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O que é ser um bom professor?

Leonardo José,
O que é ser um bom professor? A pergunta é bem simples, mas a resposta nem tanto.

Refletindo sobre essa questão, escrevi uma crônica, que tem como exemplo o artista italiano Andrea del Verrochio,  que foi o professor do ... bem, esse e outros detalhes estão no texto abaixo:

Quero ser Andrea del Verrochio*

- Vocês querem saber o que eu penso sobre o papel do professor no processo de educação? Então vou começar dizendo que Andrea del Verrochio é o exemplo que eu procuro seguir.

- Andréa do quê? Nunca ouvi falar dessa mulher!

- Andrea del Verrochio. Andrea é um nome italiano. De homem. Andrea del Verrochio viveu em Florença, na Itália, na época da Renascença. Quem de vocês já ouviu falar de Verrochio?

- Professor, desculpe-me a franqueza, mas o senhor ‘tá’ viajando. Com certeza nenhum de nós sabe quem foi esse tal ‘Ferróquio’.

- É V-e-r-r-o-c-h-i-o. Verrochio com ‘vê’ de ‘viajando’. Tudo bem. Deixem-me mudar a pergunta. Quem já ouviu falar de Leonardo da Vinci?

- Professor, desculpe-me de novo, mas o senhor continua viajando. É claro que todo mundo já ouviu falar de Leonardo da Vinci. Até os paralelepípedos da calçada desta Universidade sabem quem foi da Vinci.

- Ótimo. Pois Verrochio foi simplesmente o mestre de Leonardo da Vinci. Foi quem o iniciou nas artes. Quem lhe ensinou as técnicas artísticas. Quem criou as condições para fazer florescer sua genialidade.

- Caramba! E ninguém ouviu falar desse cara!

- Pois o Verrochio, segundo os livros de história, era um professor brilhante. Tinha formação de ourives, era um artesão habilidoso, renomado escultor e pintor de alto nível. As aulas, ele as dava em sua oficina, onde, além de pinturas e esculturas, eram produzidas peças de armadura, sinos, brasões, projetos arquitetônicos. Ou seja, era o ambiente ideal para desenvolver o talento de uma mente criativa como a do Leonardo.

- Mas professor, o Leonardo da Vinci era um gênio. Provavelmente ele teria sido bem-sucedido mesmo sem o incentivo do seu mestre.

- Não tenho tanta certeza disso. Vejam, Leonardo nasceu e passou sua infância na vila de Vinci. Na adolescência, com a morte do avô, ele precisou ir para Florença. Se tivesse permanecido na pequena Vinci, provavelmente sua obra não teria alcançado a mesma magnitude e reconhecimento. E se em vez de estudar com Verrochio, tivesse sido encaminhado a outro professor, que não tolerasse ser ofuscado por um jovem aprendiz? Será que Leonardo teria obtido o mesmo incentivo e as mesmas oportunidades de demonstrar seu talento?

- Mas o Verrochio nunca sentiu inveja do talento do da Vinci?

- Bem, os historiadores contam que ele estava trabalhando em uma pintura intitulada “O Batismo de Cristo” e deixou que Leonardo a finalizasse pintando partes do plano de fundo e um dos anjos. O resultado de seu trabalho foi tão impressionante que Verrochio, percebendo ter sido superado por seu discípulo, abandonou a pintura, passando a dedicar-se apenas à escultura. Mas Leonardo continuou a freqüentar a oficina do mestre por muito tempo. Era lá que ele encontrava instrumentos, equipamentos e matéria-prima para seus inventos e experimentos.

- Ah, mas o Verrochio deve ter ficado pelo menos um pouco ressentido com o sucesso do Leonardo...

- Por que deveria? O êxito do Leonardo apenas confirma que ele foi um mestre bem-sucedido.

- Mas professor, ele acabou no esquecimento, sem fama nem prestígio e, provavelmente, sem riqueza.

- Ah, mas não é a fama, nem o prestígio, muito menos a riqueza que medem o sucesso de um professor. O que torna um professor bem-sucedido é o êxito de seus alunos. Um professor, por mais genial que seja, não pode considerar-se bem-sucedido se os seus alunos fracassam. Verrochio obteve a melhor recompensa que um mestre poderia almejar: o sucesso de seu aluno.

- Pois é. Eu não tinha pensado nisso.

- Bom professor é o que assume o papel de ser um instrumento para a aprendizagem de seus alunos. É aquele que reconhece que os resultados de sua atividade devem manifestar-se nas ações e no comportamento de seus alunos. É o que almeja glória e sucesso, não para si, mas aos seus pupilos. Creio que é isso que concede grandeza e importância à docência.

- Professor, a sua teoria é bem bacana, mas acho que não dá para aplicar aqui. É que o senhor não vai encontrar nenhum Leonardo da Vinci nesta turma...

- Tudo bem. Eu também não estou mesmo à altura do Verrochio. Mas isso não impede que eu me esforce em fazer o máximo para despertar, em cada um de vocês, todo o talento que houver. Você não é obrigado a tornar-se um Leonardo da Vinci, mas tem obrigação de fazer o seu melhor. Então, tratem de ser bem-sucedidos, porque eu não quero ser um professor fracassado!


* Crônica premiada com menção honrosa no Concurso de Crônicas  "Unisc: uma trajetória e muitas lembranças"
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Tags: davinci educacao professor verrochio

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