O que uma colmeia tem a ver com liderança e gestão do conhecimento?

Este artigo é um reprint do artigo “o que uma colmeia tem a ver com gestão do conhecimento”

Certa vez, em uma de minhas viagens, tive a oportunidade de bater um ótimo papo com um apicultor e então tive a confirmação de que as abelhas são uma das comunidades mais organizadas na natureza. Dentre as inúmeras informações que aprendi, a que me deixou mais impressionado foi saber que o produto mais nobre da colmeia – a geleia real – é produzido por uma glândula localizada na cabeça das abelhas operárias, sendo o alimento da abelha rainha por toda sua vida. Soube também que as abelhas operárias apesar de serem fêmeas, são estéreis, sendo uma prerrogativa e única função da rainha a reprodução da colmeia.

Esse diálogo me gerou tanto entusiasmo pelas abelhas que quase automaticamente comecei a fazer inúmeras analogias e conexões com o ambiente corporativo, com a liderança e com a gestão do conhecimento, além de ter me ativado uma lembrança de duas coisas notáveis que tive contato. A primeira foi o trabalho de Janine Benyus, uma consultora em inovação que se inspira no Biomimetismo (área da ciência que tem por objetivo o estudo das estruturas biológicas e das suas funções, procurando aprender com a natureza suas estratégias e soluções) e a segunda, uma palestra que assisti de Mário Sergio Cortella, onde ele explicou o mito grego de Maia, deusa da fecundidade e da energia vital, que curiosamente, a palavra Maia dá origem ao termo maiêutica (de Sócrates), que sabemos ser a essência da metodologia de coaching. Tanto o coach quanto o líder tem a função de fecundar, germinar, promover, polinizar, fertilizar. Em minha posterior pesquisa (consegui um exemplar de um livro raro, que “devorei” em apenas um dia), descobri que uma colmeia, composta por cerca de 90 mil indivíduos, funciona como se fosse um único organismo em que cada abelha atua como uma célula num corpo, servindo o todo num impressionante senso de serviço. Compartilho aqui meus insights:

  • Sobre a função do conhecimento: Na colmeia, as abelhas interagem por meio de uma complexa comunicação e a ação de cada abelha serve a um propósito comum que é buscar, criar, disseminar, utilizar e transformar matéria-prima (néctar, pólen, própolis, água) em produtos úteis para comunidade, garantindo a sua manutenção e sobrevivência. Na empresa, os talentos buscam, criam, disseminam, utilizam e transformam informações em conhecimentos uteis para a empresa garantir sua sustentabilidade e capacidade de inovação. Isso só é possível se os talentos tiverem um forte senso de identidade e serviço com a organização, com orgulho de pertencer à organização;
  • Sobre o Conhecimento em si: Na colmeia, as abelhas jovens produzem a geleia real por uma glândula localizada em sua cabeça, alimento nobre, que nutre a rainha por todo seu ciclo de vida. Na empresa, os talentos disponibilizam seus conhecimentos tácitos (que estão em suas cabeças) para nutrir o grupo, o líder e a organização em seu intento estratégico. Como afirmou Peter Senge “organizações só aprendem por meio de pessoas que aprendem, a aprendizagem individual não garante aprendizagem organizacional e sem aprendizagem individual, a aprendizagem organização não acontece”;
  • Sobre a liderança: A única função da rainha é produzir filhos (germinar, fecundar, fertilizar). Quando uma rainha não cumpre seu papel ela é substituída pelas operárias (é a comunidade quem comanda e não a rainha). Nas empresas, a função do líder é nutrir e fertilizar os talentos e os acionistas. O líder que não desenvolve, não germina não cumpre sua função essencial, perde legitimidade e credibilidade, sendo substituído mais cedo ou mais tarde. A liderança que fomenta e estimula o processo de aprendizagem organizacional é um líder polinizador da criatividade e da inovação;
  • Sobre a utilização do conhecimento: Cada produto colhido ou produzido tem uma função para a colmeia. Nada é desperdiçado. As abelhas armazenam seus produtos em formas hexagonais para otimizar ao máximo o espaço na colmeia. Cada conhecimento tem uma relevância e função estratégica para a organização, devendo ser armazenado apropriadamente (banco de dados, manuais, etc.) e com livre acesso pelos talentos, para ser usado quando oportuno;
  • Sobre o contexto capacitante: Há uma interação muito estreita entre a colmeia e o ambiente. Para que a vida da colmeia seja garantida é preciso um contexto que capacite a vida, assim como uma atuação sábia do apicultor para perceber e respeitar os ritmos, as necessidades, o clima e os ciclos das colmeia para conseguir alta produtividade. A empresa deve garantir um contexto capacitante, (BA) para que o conhecimento possa fluir. Um bom clima organizacional, onde as pessoas se sintam seguras, encorajadas, reconhecidas e participantes do processo. Isso é viabilizado por um estilo de gestão que possibilita o desenvolvimento do potencial criativo de todos os talentos.
  • Sobre estratégia: O intento de cada abelha, assim como o da colmeia é prosperar a vida. O foco central não está num ganho imediato, ou individual, mas em garantir que seja realizada a vida. Na empresa, o foco central deve estar na estratégia e no valor de seu capital intelectual e não na perspectiva de um lucro imediato.

Concordando ou não com minhas reflexões, uma coisa é certa. A natureza é uma impressionante professora de 5 bilhões de anos, com modelos testados, aprovados e melhorados que nos convida sem imposições a ajustar as lentes de nossa percepção para um olhar mais atento das complexidades a nossa volta. E uma característica notável da Sociedade do Conhecimento é que para aprender, não precisamos ser ensinados. Basta apenas fazer como as abelhas, colher o conhecimento e dar função para ele.

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Tags: analogias biomimetismo carlos legal colmeia gestão do conhecimento liderança

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