O empresário malvado que me rouba na conta!

O empresário, amigo, não é um vilão escroto… ele é um guerreiro. A maior parte deles vive uma batalha diária para manter empregos, pagar impostos absurdos, manter o cliente seguro dentro do estabelecimento, manter a margem de lucro e ainda aguentar gente que entra, senta, ocupa uma mesa por horas enquanto fila o wi-fi, segurança e ar condicionado e pede apenas uma água gelada — e às vezes ainda larga um "pode ser da torneira mesmo"

Seguir + Eden Wiedemann,
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O acontecido que tenho o prazer de relatar abaixo não se deu no Brasil mas bem que poderia ter sido, afinal aqui é o país onde todo mundo quer empreender e virar empresário mas que paradoxalmente todo empresário é visto como vilão. É o país onde não se pode vencer — o sucesso empresarial é quase uma marca do mal, é como ter um 666 tatuado na testa — e todo patrão é explorador. Observem que divertido e esclarecedor.

Uma pirangueira — como se diz em bom pernambuquês — visitou um restaurante e, para não cutucar o escorpião que levava no bolso, pediu apenas uma água quente com uma rodela de limão. Sem reclamar o garçom a serviu, ela tomou seu "chá" e, ao receber a conta, ficou indignada e, claro, deu o troco avaliando mal o estabelecimento no TripAdvisor.

Para quem não domina o bom e velho inglês, vai um resumo da ópera:

Hannah achou um absurdo ter sido cobrada em £2 por "apenas" uma xícara de água quente com uma rodela de limão. "Lugar terrível", alertou. E, claro, ficou ainda mais indignada por seu amigo ter pedido uma fatia de bolo de chocolate e ter pago apenas £1.90. Ela finaliza dizendo que o garçom foi rude e que vai recomendar à família e a todos os conhecidos que jamais cheguem perto de lá.

Bom, quem diz o que quer, ouve o que não quer.

Eis que o gerente do restaurante, um dos mais bem avaliados da cidade, respondeu a nossa amiga duranga. Acompanhem que lindo:

Sinto muito que você sinta que foi “roubada” e eu vou tentar explicar por que você não foi. Você entrou no café e o garçom a levou até a sua mesa, ofereceu um menu, esperou por alguns instantes e então pegou o seu pedido.

Ele levou seu pedido ao balcão, pegou uma xícara, um pires e uma colher e levou tudo para a cozinha. Lá, ele escolheu uma faca, uma tábua, pegou um limão da geladeira, cortou uma rodela e a colocou dentro da xícara. Depois, ele voltou ao salão, serviu a quantidade necessária de água quente e levou tudo até a sua mesa.

Quando você estava de saída, ele imprimiu sua conta, levou até você, processou seu pagamento no cartão e deu baixa no pedido. Depois que você saiu, ele tirou suas louças, levou-as para a cozinha, para lavá-las e secá-las, juntamente com a tábua de corte e a faca, guardando o resto do limão. Em seguida, voltando ao salão, ele guardou novamente a xícara, o pires e a colher, limpou a sua mesa e a preparou para o próximo cliente. Só isso consumiu pelo menos dois a três minutos do tempo de trabalho do garçom.

O custo fixo do negócio, por exemplo, aluguel, taxas, eletricidade, custos bancários etc., tomam pelo menos £27.50 por hora de funcionamento. Eu pago meus funcionários decentemente e, depois de se contar férias, aposentadoria e o tempo não produtivo antes da abertura e fechamento do restaurante, o garçom responsável por lhe servir me custou £12.50 por hora.

Portanto, o custo total é £40 por hora, ou 67p por minuto, o que significa que o custo de um serviço de dois a três minutos fica entre £1.34 e £2. Some-se a isso os impostos, que levam 20% do faturamento, o que fez sua xícara de água com infusão custar entre £1.60 e £2.40, não importando se você pediu um saquinho de chá de £1.50 ou uma rodela de limão de 5p.

Eu tenho que pagar meus fornecedores, caso contrário não tenho como manter o estabelecimento funcionando. Eu entendo que tudo isso faz o preço de um chá no centro da cidade parecer caro comparado ao que você faz em casa, mas, infelizmente, essa é a realidade cruel da vida. É o estabelecimento que custa tanto, bem mais do que os ingredientes.

Talvez a rudeza que você sentiu no meu funcionário tenha sido disparada pelo desrespeito que ele percebeu vindo de você, pela sua presunção de que você poderia usar nosso espaço e ainda ser servida de graça.

Em uma resposta levemente atravessada e certamente merecida foi dada uma aula de composição de preço: você não paga apenas pelo insumo (ou uma porção de batatinhas fritas custaria menos de R$ 0,50), você paga pelo TODO. Paga para o governo (impostos), paga pelos funcionários (que quanto mais preparados mais caros), paga pelo ponto (legal ter estacionamento, ser charmoso, bem ambientado e tudo mais, né?), paga pelo controle de qualidade, pelos insumos (opa, você não quer insumos de terceira, quer?), pela energia (que delícia de ar condicionado), pela água, pela segurança (vou abrir meu laptop aqui)…

O empresário, amigo, não é um vilão escroto… ele é um guerreiro. A maior parte deles vive uma batalha diária para manter empregos, pagar impostos absurdos (o da história paga APENAS 20%), manter o cliente seguro dentro do estabelecimento, manter a margem de lucro (sim, ele não pode pagar a escola dos filhos com sorrisos) e ainda aguentar gente que entra, senta, ocupa uma mesa por horas enquanto fila o wi-fi, segurança e ar condicionado e pede apenas uma água gelada — e às vezes ainda larga um "pode ser da torneira mesmo".

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