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Carne fraca: o inacreditável vídeo de defesa da BRF

Publicação mostra funcionários da empresa defendendo a marca e finaliza com frase de fundador, que sequer tem o nome citado

Semana passada escrevi um artigo em que questiono a postura da JBS em meio a essa nova crise do setor de carnes e derivados no Brasil. Vi, inclusive, que a assessoria da empresa entrou em contato com a redação do Administradores para dar um posicionamento. Devo estar dando trabalho para meus queridos editores, a quem peço desculpas desde já por qualquer transtorno. Mas, retomemos o assunto. Hoje quero falar da BRF, outra empresa impactada pela operação Carne Fraca, da Polícia Federal.

Não quero falar das denúncias da PF e das acusações que pesam sobre a empresa. Isso vocês já devem ter lido nos sites gerais de notícias ou mesmo aqui no Administradores, que tem acompanhado o caso. Quero falar da reação. Em específico, de um vídeo divulgado pela BRF em sua página no Facebook. (Para quem não sabe, a empresa é a responsável pelas marcas Sadia e Perdigão).

Já vi empresas não saberem o que fazer em momentos de crise. Já vi empresas falarem o que não deviam nesses momentos, já vi outras que não falaram nada e já vi também, claro, as que souberam contornar a situação com excelência. Mas nunca vi algo como esse vídeo da BRF.

Primeiro, assista (enquanto não é excluído ou alterado):

Assistiu? Então, vamos lá. Provavelmente, depois de ver, você já tenha chegado sozinho às mesmas conclusões que eu. De toda forma, peço licença para compartilhar minha visão. 

Primeiro: a empresa cita (sem citar) os inúmeros prêmios e certificações que recebeu. Amigões, essa crise foi desencadeada justamente porque a operação da PF descobriu, entre outras coisas, que licenças e certificações poderiam estar sendo concedidas de forma fraudulenta. Quem vai dar crédito a isso?

Segundo: funcionários defendendo a própria marca é algo que não costuma funcionar. Mas nesse caso - vá lá - faz certo sentido: ninguém daria carne estragada aos próprios filhos. Mas não há nada mais frágil do que essas fotos de colaboradores da empresa reproduzindo o discurso ensaiado pelo comitê de gestão de crise, o marketing, a agência de publicidade ou quem for. São elos mais fracos na hierarquia, com empregos a zelar. Sendo realistas, quantos seriam capazes de dizer não a "uma ordem de cima"? Sem contar que numa cadeia complexa como é a da produção de carnes, um vendedor ou representante da marca pode ser tão desconhecedor do produto quanto nós, consumidores.

O grand finale

Esse último ponto merece um tópico com maior destaque e intertítulo próprio, porque é o trecho mais comprometedor do vídeo: uma frase entre aspas atribuída ao "fundador" da empresa. Um fundador que não tem nome e assina, pasmem, como "Nosso Fundador". Os colaboradores aparecem, mostram suas fotos, seus nomes, suas geladeiras. Mas o "fundador" não pode ter o nome citado? 

Todo mundo que trabalha na área sabe que, no meio de uma crise, nada passa mais credibilidade do que a liderança assumir as rédeas, reconhecer as falhas e tomar para si a responsabilidade de corrigi-las. Há um caso clássico, de 2012, que até hoje é lembrado nas salas de aula, de quando a Zappos - varejista norte-americana - foi hackeada e os dados de 24 milhões de clientes foram roubados. Na ocasião, o próprio presidente da empresa foi a voz pública pedindo desculpas a cada um dos clientes. Aqui você pode ler mais sobre essa história.

Não quero atirar pedras, pois sei que gerir crises não é fácil. Mas pensar um pouco antes de sair fazendo qualquer coisa pode até não resolver a turbulência em curso, mas com certeza vai evitar novos distúrbios.

Em tempo: os fundadores

A BRF resultou da fusão da Sadia com a Perdigão e hoje toma conta não só dessas duas marcas, mas também de outras menores que eram controladas por ambas. Então, quem fica como fundador nessa história? Vamos lá: quem fundou a Sadia foi Attilio Fontana. Já a Perdigão foi fundada por Saul Brandalise. A BRF, porém, tem um pai difícil de se identificar, já que surgiu de um negócio que envolveu vários sócios, fundos e acionistas menores. 

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