Público e Privado - 1

Senhores,

Existe uma falseabilidade nas questões públicas discutidas no Brasil,  no mundo desenvolvido as carreiras públicas são objeto de desejo profissional sem que os indivíduos sejam marginalizados pelo restante da sociedade ou taxados de indolentes. Infelizmente,  é consenso na maior parte da sociedade brasileira, levada a crer historicamente que o que é público não presta e que o desenvolvimento econômico e social prima apenas pela figura do empreendedor privado. 

Observem os países do G-7, nenhum deles se desenvolveu sem funcionalismo público profissional e sem a participação efetiva do Estado. Nesses países , diferentemente do Brasil, existem escolas privadas (além das públicas) de governo e administração pública, escolas que acabam por fornecer profissionais gabaritados até para a inicativa privada. Qual não é a surpresa geral do brasileiro classe média , que sai do país pela primeira vez e desembarca em Roma, Paris, Londres, Waschington etc e descobre que políticos, empresários e ricaços brasileiros estudam e se tratam nas melhores universidades e hospitais e, que são via de regra, públicos.

Existe o desejo da estabilidade profissional no Brasil, é compreensível e é conseqüência do baixo crescimento econômico nos 30 anos recentes, faltam empregos qualificados, vilipendiaram as universidades e faculdades, faltam técnicos em todas as áreas privadas e, o setor público é o único que ainda opera em grande medida na formalidade das relações de trabalho, a maior parte da iniciativa privada brasileira rivaliza-se com piratas do século XVIII e escravaturistas que aqui viveram e operaram durante 400 anos, sem contar que ela mesma não faz o que exige dos seus funcionários ou futuros candidatos aos empregos : estudar !


A máquina pública, leia-se Governo (G) é um dos componentes da Renda ou Riqueza Nacionais (Y) :


Y = C + I + G + X - M

Y = Renda Nacional ( aqui expressa como bens e serviços).
C = Consumo das famílias .
I = Investimento das empresas privadas e públicas .
G = Gastos do governo.
X = Exportações de bens e serviços.
M = Importações de bens e serviços.


Em termos gerais o Governo, em todas as instâncias, destina verbas para custeio e investimento. Tratando aqui apenas do custeio, que implica diretamente na manutenção da máquina pública, sua importância é vital para o crescimento econômico e a conseqüente manutenção de empregos e rendas, pois, são com as verbas do custeio que os Governos pagam salários ao funcionalismo público, e provêm a manutenção de instituições públicas diversas comprando na iniciativa privada bens e serviços necessários a essa manutenção do que é público.

Observem, que, as compras públicas e em conseqüência seu poder gerador de renda e emprego, são tão importantes para qualquer economia, seja no Brasil, seja na União Européia ou nos EUA, que elas, até hoje são objeto de disputa acirrada na OMC, ou seja, as potências econômicas querem que países como Brasil, México, Argentina, Índia, África do Sul, China e Rússia, permitam maiores participações estrangeiras nas licitações públicas.

O que aconteceria com a eficiência econômica dos EUA se sua máquina pública perdesse a capacidade de manter-se pela falta de fundos ou pela debilidade de sua mão-de-obra (servidores) ? A capacidade empresarial é hoje considerada um dos fatores de produção e não existe economia dinâmica sem empresários dinâmicos. Todavia, precisamos centrar ou ponderar as críticas e observações ao que é público.

No Brasil, o quadro das idéias sociais e econômicas preocupa-me. Explico, aqui, não se reconhece no capitalismo uma prática das sociedades e dos indivíduos como melhor opção histórica (demonstrou-se até o presente) de desenvolvimento econômico e social, para evitar que seja entendida como costume artificialmente construído para a exploração do indivíduo, pois, é esse o pensamento que impera até entre os universitários brasileiros e mesmo entre os estudantes de administração. Ou seja, os brasileiros em geral recriminam o capitalismo, o desqualificam como meio de exploração, de um lado, e execram o setor público, de outro. Fizeram um excelente trabalho de desinformação ao longo da República, com o intuito de rapinar mais facilmente o Estado brasileiro.

A responsabilidade pela falta de crescimento econômico adequado às nossas necessidades e o desenvolvimento econômico e social pífio que conseguimos até o presente, não pode ser imputada somente ao setor público. Basta que acompanhemos pela imprensa a relação promíscua de empresas privadas com a coisa pública.

A corrida de talentos para o setor público é efeito e não causa do que enfrentamos e vamos continuar a enfrentar. Não apenas a escassez de emprego e a instabilidade econômica são os determinantes do que experimentamos atualmente. A instabilidade, hoje em dia não é latente, nós temos estabilidade econômica, o problema é que essa estabilidade está num nível quantitativo muito baixo para prover mais e melhores empregos, mas o problema reside também na péssima qualidade dos empregos ofertados, sobretudo para jovens recém saídos das universidades e, mesmo que consideremos a falta de experiência desses.


Ninguém em sã consciência trocaria a possibilidade de trabalhar no setor público recebendo rendimentos e melhores condições de trabalho, muitas vezes superiores aos da iniciativa privada, apenas pelo desafio de trabalhar nela. As pessoas, letradas ou não, fazem seus julgamentos de utilidade, sempre no âmbito pessoal, ignorando, naturalmente, as conseqüências para o restante da sociedade e economia.


Não estou me referindo aos centros de excelência, mas ao grosso das médias, pequenas e micro empresas que empregam a maior parte da mão-de-obra no Brasil e, as inovações (desenvolvidas aqui ou importadas), pela natureza oligopolista da economia brasileira, acontecem mais nas grandes empresas e conglomerados. Em suma, as pequenas e médias empresas são receptoras da evolução tecnológica dos grandes grupos, fato que até mesmo empresas do porte da EMBRAER precisam promover cursos internos (universidade corporativa) para qualificar seus funcionários, não dependendo dos profissionais que são formados pelo conjunto da iniciativa privada brasileira, avessa às pesquisas e desenvolvimentos e ávida pelos lucros do curtíssimo prazo.


Infelizmente a economia privada no Brasil não está demandando talentos em grande escala, um dos motivos, além da falta de crescimento econômico adequado, é que não produzimos ciência e tecnologia como precisaríamos para que surgisse disputa acirrada entre o público e o privado pelos talentos pessoais.

Da forma como se criticam os concursos públicos (a oferta), o setor público estaria tragando talentos de uma inicativa privada dinâmica em profusão e, isso não é verdade. Andem pelo Brasil !


Os governos não podem ser vistos como competidores inferiores, mesmo nas suas repartiçoes mais simples, em relação à iniciativa privada, afinal, eles são responsáveis inclusive pela oferta de trabalho e renda em todo o sistema econômico, assistência social, educação, moradia, saúde etc. De fato, não podem contar com servidores débeis na formação profissional.






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Palavras-chave

Sobre o autor

Carlos Cezar Russo

Carlos Cezar Russo - Economista e Administrador.



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carloscezarcezar@yahoo.com.br

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Áreas de interesse  : Análise econômica conjuntural e estrutural de cenários.





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