Deixa que eu deixo: terceirizando a responsabilidade

Quantas vezes você deixou de fazer algo esperando que alguém o fizesse? E quantas vezes achou que seus amigos e/ou colegas eram apáticos porque incapazes de fazer-lhe um favor? Conheça as teorias de Latané e Darley sobre a Difusão de Responsabilidade e os perigos envolvidos neste fenômeno.

 

 

No texto anterior Stanley Milgram escancarou, num engenhoso experimento, nossa submissão à autoridade num ambiente opressor, onde o voluntário da pesquisa devia inflingir sofrimento ao outro participante do estudo. Apesar de os indivíduos se sentirem desconfortáveis nessa tarefa, a maioria seguiu o macabro roteiro até o final.

 

Mas o que acontece quando em vez de causar dor a alguém, temos a oportunidade de ajudar e oferecer apoio? Foi o que se perguntaram John Darley e Bibb Latané, cujas teorias passamos a conhecer agora.

 

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KittyGenovese Em 1964 e um bárbaro crime chocou os moradores da região metropolitana de Nova Iorque. Catherine Susan Genovese foi atacada por Winston Moseley quando chegava em casa, no Queens, na madrugada do dia 13 de março, sendo apunhalada duas vezes pelas costas.

 

Seus gritos espantaram momentaneamente o agressor que chegou a entrar em seu carro e ir embora. Mesmo ferida, ela tentou chegar em casa. Minutos depois Moseley voltou, procurou por ela e, ao encontrá-la, tornou a esfaqueá-la.

 

Enquanto agonizava, foi estuprada e US$ 49,00 foram roubados de sua bolsa. Ferimentos em suas mãos mostraram que ela lutou por sua vida durante agonizantes 35 minutos, gritando desesperadamente por socorro.

 

Quando finalmente a polícia chegou, dois minutos após ter sido chamada, era tarde demais. Kitty, como era conhecida por seus amigos, morreu a caminho do hospital, aos 28 anos de idade.


Apesar de toda a brutalidade do assassinato, foi um outro detalhe que teve avassaladora repercussão na mídia: do seu primeiro grito até o momento em que perdeu os sentidos, Kitty Genovese gritou por socorro e implorou por ajuda por mais de meia hora, em frente a diversos prédios residenciais - inclusive ao que ela própria morava. Nada menos que 38 pessoas presenciaram o ataque em algum momento, de alguma forma, segundo seus próprios depoimentos mais tarde. Mas ninguém chamou a polícia, como (não) mostraram os registros da central de atendimento.

 

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Cadáver Praia Vermelha As explicações da época - negação de afeto, banalização da violência, indiferença, agressividade contida, despersonalização dos habitantes das metrópoles - não satisfizeram os jovens Bibb Latané e John Darley. Como psicólogos e pesquisadores eles acreditavam mais no poder da situação em que a pessoa se encontra do que na sua personalidade.

 

Buscaram entender, então, quais as condições necessárias para que pessoas comuns ignorem pedidos de ajuda - explícitos ou implícitos - e adormeçam sua compaixão, no que se convencionou chamar de Efeito do Espectador (bystander effect) ou Apatia do Espectador (bystander apathy).

 

(À propósito, a pessoa que está embrulhada num pano na foto acima não está precisando de ajuda. Ela já está morta. Mesmo assim os turistas tiram fotos de recordação. Foto do jornal O Globo de 06/09/2006.)

 

O enredo básico de seus experimentos era bastante simples: eles simulavam situações de emergência num ambiente controlado e observavam a reação das pessoas enquanto indivíduos isolados ou grupos. Vejamos dois exemplos:

 

.: O aluno epiléptico: imagine que a leitora aceite participar num experimento destinado a avaliar a adaptação dos estudantes à vida universitária. Em salas separadas, você e mais outros estudantes falarão durante dois minutos sobre os desafios da rotina acadêmica. A comunicação será feita através de microfones e auto-falantes instalados nos locais. Enquanto fala, um dos estudantes relata, constrangido, ter epilepsia e que, em épocas de prova, suas crises costumam ser mais freqüentes. Segue-se o depoimento do outro aluno e depois a leitora expõe suas próprias impressões.

 

O primeiro aluno volta a falar, mas sua voz está embargada. Com dificuldade, ele gagueja um ainda compreensível pedido de ajuda: "E-eu acho que pre-e-eciso de a-a-ajuda. A-a-a-alguém po-o-o-oderia vi-i-ir aqui me-e-e-e ajudar? A-a-acho que e-e-estou te-e-endo u-u-uma crise...".

 

Assustada, a leitora não sabe o que fazer durante os seis minutos que dura a crise epiléptica. Então se lembra que há outras pessoas participando do estudo. Você se acalma e imagina que alguém deve ter tomado alguma providência e ajudado o aluno em apuros. E assim como outros 69% participantes do estudo, você não faz absolutamente nada. Assim como as 38 testemunhas do assassinato de Kitty Genovese.

 

Quando alguém bate à porta e entra na sala para dizer que aquela sessão acabara a leitora leva um susto, como que sendo acordada de um sonho ruim. Quando você pergunta sobre o outro aluno, descobre que o estudo sobre a vida acadêmica era apenas o pano de fundo para um experimento sobre a reação das pessoas a situações de emergência. E que as vozes que ouviu eram, na verdade, gravações.

 

Na variação seguinte do estudo, contudo, os resultados começam a ficar perturbadores. Em vez de um grupo de alunos, eram apenas o voluntário e o "aluno epiléptico". A divergência das respostas em função do tamanho do grupo foram gritantes: em grupos de quatro ou mais pessoas, apenas 31% dos indivíduos procuraram auxílio para o colega; mas quando se via sozinho com o "aluno epiléptico", o voluntário buscava ajuda em 85% das vezes e o fazia nos primeiros três minutos do episódio.

 

Os pesquisadores perceberam, também, que se o voluntário não tomasse uma atitude nesse intervalo de tempo (três minutos), era improvável que viesse a fazê-lo de fato. Quanto mais esperasse, mais paralizado ficaria.

 

A influência do tamanho do grupo mostrou-se, no entanto, bem maior do que a do tempo de resposta. Ao contrário do que a intuição indicaria, os indivíduos não se tornam mais seguros ou corajosos na presença de outros. Em situações de estresse, as pessoas parecem se acovardar. Os experimentos de Darley e Latané questionaram seriamente a máxima da segurança dos grupos (safety in numbers).

 

Alguma coisa na multidão inibiria o comportamento altruísta. A presença de várias pessoas parece diluir nosso sentimento de obrigação para com o próximo. Dividimos o fardo de ter que agir com os que estão à nossa volta, no que eles batizaram de Difusão de Responsabilidade. Latané e Darley perceberam, nesse momento, que Kitty Genovese não morreu apesar de haver muitas testemunhas, mas exatamente porque havia muitas testemunhas. Fosse apenas uma, provavelmente ela teria lhe ajudado.

 

Outra importante variação do estudo colocava dois amigos como voluntários (reais) e mais o "aluno epiléptico" nas condições do experimento. Os resultados foram os mesmos de um voluntário sozinho, sugerindo que a responsabilidade não se difunde entre amigos.

 

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Certo, mas e o que aconteceria se a situação de emergência representasse um risco para a própria leitora? Para responder a essa pergunta os autores criaram mais um engenhoso experimento:

 

Incêndio_02 .: Asfixiada pela apatia: a mesma pesquisa sobre a vida no campus leva a leitora agora a uma sala da universidade com outros dois alunos, para preencher questionários sobre o tema.

 

Depois de responder às primeiras perguntas, você percebe uma densa fumaça entrando pelos dutos de ventilação. Aos poucos a fumaça toma a sala, mas parece não perturbar os outros estudantes. Você começa a ficar alarmada, apesar de perceber que seus dois companheiros permanecem impassíveis. A calma de ambos faz-lhe voltar ao questionário, indiferente.

 

O estranho comportamento dos voluntários sugere que as pessoas preferem arriscar suas vidas a quebrar um protocolo. Estimam mais a etiqueta do que a sobrevivência. Por isso, quando em grupo, apenas 38% dos voluntários saíam da sala para reportar a estranha fumaça. Mas colocados sozinhos, 75% dos alunos davam o alarme. Ainda assim, os que participaram dos experimentos em grupo não associavam sua falta de ação à presença de mais pessoas na sala.

 

Trata-se, portanto, de uma situação bem diferente da anterior, na medida em que o voluntário podia ver as reações dos seus pares - ao contrário do experimento com o "aluno epiléptico" onde ficava cada um na sua sala. Um outro efeito entra em ação aqui, a ingorância pluralística: se em determinada situação você não consegue avaliar corretamente o que está acontecendo ("aquele homem está infartando ou é um bêbado?", "isso são tiros ou é um cano de descargas estourado?"), a saída é buscar pistas no comportamento das outras pessoas ao redor. Quando você percebe que ninguém está fazendo nada, conclui que é uma situação normal, sem perigo - e não uma emergência como chegou a pensar.

 

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Os dois últimos textos desta série sobre Experimentos em Psicologia mostraram facetas pouco gloriosas de nossas personalidades. Tanto a Unanimidade Burra de Solomon Asch quanto o Choque de Autoridade de Stanley Milgram revelaram traços de comportamento dos quais ninguém se apressa em sentir orgulho.

 

No caso da Difusão de Responsabilidade, porém, o cientista social Arthur Beaman, da Universidade de Montana encontrou um brilhante lado positivo, como conta no interessante Increasing Helping Rates Through Information Dissemination: Teaching Pays (algo como Aumentando o Índice de Ajuda através da Disseminação da Informação: Ensinar Compensa) cujo estudo consistia em simular situações de emergência semelhantes às anteriores.

 

Mas antes de começar as atividades, metade dos voluntários lia um resumo das teorias de Latané e Darley, além do seguinte modelo de processo decisório:

 

Primeiros socorros 1. Você, o potencial socorrista, deve identificar que algo está acontecendo;

2. Você deve interpretar o evento como algo onde precisa-se de ajuda;

3. Você assumirá a responsabilidade pessoalmente;

4. Você decidirá que atitude tomar;

5. Você tomará a atidude*.

 

Com os resultados da pesquisa, Beaman mostrou que o simples fato de conhecer os estudos de Darley e Latané dobram as chances de uma pessoa interceder em favor de outra numa situação de emergência. 

 

Não se trata aqui de nenhum encantamento mágico capaz de transformar um ogro num bom samaritano. Apenas conhecimento. Que sem saber e sem querer você também acabou de adquirir.

 

Daqui em diante, só pelo fato de você ter lido esse texto e entendido o que é Difusão de Responsabilidade, queira ou não você pensará nisso na próxima vez em que se deparar com uma potencial situação de emergência. Você entenderá porque ninguém está fazendo nada - nem você. Mas por ter lido esse texto, conseguirá desligar-se do característico torpor coletivo e certamente agirá.

 

E agora que você já conhece esses princípios e a diferença que isso pode fazer na sua vida - e na dos outros - que tal passar esse texto adiante?

 

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OK, você já passou o texto adiante, para que seus amigos também saibam o que é a Difusão de Responsabilidade e evitem cair nessa armadilha. Mas o que fazer se, antes de esse texto conseguir rodar o mundo inteiro, você se encontrar numa situação de emergência, precisando de ajuda? Como agir no caso de você passar mal na rua, por exemplo, e perceber que ninguém te ajuda? Você vai  lembrar de mim e ver que esse texto louco em que você não levou muita fé estava absolutamente correto?

 

A primeira coisa a fazer é deixar claro para as outras pessoas que aquela é uma situção de emergência, com frases claras: "Estou passando mal, preciso de ajuda". Muitas vezes as pessoas não agem a tempo por não identificarem corretamente o que está acontecendo.

 

A segunda - e mais importante - é escolher alguém dentre as pessoas ao redor e direcionar o pedido de socorro, de forma clara e individual e de preferência apontando: "Você aí, de camisa vermelha, por favor me ajude". Ao indicar alguém, você está responsabilizando-o diretamente. Uma coisa é uma multidão negar socorro. Se forem vinte pessoas, cada um negou 5% de socorro. Outra coisa é uma única pessoa negar 100% de socorro. Ela saberá disso.

 

LATANÉ, DARLEY E A ADMINISTRAÇÃO

 

Infelizmente a Difusão de Responsabilidade é algo muito comum nas empresas atuais, especialmente naquelas onde há uma porção de gente fazendo a mesma coisa. Em ambientes assim surge o famoso "deixa que eu deixo" - que é o mesmo conceito, num nome mais popular.

 

Quando o chefe chega no meio da sala e diz para a equipe que alguma coisa deve ser feita, o mais natural é que cada um encolha-se no seu canto tentando evitar a tarefa recém delegada. Se você for o chefe, agora já sabe que tem que dar nome aos bois. Não pode entregar uma tarefa a uma equipe; alguém tem que ser responsável.

 

Outro pernicioso aliado da Difusão de Responsabilidade é o email. É comum as pessoas enviarem emails a vários destinatários pedindo um favor. Qual o resultado? Um acha que o outro vai fazer - e ninguém faz. Um acha que o outro já respondeu e, assim, não se preocupa.

 

Qual a solução? Envie aos destinatários como Cópia Oculta. Assim, ninguém mais saberá que o favor foi pedido a outros e você pode até escrever a mensagem num tom mais individual, de pessoa para pessoa. Se mais de um responder, ótimo. Agradeça e diga que outro voluntário foi mais rápido.

 

O QUE VEM POR AÍ

 

Latané & Darley, Milgram e Asch nos mostraram como algumas vezes somos capazes de atitudes que violam o senso comum. Ignorando apelos, maltratando os outros ou errando de propósito, parecemos agir de maneira equivocada conscientemente.

 

Como conseguimos, então, dormir à noite? Que estranhos mecanismos fazem com que nossa mente justifique e perdoe nossos pecados, assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido? A seguir, Leon Festinger e a moral dupla da Dissonância Cognitiva.

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* O modelo pode ser visto na íntegra no livro The Social Psychology of Prosocial Behavior, disponível no Google Books aqui.

 

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Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.

 

Texto original: Latané, Darley e a paralisia coletiva.

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Tags: Bibb Latané Difusão de Responsabilidade Experimentos em Psicologia John Darley Kitty Genovese Stanley Milgram

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