Pós-Modernismo em Administração: leituras selecionadas

O vigoroso texto de Jean-François Lyotard (1998), A condição pós-moderna, inicia quebrando a noção positivista de que existe uma acumulação do saber científico e técnico. Tal pressuposto é, geralmente, aceito de duas formas: essa acumulação é “regular, contínua e unânime”, ou então, na visão de outros, “periódica, descontínua e conflitual”. Trata-se de uma falácia, uma vez que o saber científico não resume todo o saber. O saber é abrangente e vai mais além de um conjunto de enunciados denotativos. Envolve, também, as competências de prescrever, avaliar, transformar, escutar, decidir... Há outra espécie de saber, a qual Lyotard (1995) denomina ‘saber narrativo’, que está em constante competição – para usar as palavras do autor – com o saber científico.

Lyotard conduz o leitor a um intenso processo de reflexão. Ele nos revela que saber e poder são as duas faces de uma mesma moeda. Por exemplo, para que um novo enunciado científico possa ser levado em consideração pela comunidade científica, é necessário que ele seja ‘legitimado’. A grande questão é: legitimado por quem? “Quem decide o que é saber, e quem sabe o que convém decidir”? “Como provar a prova”? “Quem decide sobre o que é verdadeiro”? Nesse ponto, Lyotard revela que há sempre um jogo de poder no processo de legitimação do saber (científico). Geograficamente, o autor posiciona o Ocidente como o principal referencial nesse processo, e revela que o saber científico está amplamente subordinado às potências.

Os artigos de Robert Chia (1995) e Martin Kilduff e Ajay Mehra (1997) nos ajudam a compreender melhor o que vem a ser o pós-modernismo propriamente dito. Primeiramente, quebrando-se a falsa noção que o termo evoca automaticamente: “pós”, nesse sentido, não quer dizer um movimento “posterior” ao modernismo. A abordagem de Chia é extremamente interessante e elucida uma série de dúvidas a esse respeito. O autor identifica como pós-modernista, por exemplo, o pensamento de Derrida, o antigo filósofo chinês Chuang Tzu, assim como o Zen Budismo. Ou seja, o pós-modernismo não se confina a uma época particular e tampouco é algo que vem depois do moderno.

Trata-se de um “estilo de pensamento” (style of thinking), ao qual Kilduf e Mehra (1997) chamariam de “eclético”. Uma perspectiva que procura incluir e usar técnicas, introspecções, métodos, e aproximações de uma variedade de tradições, com pouca consideração em relação aos limites acadêmicos. É um estilo de pensamento que reconhece que não podemos pensar sem nos abstrair. No campo da pesquisa acadêmica, o estilo pós-modernista permite o uso de múltiplas técnicas (métodos), tais como etnografia, biografia, desconstrução textual, interpretação semiótica, laboratório experimental, etc., que podem, inclusive, ser combinadas com métodos de análise quantitativa.

Outro ponto extremamente interessante - e aqui finalizo com o questionamento básico desse artigo - é a crítica à reificação - a atitude de transformar algo abstrato em material, em coisa. Trata-se de uma tendência modernista, amplamente praticada em nossos estudos contemporâneos de administração, por exemplo. Empacotamos processos que são altamente complexos, heterogêneos e contínuos e damos-lhe uma ‘etiqueta’. Temos, assim, o “o” management, “o” marketing, “a” liderança, “a” organização, “os” indivíduos, etc.

A grande questão que devemos nos colocar é: como desviar-se da lógica dominante e dos costumes arraigados à perspectiva modernista e adotar uma nova postura que contemple os princípios pós-modernistas indo além da mera mudança de discurso?





REFERÊNCIAS

LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998. p.11-57; 111-123
CHIA, Robert. From modern to postmodern organizational analysis. Organization Studies, v.16, n.4, p.559-586, 1995.
KILDUFF, Martin; MEHRA, Ajay. Postmodernism and organizational research. Academy of Management Review, v.22, n.2, p.453-481, 1997.
PARKER, Martin. Critique in the name of what? Postmodernism and critical approaches to organization. Organization Studies, v.16, n.4, p.553-565, 1995.
JONES, Campbell. Theory after the postmodern condition. Organization, v.10, n.3, p.503-525, 2003.






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Sobre o autor

Leandro Vieira

Leandro Vieira é Mestre em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Certificado em Empreendedorismo pela Harvard Business School. Tem MBA em Marketing, pelo Instituto Português de Administração e Marketing (IPAM) . Administrador de Empresas pela UFPB e bacharel em Direito pelo UNIPÊ. Foi professor da Escola de Administração da UFRGS. Criador e Editor do Portal www.Administradores.com.br.



Escreve também o Blog Administre-se para a Revista VOCÊ S/A.



 

Membro do Conselho Editorial da Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão, editada pela Fundação Getúlio Vargas (Brasil) e pelo INDEG/ISCTE (Portugal), e da Revista Economia Global e Gestão, do ISCTE (Portugal).



Áreas de interesse: Marketing, Empreendedorismo, Estratégia em Organizações, Gestão de Negócios, Comunidades Virtuais, Ensino a Distância, Criatividade, Liderança, Inovação e aplicação de idéias no âmbito da nova economia.



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