O vício existe mesmo, ou é apenas um mito?

Existirá mesmo uma dependência química por determinadas substâncias ou as drogas seriam apenas mais uma forma de se livrar de uma situação negativa? Mas será que uma mudança de ambiente não traria um efeito semelhante - porém mais saudável?

Nos textos mais recentes exploramos alguns comportamentos humanos relacionados a escolhas feitas em ambientes pouco familiares, onde os indivíduos encontravam-se em situações de estresse.

 

Especificamente os artigos sobre Zimbardo e Milgram mostraram como as pessoas acabam tomando decisões que prejudicam aqueles à sua volta, num momento em que havia a possibilidade de escolher entre se fazer o bem ou o mal a alguém. Hoje veremos como o indivíduo faz tal escolha numa situação em que ele próprio sofrerá as conseqüências mais imediatas: o uso de drogas.

 

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Na década de 1970 o uso de drogas pesadas atingia níveis endêmicos com a disseminação da cocaína pelos EUA, além dos veteranos da Guerra do Vietnam que voltavam para casa viciados em heroína e os revolucionários movimentos da contra-cultura, que popularizaram o LSD.


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Scarface doidão querendo fazer amigos

Depois de o vício em drogas ter sido associado à imoralidade e à fraqueza de caráter, a corrente de pensamento da segunda metade do século XX atribuía o uso e o abuso das drogas a questões essencialmente farmacológicas.

 

Colocavam a dependência química quase como um inevitável fim para aqueles com alguma predisposição inata sendo, portanto, uma questão médica.

 

Recentes experimentos com ratos e macacos relatavam dramáticos desfechos de estudos onde, em condições experimentais, as cobaias chegavam a preferir droga em vez de comida, muitas vezes morrendo de fome. Mas o psicólogo americano Bruce Alexander encontrou algumas inconsistências nesses relatos que mostravam o vício em drogas como um destino quase irrevogável e praticamente dissociado do livre arbítrio.

 

Para ele, as condições em que os próprios estudos eram realizados representavam um verdadeiro pesadelo para as cobaias envolvidas. Era de se esperar, continua, que qualquer ser vivo naquelas situações preferisse viver entorpecido do que sobreviver de forma tão deplorável. E ele estava disposto a provar sua hipótese.

 

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Morando no Canadá, Alexander trabalhou numa clínica de tratamento de viciados. Um paciente em especial chamava sua atenção: um rapaz que trabalhava vestido de Papai Noel injetava-se heroína e passava seis horas por dia sorrindo para crianças num shopping center em Vancouver. Tal comportamento sugeriu-lhe, pela primeira vez, que as pessoas não usavam a droga por uma necessidade essencialmente química, mas para suportar uma situação potencialmente difícil.

 

Drugs01

Para Alexander, os modelos animais estudados na época ignoravam a ligação entre os estímulos farmacológicos e as condições ambientais.

 

Ninguém considerava que o ratinho cruzava um piso eletrificado para sugar uma solução rica em ópio, porque talvez não tivesse mais nada para fazer. Ou que um macaco que trocava sua comida por cocaína provavelmente preferisse morrer a estar ali, pois o isolamento causa aflição extrema aos macacos, assim como a várias outras espécies - o homem incluído.

 

E se o acesso às drogas era tão fácil, por que apenas uma fração dos usuários tornava-se dependentes?

 

Alexander queria provar que, talvez mais do que desequilíbrios químicos, a necessidade incontrolável por determinadas substâncias poderia estar relacionada, por exemplo, ao trabalho, a um lar opressor, a uma infância sem afeto, à sorte ou até mesmo ao mau tempo - ou seja, fatores situacionais em vez de biológicos.

 

Observando os ratinhos viciados de seus colegas, Alexander admite que ele próprio sucumbiria ao torpor das drogas, como uma fuga para aquele ambiente precário - isso sem falar dos catéteres introduzidos em obscuros orifícios da sua anatomia, como acontecia nas caixas de Skinner utilizadas na época. Qual seria o comportamento dos roedores, perguntava-se, caso vivessem num outro tipo de ambiente, ou fossem experimentados sob diferentes circunstâncias?

 

Para Alexander, a resposta talvez estivesse aí. Junto com seus colaboradores Robert Coambs e Patricia Hadaway, ele começou a construir o verdadeiro Paraíso dos ratinhos de laboratório, num experimento que mais tarde tornar-se-ia conhecido como Rat Park.

 

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Ratinho feliz
"Eu amo o meu ursinho..."

Num ambiente controlado de 8,8 m2 (pode não parecer muito, mas era 200 vezes maior do que a gaiola comum onde a maioria dos experimentos era feita e, considerando o tamanho do ratinho, seria algo como uma pessoa dentro de um estádio de futebol*), aquecido a uma temperatura agradável, eles espalharam serragem de cedro pelo chão, bolinhas coloridas, rodas para exercício e dispensadores apropriados para alimentação.

 

Havia espaço suficiente para que os animaizinhos pudessem conviver confortavelmente, brincar, namorar e até eventualmente dar à luz e amamentar. Nas paredes pintadas de verde, eles desenharam montanhas e árvores simulando uma realidade ainda mais ampla do que uma gaiola de laboratório comum. Dezesseis felizes ratinhos passaram a desfrutar desse paraíso - que passarei a chamar singelamente de Ratolândia.

 

Outros dezesseis roedores não tão sortudos serviram como controles e foram confinados a um ambiente bem mais modesto - que batizei de Ratoeira -, semelhante às gaiolas utilizadas até então, onde viviam num triste isolamento.

 

Para ambos os grupos eram oferecidas duas opções de líquidos: uma torneira despejava água pura, enquanto que a outra oferecia uma mistura de água, açúcar e morfina.

 

Como era de se esperar, os ratinhos confinados logo preferiram a segunda opção, enquanto os felizes habitantes da Ratolândia eventualmente davam uma bicadinha (ou uma roidinha) na solução com morfina - com maior prevalência das fêmeas, diga-se. Os pesquisadores verificaram, assim, que o consumo de drogas era dezesseis vezes maior na Ratoeira, a colônia dos ratinhos sofredores - uma proporção pra lá de estatisticamente significativa.

 

Ratinho prisioneiro
"Me dá um teco ou me tira daqui!"

Alexander considera válida a comparação do seu estudo com os ambientes humanos pois, assim como nós, os ratos são animais extremamente agregadores, ativos e curiosos.

 

E o efeito analgésico e tranqüilizante da morfina interferia negativamente em suas capacidades de se relacionar com o grupo, bem como em outras gratificantes oportunidades que lhes eram oferecidas, tornando o seu uso indesejado.

 

Numa importante variação do estudo ambos os grupos, tanto os da Ratolândia quanto os da Ratoeira, recebiam apenas água batizada com morfina e açúcar. Depois de algum tempo nesse regime, os dois grupos eram compostos de ratos viciados e dependentes, certo?

 

Não necessariamente. Após aproximadamente dois meses, os pesquisadores ofereceram novamente a opção entre água com morfina (e açúcar) e água pura. A primeira opção continuou a ser a preferida da Ratoeira, enquanto que na Ratolândia seus habitantes pouco a pouco foram deixando de consumir a droga, mesmo depois de um longo período de uso contínuo.

 

Mesmo quando deixavam a droga por vontade própria, os ratos mostravam ligeiros sintomas de abstinência, mas nada severo como suor em profusão ou convulsões, por exemplo. Para Alexander, a síndrome de abstinência configura outro exagero em torno do também superestimado mito do vício.

 

Alexander conclui que boa parte do vício faz parte do chamado livre arbítrio. Quando uma pessoa - ou um rato - pega e usa o cachimbo, mas não o larga depois, isso está muito mais ligado às situações que vive do que às propriedades farmacológicas da droga em si. Talvez as circunstâncias em que a pessoa viva não lhe ofereçam uma redenção tão imediata e fácil quanto as drogas que ele tem à disposição.

 

O vício representa, então, uma estratégia, um estilo de vida para lidar com determinada situação e, como toda estratégia, está sujeita à influência da educação, da diversão e das oportunidades - assim como qualquer escolha.

 

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Cocaine_bricks_scorpion_logoAs idéias de Alexander trouxeram - e continuam trazendo - uma série de dúvidas em relação à forma como se aborda o problema do vício em drogas.

 

Questionam profundamente as abordagens sociais e, especialmente, as médicas para o problema das drogas.


Até pelo fato de haver enormes diferenças individuais nas respostas aos seus efeitos no organismo, não se chega a uma proporção ideal sobre os fatores que mais exercem influência nesse pernicioso hábito; se farmacológicos (a pessoa pode ter algum déficit na produção dos neurotransmissores) ou situacionais (o indivíduo pode estar vivendo um momento particularmente difícil).

 

O uso de drogas, qualquer que seja, guarda estreita relação com o estado de espírito do indivíduo, espelhando a situação particular que vive. Cigarros, cocaína ou chocolate representam um apelo muito mais forte para a pessoa que tem algum tipo de problema do que para quem está feliz e serelepe. Talvez até por isso não exista esta proporção ideal, uma vez que as características próprias de cada indivíduo sugerem abordagens particulares.

 

BRUCE ALEXANDER E A ADMINISTRAÇÃO

 

O estudo de Bruce Alexander dá contornos definitivos à importância do ambiente na vida das pessoas - especialmente no que tange aos seus estados psicológicos.

 

No caso das drogas, fica muito mais fácil culpar tão-somente uma predisposição genética ou um desbalanço químico - dos quais, aifinal, ninguém tem culpa mesmo - do que admitir que um ambiente não é saudável - porque neste caso haveria culpados.


O mais importante é notar que simplesmente fazer com que a pessoa pare de tomar drogas não vai resolver o seu problema. Se ela não toma drogas por questões químicas, então é necessário mudar o ambiente em que ela está inserida. Senão o retorno para as drogas será questão de tempo.

 

Do mesmo modo ocorre no ambiente de trabalho. Muitas vezes um gestor troca todos os membros da sua equipe, mas continua com os mesmos problemas. Mudam-se os atores mas a peça permanece a mesma. Quando ele perceberá que precisa mudar o roteiro? Até porque, com um bom roteiro até mesmo atores medíocres podem ter atuações espetaculares.

 

Vale a pena ressaltar, também, que Alexander questionou um modelo há muito utilizado: o de que as drogas seriam um problema essencialmente de dependência química. A partir de um insight (o caso do Papai Noel) ele perseguiu sua idéia e desafiou a comunidade científica da época formulando, inclusive, novas teorias a respeito de um problema que se tornaria endêmico anos adiante.

 

Em que você se assemelha à coragem e à personalidade Iconoclasta de Bruce Alexander?

 

O QUE VEM POR AÍ

 

Você seria capaz de se lembrar quantos textos desta série você já leu? Por que você se lembra com mais facilidade de umas coisas do que de outras? E de quantas coisas conseguimos nos lembrar ao mesmo tempo? No próximo texto veremos os limites de nossa memória e como George Miller chegou ao mágico número sete (mais ou menos dois).

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* Isso foi um chute, mas se alguém quiser fazer o cálculo exato da proporção eu agradeço...

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Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.

 

Texto original: Experimentos em Psicologia - Bruce Alexander e o mito do vício.

 

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Tags: Bruce Alexander Drogas Experimentos em Psicologia Vício

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