Administração: mais que 50 anos de história

Há 50 anos, foi assinada a lei que regulamenta e reconhece o profissional de Administração no Brasil

Editoria de Arte/Administradores.com

O tempo é uma caixinha de surpresas. Cada segundo guarda uma novidade que pode modificar todo o futuro. Imagine então em 50 anos... Em meio século, a humanidade já acompanhou a chegada dos tempos modernos e também da era digital. Neste espaço de tempo, incontáveis ideias, produtos e serviços inovadores remodelaram a organização da sociedade.

Se tivéssemos que encontrar a nascente de toda a evolução humana na Terra, sem dúvidas a Administração, em sua forma mais primitiva, estaria ali, agindo como o impulso que move e transforma o mundo. Não importa qual área seja, para onde quer que se olhe, há alguma referência ou teoria aplicada, seja de maneira racional ou não.

É por isso que antes mesmo da Administração ser reconhecida como tal, os grandes líderes da história já a utilizavam -- e Hemiunu foi um desses. Ele foi o arquiteto responsável pela construção da Pirâmide de Gizé, no Egito, e teve que coordenar milhares de trabalhadores livres, motivá-los na tarefa de carregar toneladas de blocos e ainda ter sob controle a produção, contabilidade, alimentação e alojamento dos funcionários.

Regulamentação

Apesar de sua história ser mais antiga do que imaginamos, a profissão do administrador foi reconhecida e regulamentada no Brasil apenas há 50 anos. Foi exatamente no dia 9 de setembro de 1965, com a sanção da Lei nº 4.769, que o curso de Administração foi reconhecido no País -- e, assim, criado também o Dia do Administrador. O fato histórico foi determinante para a modernização e desenvolvimento econômico brasileiro, sendo o marco do começo de uma nova era.

O Brasil antes da Administração

Conquistar o reconhecimento legal não foi tão fácil e instantâneo assim. Anos antes, a Administração já vinha sendo colocada em prática no Brasil por profissionais que provavam diariamente que o controle, análise e planejamento eram funções técnicas vitais para os negócios.

A demanda se acentuou no final da década de 1930, período em que houve um aumento significativo da demanda de profissionais para assumir o controle das questões econômicas e administrativas. Era a tardia Revolução Industrial brasileira, que desvinculou a dependência econômica da agricultura para expandir o setor industrial.

Em 1943, foi promovido no Rio de Janeiro o primeiro Congresso Brasileiro de Economia. O objetivo era discutir os meios de industrialização e cobrar do Estado iniciativas concretas para motivar pesquisas específicas em assuntos econômicos.

Desde 1932, o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova discutia a limitação do ensino superior -- que formava unicamente médicos, engenheiros e advogados. O debate foi fortalecido pelo desenvolvimento econômico e ascensão do setor empresarial, que precisava de profissionais aptos para atender às demandas da sociedade moderna.

Após três anos do Congresso de Economia, em 1945, os resultados vieram: os cursos de Ciências Contábeis e Ciências Econômicas foram criados e representaram o primeiro grande passo para a evolução do ensino em Administração no Brasil. Enquanto isso acontecia por aqui, os Estados Unidos já formavam aproximadamente 50 mil bacharéis, 4 mil mestres e 100 doutores em Administração por ano, desde 1881.

O impulso para a modernização brasileira

Os modelos de desenvolvimento econômico da Era Vargas, com o projeto de caráter nacionalista, e do governo de Juscelino Kubitschek, com a abertura econômica do mercado, foram determinantes para o reconhecimento da Administração como propulsora da economia. Eles foram determinantes para a expansão econômica pós 1964, quando a industrialização se expandiu e a importação tecnológica se acentuou.

Era o momento propício para o desenvolvimento das grandes empresas brasileiras, que se transformaram em elementos fundamentais para a economia do país. No entanto, o crescimento do setor, equipado com tecnologia complexa, teve que lidar também com um crescente grau de burocratização -- que requeria uma mão de obra especializada e pronta para lidar com os processos administrativos.

Assim, o papel técnico e intelectual dos administradores foi reconhecido no ascendente mercado de trabalho moderno e estruturado. Os órgãos e grandes empresas aumentaram suas demandas por profissionais, o que motivou a expansão do curso principalmente em São Paulo, que já era considerada a capital econômica do país.

No ano seguinte à regulamentação, em 1966, o Conselho Federal de Educação fixou o primeiro currículo mínimo, sendo institucionalizada assim a formação de bacharéis e técnicos administrativos. Para controlar o exercício do administrador, também foram criados no mesmo período os Conselhos Regionais de Administração (CRAs), responsáveis pela fiscalização e expedição de carteiras profissionais.

As primeiras universidades de Administração 

Antes mesmo da lei regulatória, a Fundação Getúlio Vargas (FVG), fundada em 1938, e a Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de São Paulo (FCEA/USP), de 1946, vinham aprofundando as pesquisas de temas econômicos e administrativos no Brasil. Os estudos contribuíram significativamente no processo de planejamento e desenvolvimento do setor industrial.

As instituições também defendiam a formação profissional e especializada de um novo tipo intelectual capaz de atender ao mercado moderno. Ele deveria ter uma formação técnica para aplicação prática dos conhecimentos, como também saber utilizar o pensamento estratégico para dar prosseguimento às transformações econômicas que vinham acontecende desde 1930.

A partir de convênios com universidades e especialistas renomados dos Estados Unidos, a FGV criou em 1952, com apoio da ONU e da UNESCO, o primeiro curso voltado especificamente para o ensino em Administração. Seguindo o modelo norte-americano, a Escola Brasileira de Administração Pública (EBAP), no Rio de Janeiro, tinha o objetivo primordial formar aqueles que seriam os futuros professores de Administração.

No entanto, não havia ainda no Brasil uma escola destinada especificamente para a formação em Administração de Empresas, que preparasse os profissionais para o setor empresarial privado. A carência de especialistas nessa área levou a FGV a criar a Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP), em 1954, na capital paulista, considerada o "coração e cérebro da iniciativa privada".

No final dos anos 1960, os cursos de Administração chegaram a um novo patamar. Não mais vinculados a Universidades, mas também a Faculdades privadas, a Lei da Reforma Universitária, de 1968, estabeleceu os níveis de ensino no Brasil e contribuiu com a expansão dos novos cursos por regiões menos desenvolvidas. 

A evolução em meio século

A atividade que antes era exercida por pessoas da área de Direito, que se especializavam em Direito Administrativo, foi profissionalizada e a função do administrador na atividade empresarial, seja no meio privado ou público, devidamente reconhecida. Em um intervalo de 30 anos, o ensino de Administração foi valorizado e a cada ano a economia brasileira aumentava a demanda por mão de obra capacitados.

Em plena ditadura militar, a formação de administradores visava atender a crescente demanda da elite administrativa vinculada aos polos de poder político e econômico dominantes. No entanto, com o início do processo de democratização do País, há 30 anos, iniciou-se o fenômeno de descentralização e diversificação da formação profissional.

O modelo que até aquele momento vinha formando a mão de obra que iria atender especificamente às grandes empresas privadas e aos órgãos públicos, expandiu os horizontes e começou a defender a formação de um profissional que também fosse capaz de atuar em outras formas organizacionais, como associações, cooperativas, pequenas e médias empresas ou até mesmo de maneira empreendedora.

Segundo o Ministério da Educação (MES), antes de 1960, apenas dois cursos, o da EBAP e o da EAESP, ambos mantidos pela FGV, eram reconhecidos. Após 1965, esse número passou de 240, com o surgimento de Faculdades de Administração principalmente no Sudeste e Sul, regiões que, no final dos anos 1980, concentravam 81% de todo o ensino de Administração do País. Na última década, o MEC reconheceu mais de 1,8 mil cursos espalhados pelo território brasileiro.

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