Taylor Swift, gênia das finanças

Nova estratégia de venda de ingressos da cantora em sua turnê mostra um caminho da boa administração que empresas como Apple e Disney também estão seguindo

REUTERS/Carlo Allegri

Seu artista preferido está vindo para um show na sua cidade. Ingressos vendidos a 100 reais. Você espera ansiosamente os ingressos começarem a ser vendidos. Corre até a bilheteria… e descobre que os ingressos esgotaram.

Você agora tem duas opções: espera alguns anos torcendo para o artista voltar à cidade, ou gasta mil reais para comprar um ingresso que estava sendo vendido oficialmente a cem reais das mãos de um cambista. O que você faz?

Se você for otimista, até dá para dizer que o cambista é o símbolo de que o capitalismo funciona: se você pode comprar algo a cem, esperar um pouco e revender a mil, o cambista está oferecendo um serviço valioso a seus clientes. Sim, o comprador pode se sentir meio roubado, mas quantas matérias na mídia noticiam o sucesso de um evento falando do tempo que os ingressos levaram para esgotar? Quantas pessoas dão entrevistas dizendo orgulhosamente quanto pagaram em um ingresso pela chance de ver seu artista preferido?

Se você é o artista, por outro lado, isso pode ser um problema: você faz seu trabalho, viaja, se apresenta, e alguém está capturando boa parte do valor que chega até você. Se você ganha seus rendimentos sobre ingressos vendidos a R$100 e alguém está vendendo eles por R$200, está deixando na mesa os R$ 100 que seus fãs pagaram mas não chegaram até você.

Confesso que, mais de uma vez, isso me irritou um pouco na minha vida profissional. Não é raro receber uma proposta, digamos de 10 mil reais para dar uma palestra, e depois descobrir que a empresa que está agenciando está cobrando 20 mil do cliente tentando te manter no escuro. O cliente acaba pagando 20 em algo que “vale" 10 para o produtor.

Se você é a Taylor Swift, a diferença entre o que seus fãs pagam nos ingressos e o preço que os cambistas os revendem chega a 85 milhões de dólares em uma turnê.

A cantora, famosa também por administrar muito bem a sua carreira, resolveu fazer algo a respeito. Junto à empresa que vende os ingressos de seus shows nos EUA, começou um experimento para identificar quem são os fãs de “carne e osso”, e quem são os cambistas: compras de produtos, assistir vídeos online e outros comportamentos são sinais de que uma pessoa de verdade está comprando um ingresso e merece o preço justo, enquanto comportamentos típicos de cambistas são afastados. O preço geral dos ingressos está um pouco mais caro, e todo mundo está mais feliz.

Naturalmente, já saíram matérias na mídia sobre como os shows não estão esgotando tão rápido. Não há relatos de gente pagando dez vezes mais por um ingresso. Alguns, menos avisados, chegam a considerar isso como um sinal de fracasso.

É engraçado como todo mundo gosta de falar bem da inovação e boa administração, mas, quando vê isso acontecendo na própria frente, não entende e critica. Outras duas famosas empresas optaram pelo mesmo caminho de Taylor Swift, e as críticas chegam a ser engraçadas.

Já ouviu falar na Disney? Com parques cada vez mais lotados, a empresa resolveu subir o preço dos ingressos. Ouvi duas vezes o CEO da empresa respondendo questão sobre o “menor crescimento” nos parques. Pacientemente, ele respondia “Não queremos só aumento de número de pessoas, queremos mais qualidade no atendimento e maior lucro.” E lá vem as críticas sobre como há outros parques crescendo mais rápido…

O mesmíssimo aconteceu com a Apple. A empresa lançou um telefone de mil dólares (O Iphone é um telefone, lembra?), e teve o preço de suas ações derrubadas por comentários como “A Apple não vai mais vender tantos Iphones.” É verdade. A empresa planeja crescer “só”, 13% em número de vendas, mas o preço médio gasto em cada aparelho por cliente subiu de US$ 618 para US$ 796 em apenas um trimestre. Ainda assim, você vai encontrar várias matérias sobre o menor número de Iphones vendidos… Tadinha da Apple, produzindo menos e cobrando mais por isso (acho que eles vão sobreviver).

Taylor Swift, aquela gênia das finanças, já aprendeu a lição.

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