Gestão ambiental e economia ecológica

Os crescentes desafios do século XXI, entre eles produzir com o menor impacto ambiental possível, requer uma visão sistêmica do problema, contando com a colaboração das diversas áreas do conhecimento, é o que a economia ecológica pretende.

Vou começar esse texto relacionando diversas disciplinas com um evento, a Revolução Industrial. Em História, aprendemos que essa revolução ocorreu no final do século XVIII na Inglaterra e foi marcada pela transformação nas relações do trabalho, utilização de invenções como tear mecânico e máquina a vapor de James Watt, além da utilização de carvão mineral como fonte de energia. Em alguns cursos superiores há a disciplina de fundamentos de Economia, e nela se aprende que nessa época Adam Smith foi o primeiro a explicar o sistema capitalista que emergia dessa revolução, apontando a divisão social do trabalho como fundamental para ganhos de produtividade e geração de riqueza de um país. Em física existe uma área chamada termodinâmica e estuda a transformação da energia térmica em trabalho útil por meio das máquinas térmicas e seus rendimentos, que também se desenvolveu nessa época, o que explica a invenção de Watt.

O que quero trazer com isso é a riqueza da interdisciplinaridade e como isso poderia ser mais bem explorada nos diversos cursos, principalmente para o entendimento dos impactos ambientais da produção, como exemplificado a seguir. O que poucos sabem é que antes da Revolução Industrial já se usava carvão mineral devido ao quase extermínio das florestas da região que então forneciam madeira e lenha, e que também já existiam bombas de água para retirar água que se acumulavam nas minas de carvão, o que Watt fez então foi aprimorar o que existia e permitir a maior exploração das minas, uma crise de escassez de recursos naturais havia, mas a tecnologia “salvou”.

De lá para cá a tecnologia só foi se aprimorando permitindo a oferta de muitos produtos e serviços, satisfazendo os mais diversos graus de necessidades e desejos da população com condições de consumir, fazendo com que geração de riqueza e população mundial crescesse exponencialmente, sem a devida preocupação com o meio ambiente. Os primeiros alertas de impactos ambientais decorrentes dessa forma de produção e consumo só apareceram a partir da metade do século XX e no século XXI se tornou indispensável que todas as empresas tenham um Sistema de Gestão Ambiental, que sigam a legislação ambiental de cada país e que cumpram acordos mundiais de redução e mitigação desses impactos, que podem ser exemplificados com redução da biodiversidade dos ecossistemas afetados, poluição e contaminação de fontes de água, do solo e da atmosfera, e o mais conhecido, o aumento da temperatura média global provocada pelas emissões de gases de efeitos estufa provenientes da queima de combustíveis fósseis e desflorestamentos que vem ocorrendo desde essa revolução, ou até antes.

É nesse contexto que surge a economia ecológica, diante do paradigma insustentável da economia e da necessidade de integração entre os sistemas econômico e ecológico, e pode colaborar muito com a gestão ambiental das empresas, uma vez que ela conta com contribuições das diversas áreas do conhecimento, propiciando uma visão sistêmica (do todo) da problemática ambiental. A economia ecológica entende o planeta Terra como um sistema fechado (não há entradas e saídas significativas de matéria) e aberto para a entrada de energia solar, além de entender a economia como um subsistema do ecossistema, e que o processo produtivo obedece às leis da termodinâmica. A saber: 1ª lei: conservação da matéria-energia (não pode sercriada nem destruída); 2ª lei: só se pode utilizar uma forma particular de energia denominada exergia para a realização de trabalho, dado que a outra (anergia) encontra-se em uma forma não utilizável: a entropia, geralmente dissipada na forma de calor. Assim pode-se concluir que a matéria-energia absorvida pelo processo econômico ocorre num estado de baixa entropia (recursos naturais brutos como minério) e retorna num estado de alta entropia (lixo e resíduo) e ainda considerando que nem toda a energia está disponível para ser utilizada, percebe-se que, com o passar dos tempos, nossos estoques energéticos e material se reduzem, enquanto os rejeitos estão sendo despejados na natureza numa taxa maior que esta consegue absorver.

Como exemplo de adaptações necessárias às empresas estão: a substituição dos veículos movidos pela queima de combustível fóssil (gasolina e óleo diesel) pela bateria de lítio principalmente; a geração de eletricidade deixará de ser a partir de termoelétricas à carvão mineral e óleo e passará a ser gerada por parques eólicos e usinas solares, tanto fotovoltaicas como outras modalidades. A tecnologia é uma grande aliada para a ecoeficiência, alguns setores vão perder outros ganhar, mas percebam que mesmo assim haverá impacto ambiental: haverá lítio suficiente para abastecer toda a frota global? O que fazer as pás eólicas e placas solares após fim de sua vida útil? Os biocombustíveis continuarão tendo espaço no mercado, mas isso demanda terras aráveis, mecanização, utilização de fertilizantes e defensivos agrícolas que também causam impactos socioambientais e devem ser muito bem planejados.

A economia ecológica também se preocupa com a alocação eficiente dos fatores, mas também defende uma escala para a economia (um limite de crescimento que respeite a capacidade biofísica do planeta), no entanto as empresas podem continuar rentáveis e gerar empregos satisfazendo as necessidades e desejos da população inserida no mercado consumidor e que antes estava à margem, desde que a pobreza seja combatida, pois também é interesse da economia ecológica a distribuição justa d erenda. Outro alerta é que bens supérfluos poderão ter demanda reduzida devido à maior conscientização dos consumidores. Enfim, espero que por meio deste artigo os gestores ambientais se interessem por essa linha de pensamento menos otimista em relação à tecnologia como solução dos problemas ambientais, e que procurem pesquisar mais sobre a economia ecológica e como esta poderia melhorar a gestão ambiental das empresas.

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