Gestão de crédito nas cooperativas financeiras

A adequada gestão do crédito nas cooperativas financeiras é fator decisivo para a segurança, rentabilidade e continuidade dos empreendimentos cooperativos.

Assim como qualquer outra área da gestão empresarial, o crédito deve ter um processo de planejamento e gestão, com o objetivo de realizar o adequado atendimento às necessidades dos associados e minimizar ou mitigar o risco de crédito. Esse risco consiste basicamente na possibilidade do não recebimento dos valores emprestados pela instituição financeira.

O não recebimento dos valores emprestados aos seus clientes (associados, no caso das cooperativas financeiras), pode acarretar sérios prejuízos à instituição e consequentemente aos seus próprios donos e usuários.

As instituições financeiras, sejam bancárias ou cooperativas, têm o crédito como seu negócio principal ou o seu core business.

Para isso, realizam a chamada “intermediação financeira”, que consiste basicamente na “compra e venda de dinheiro”, ou seja, a instituição financeira compra recursos (dinheiro) por um determinado preço (taxa de juros), e vende esses recursos por um preço (taxa) maior, sendo que a diferença entre o preço de compra e o preço de venda do dinheiro, é conhecida como spread = margem de lucro.

Nas cooperativas de crédito, esse spread é chamado de sobra, que após a dedução das despesas de manutenção do negócio e das destinações para os fundos e reservas estatutárias, fica à disposição dos associados, ou seja, o "lucro" retorna para os clientes, que nesse caso são os associados.

A instituição financeira cooperativa, nesse caso, compra recursos dos associados que os têm sobrando, e os vende para quem está precisando.

Numa linguagem mais técnica, ela “capta recursos dos agentes superavitários, e os empresta para os agentes deficitários”.

Mas existem limites globais e individuais para a concessão de crédito aos associados, considerando que se a cooperativa emprestar 100% dos valores que os associados aplicam ou depositam, corre um sério risco de liquidez, ou seja, de emprestar todo o dinheiro que captou, e ficar sem recursos para honrar os seus compromissos com os associados que depositaram, caso algum ou alguns deles precisem retirar os valores depositados.

Há também um limite individual de diversificação de risco, estabelecido pelo Banco Central do Brasil, que tem o objetivo de evitar a concentração das operações de crédito a um mesmo associado ou a um grupo econômico.

A questão da liquidez é válida para qualquer instituição financeira, inclusive para os bancos. Para segurança financeira dos seus clientes, é necessário manter sempre uma margem, uma reserva de recursos caso alguns clientes precisem dos valores depositados.

As operações de crédito devem ser realizadas por meio de análise adequada das solicitações de crédito, através da montagem de um dossiê da operação.

Podemos dizer que o sucesso desse processo, começa já na admissão e correto preenchimento do cadastro do associado. Dados corretos e devidamente comprovados sobre o patrimônio, renda, atividade, residência, histórico bancário, restrições cadastrais, entre outras, são a base para todas as demais etapas do processo.

Devem ser seguidas regras padronizadas através dos chamados manuais de crédito, de acordo com a política de crédito de cada instituição e os normativos emitidos pelo CMN – Conselho Monetário Nacional e executados pelo BCB – Banco Central do Brasil.

A Resolução nº 2682 do Conselho Monetário Nacional, de 21 de dezembro de 1999, dispõe sobre critérios de classificação das operações de crédito e também sobre as regras para constituição de provisão para créditos de liquidação duvidosa.

Conforme consta na Resolução CMN 2682/99, O Conselho Monetário Nacional determinou que as instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central do Brasil devem classificar as operações de crédito em ordem crescente de risco, que vai do nível AA (livre de risco e provisão de 0,00%), até o nível H (risco máximo, atraso em mais de 180 dias e provisão de 100%), sendo que as operações já baixadas como prejuízo são classificadas como de risco nível HH (360 dias de atraso), com registro em contas de controle (compensação). A partir do nível D (atraso de 61 a 90 dias, 10% de provisão), já impede a liberação de operação de crédito ao associado que estiver nessa classificação de risco.

As instituições financeiras cooperativas possuem comitês de crédito, que se reúnem de forma periódica para realizar a análise das solicitações e seus respectivos dossiês de crédito. Hoje com o avanço das tecnologias da informação e comunicação, a maioria das instituições já realiza esse processo de forma eletrônica, via sistemas informatizados, inclusive as reuniões e deliberações (votos dos membros dos comitês de crédito).

Além da análise dos números e demonstrativos financeiros, é necessário ser conservador e ter bom conhecimento do associado, bom senso, critérios claros, capacidade técnica e discernimento, para que a análise seja realizada de maneira adequada.

Em relação ao devedor e seus garantidores, deve ser analisada a situação econômico-financeira; o grau de endividamento; a capacidade de geração de resultados; o fluxo de caixa; a administração e qualidade dos controles; a pontualidade nos pagamentos; o setor de atividade econômica; limite de crédito; entre outros.

Em relação à operação de crédito, deve ser analisada a natureza e finalidade da transação; as características das garantias, particularmente quanto à solvência e à liquidez; e o valor da operação.

Como em qualquer outra empresa, o “produto” crédito, deve ter um serviço de “pós-venda”, ou seja, um acompanhamento.

O processo de concessão de crédito começa na admissão do associado e na realização do seu cadastro, que deve ser periodicamente atualizado e em especial, quando da solicitação do crédito pelo cliente/associado. Portanto esse processo não termina com a liberação do dinheiro na conta corrente.

Após a liberação do dinheiro, o processo continua através do monitoramento do crédito e da situação econômico-financeira do tomador, da pessoa física ou jurídica que recebeu os recursos.

Há ainda a necessidade de estabelecer critérios claros para o processo de cobrança dos créditos vencidos, inadimplentes ou em situação de prejuízo, caso ocorram, bem como critérios para o caso de recebimento de bens como dação em pagamento, também chamados de “bens não de uso”, na linguagem contábil e financeira.

Seguir critérios claros e profissionais em todo o processo, desde o cadastro do associado, passando pela solicitação, análise, liberação e acompanhamento do crédito, é garantir a segurança, liquidez e rentabilidade do negócio, onde os maiores beneficiados são os donos e usuários dos empreendimentos cooperativos.

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