda sádico.

 

Enquanto o Pentágono insistia na tese de que algumas maçãs podres haviam estragado todo o cesto, Zimbardo tinha certeza de que era o cesto que era ruim - não necessariamente as maçãs. Para ele, as pessoas não podem ser consideradas inteiramente boas antes de terem sido postas à prova numa situação extrema.

 

O experimento é utilizado hoje em dia para mostrar que a situação talvez tenha mais influência no comportamento das pessoas (Situational Attribution ou Atribuição Situacional; isto é: a causa está no outro) do que suas personalidades individuais (Dispositional Attribution ou Atribuição de Disposição; isto é: a causa está na própria pessoa). Noutras palavras, atrela o comportamento a fatores externos, antes dos internos. São conclusões compatíveis com os estudos de Milgram, ainda que a origem da influência divirja.

 

Em 2007 Zimbardo reuniu boa parte do material já publicado a respeito do Experimento de Stanford, além daquilo que vivenciou nos julgamentos de Abu Ghraib no livro The Lucifer Effect: Understanding How Good People Turn Evil.

 

Em 2010 o Experimento de Stanford vai virar filme, estrelado por Giovanni Ribisi.

 

O EFEITO LÚCIFER E A ADMINISTRAÇÃO

 

Com o termo Efeito Lúcifer Zimbardo demonstrou que pessoas comuns podem ser capazes de atos cruéis mas que, nem sempre, isso reflete sua índole ou caráter. Antes disso, fatores ambientais podem exercer uma influência muito maior nas atitudes das pessoas do que seu próprio comportamento individual*.

 

Levando as idéias de Zimbardo para o ambiente corporativo, podemos encontrar nos sete processos sociais que tornam uma pessoa mais suscetível a cometer alguma maldade algumas explicações para determinadas perversidades que ocorrem nos locais de trabalho. Isto é especialmente verdade ao observarmos pessoas que deturpam o conceito de autoridade, quando em alguma posição de poder.

 

Até mesmo os casos de bullying no escritório têm a ver com um ambiente de trabalho pouco saudável, onde uns colegas são jogados contra os outros. Na maioria das vezesas pessoas envolvidas são indivíduos cortêses e educados - embora você relute em acreditar nisso - e, frequentemente, pais e cônjuges amorosos e cordiais, mas que se transformam de segunda a sexta.

 

Então, por que isso seria tão diferente num ambiente profissional? O que acontece ali que faz com que as pessoas deixem que seu lado Monstro tome o lugar do Médico? Frequentemente há algum fator estressor no local. Algo que aflore o que há de pior nas pessoas, em vez de o que há de melhor.

 

Muito provavelmente, então, a resposta para melhorar as pessoas está no ambiente em que elas vivem. E mudar as pessoas fará pouca diferença no resultado final. O resultado mais previsível é que as novas pessoas adotem o comportamento das anteriores por influência do meio. O que você precisa, então, é identificar - e eliminar - as falhas deste ambiente. Entender o que o torna tão opressor e negativo.

 

O QUE VEM POR AÍ

 

Mas será que a palavra final de Zimbardo é que todos nós, independente de nosso caráter ou inclinação, estamos fadados a cometer maldades várias vezes durante a vida, em virtude de uma combinação de eventos? Na verdade não. Zimbardo acredita que somente entendendo a maldade e suas mais profundas causas e manifestações é que poderemos conhecer seu antídoto. A seguir, Você não precisa de superpoderes para ser um herói.

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* Há muita controvérsia sobre este tema, com escolas da Psicologia que defendem uma ou outra posição. Mas o mais correto talvez seja admitir que ambos os fatores - ambientais e comportamentais - influenciam nossas atitudes, prevalecendo ora uma, ora outra.

 

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Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.

 

Texto original: Experimentos em Psicologia - Phil Zimbardo e o efeito Lúcifer.

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