Reality Shows, aquecimento global e chuvas: quem ganha com tudo isso?

As chuvas são ocorrências naturais desde que a Terra existe. Administrar o escoamento das águas de chuva no Brasil ainda é atividade que não recebe a importância devida. Por causa dessa falta de importância, as aguas das chuva ainda matarão muitas pessoas no Brasil.

Evandro Brandão,

As chuvas que encheram a cidade de Fortaleza nos dias 05 e 10 de janeiro de 2011 deixaram muitas ruas alagadas. Famílias perderam grande parte dos seus bens; muita desgraça; pobreza urbana estampada no noticiário local; reclamações nas emissoras de rádios, na televisão e nos jornais impressos. As águas das chuvas não têm objetivos e nem horizontes; são consequências de fenômeno natural e obrigatório para manter o ciclo da natureza. Seja em Fortaleza, em São Paulo, no Rio de Janeiro ou Manaus, as águas das chuvas devem ser administradas de forma estratégica e inteligente.


Desde o final da década de 80 do século passado, o mundo tem estado alerta para as questões do aquecimento global; descobriu-se não somente que o sistema de produção utilizado por cada uma das sociedades é gerador de gases de efeito estufa, como também os modelos de desenvolvimento alimentados por todo o mundo não racionaliza os diferentes usos dos recursos naturais para a produção de bens e serviços capazes de atender às necessidades humanas.


Não obstante essas constatações; não obstante as conferências, os encontros, os congressos, as reuniões, os acordos, e todo o dinheiro gasto por cada país para cuidar do aquecimento global, nada de concreto foi realizado, efetivamente comprovado, até hoje, em relação à redução do aquecimento global. Se fosse possível fazer um levantamento, somente no Brasil, para verificar quantas passagens de aviões foram pagas para técnicos e técnicas brasileiros e estrangeiros em função de discussões sobre o aquecimento global. Nada providenciado, nada de novo ou de realizado. Gastos e mais gastos já realizados e muitos outros gastos virão nesse ano e nos anos futuros.


Quando relacionamos o custo das discussões sobre o aquecimento global com os desastres ocorridos no Brasil após cada período de chuvas, não fica claro porque tanto gasto com o aquecimento global e nenhum gasto com a administração das águas das chuvas. Enquanto as questões das mudanças climáticas referem-se a prazos de 20, 30, 50 e 100 anos, as questões da administração das águas das chuvas ainda não começaram a ser discutidas.


Sobre as águas das chuvas, elas mesmas provocam as notícias; somente se falam sobre essas águas após os desastres, como os ocorridos em Fortaleza, nas duas primeiras semanas de 2011 e no Rio de Janeiro e em São Paulo, na segunda semana do mesmo ano. Sobre o aquecimento global, as mudanças climáticas, as discussões se concentram na mitigação; ações voltadas para corrigir danos causados ao meio ambiente pela emissão irracional de Gases de Efeito Estufa; não há direcionamento para a adaptação. É preciso mudar urgentemente o direcionamento dessas discussões.


A hipocrisia diante da administração das águas das chuvas no Brasil atingiu o limite do suportável. A quantidade de pessoas mortas, desabrigadas, feridas e desparecidas nos desastres com águas das chuvas nos últimos cinco anos é muito mais do que conveniente, do que suficiente, para a estruturação de um Plano de Administração Estratégica das Águas Pluviais no Brasil. No interior desse Plano, além da elaboração de um Mapa de Vulnerabilidades do Brasil, outros mapas de vulnerabilidades dos estados, dos municípios e até das localidades, se necessário, para estabelecer planos emergenciais de construção de habitações fora de áreas de risco, com a infraestrutura suficiente para as pessoas habitarem as novas construções com dignidade.


Quando leio as notícias e as previsões de desembolsos para as questões das mudanças climáticas, as ações mitigadoras diante das emissões de Gases de Efeito Estufa e, ao mesmo tempo, assisto às coberturas televisivas dos desastres das populações do Rio de Janeiro, de Nova Friburgo, de Petrópolis e de São Paulo, sinto muito medo dessa descompensação de importância e de providências.

E para completar, o cenário torna-se ainda mais surreal quando combinam-se numa mesma noite, as imagens televisivas de Reality Shows com as imagens das desgraças causadas pelas águas das chuvas por falta de comando e controle das autoridades brasileiras; por falta de vontade política capaz de transformar a miserabilidade da sociedade brasileira que não reúne as condições impostas pelo sistema econômico em vigor para construir ou pagar aluguel de residências fora de áreas de risco em todo o Brasil.


Finalmente, fica uma dúvida recorrente na cabeça de muita gente: Que diabo de país é esse, onde uns trabalham toda uma vida para sobreviver, pagar impostos e educar filhos como única riqueza capaz de perpetuar a própria espécie, enquanto outros gozam gostoso com as benesses resultantes dos esforços dos primeiros que morrem com 50, 60 e 70 anos de idade sem nunca ter tido condições de comprar um automóvel usado, de ter uma casa em local com infraestrutura que dê dignidade para residir? Que país é esse que está presente no Haiti, tentando minimizar situações que são de responsabilidade mundial, enquanto no interior do seu limite territorial não consegue administrar as águas das chuvas, para que a sua maior riqueza, pessoas, não continuem morrendo miseravelmente?


Enganam-se aqueles que pensam que esqueci de citar a situação da águas das chuvas e dos igarapés da cidade de Manaus; não esqueci, é que tornou-se regra falar e escrever sobre esssas águas somente depois que os desastres ocorrem. Então, deixemos que o tempo mostre a importância de sanear os igarapés; que os mapas de vulnerabilidades sejam elaborados quando houver vontade política para isso; que um grande plano de habitação que retire as pessoas das áreas de risco se torne uma realidade em Manaus, também quando houver vontade política para isso, como há vontade política para investir nas questões das mudanças climáticas e na Copa de 2014.

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