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A recente evolução do desenvolvimento sustentável

Cada vez mais se faz presente no universo da gestão o conceito de desenvolvimento sustentável que reflete um cenário histórico diverso daquele que se fez presente o conceito de desenvolvimentismo.

É bem recente a integração da ideia de desenvolvimento econômico social sendo delimitada pela perspectiva de sustentabilidade ambiental, tendo por marco inicial as discussões sobre o meio ambiente, ocorridas na cidade sueca de Estocolmo, datada no ano de 1972.

Portanto, são apenas quatro décadas. Até então, a perspectiva do desenvolvimentismo atuava como solução humana. Em síntese, o que se tinha era uma produção crescente movimentando recursos em termos planetários cada vez maiores que acabaram por levar a alterações do ecossistema com reflexos cada vez mais intensos. Já em Estocolmo, chega-se à conclusão de que a produção é a maior
responsável pela degradação. O que fazer num mundo em expansão?

A questão passa a ganhar corpo, e em 1983 a ONU indica Gro Harlem Brundtland, a primeira-ministra da Noruega, como chefe da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, cujo objetivo era o de analisar e refletir a questão ambiental em termos globais. O resultado surgirá em 1987, quando o grupo apresentou o documento Nosso Futuro Comum, que acabou conhecido como Relatório Brundtland e cujo texto se consagrou no conceito de desenvolvimento sustentável.

O documento passou a utilizar a expressão “desenvolvimento sustentável”, com a seguinte definição: forma como as atuais gerações satisfazem as suas necessidades sem, no entanto,comprometer a capacidade de as gerações futuras satisfazerem suas próprias necessidades.

O cenário atual do objeto de estudo é tema que institucionalmente encontra seu momento crucial no evento internacional realizado em 1992, na cidade do Rio de Janeiro, batizada com a sigla de CNUMAD, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, mas cuja denominação acabou popularizada como Rio-92 ou Eco-92, onde se protagonizaram a discussão e a reflexão da questão da proteção ambiental, enfatizando como instrumento a meta de se ajustar ao desenvolvimento sustentável. Resultante do encontro e lastreada por 179 países, foi produzida a Agenda 21, que visava constituir um plano de trabalho baseado na hierarquização das prioridades quanto às diretrizes em relação à integração do desenvolvimento do uso sustentável dos recursos do meio ambiente.

O tema retoma a uma postura de destaque no ano 2000, a partir de um diagnóstico das ações produzidas a partir do Rio-92, em torno do qual foram propostos os Objetivos de Desenvolvimento para o Milênio – ODM, agora endossado por 199 nações, como importante documento produzido dentro da Cúpula do Milênio promovida pela ONU e dando atenção especial aos países com menor e em desenvolvimento. Os ODM estabeleciam levantamento de indicadores para o monitoramento das ações, assim definiu-se o prazo para o segmento de tempo 2000 a 2015.

O ano de 2012 vai marcar os vinte anos de Rio-92, daí a ideia de retomada e de reencontro em torno da temática na agora denominada Rio+20, que teve por resultante a confecção de documento que propunha a integração de lideranças políticas internacionais em ação comum, visando o desenvolvimento sustentável. Ainda foi criado o Grupo de Trabalho Aberto, que ao final de mais de ano de estudos propôs os 17 objetivos que deveriam  compor os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS.

Assim o triênio 2012-2015 será caracterizado por um extenso e intenso processo de consultas junto à sociedade civil, setores privados específicos e ao setor público dos diversos governos locais em relação aos ODS. O resultado será que no ano de 2015 a
Cúpula das Nações Unidas, sobre o Desenvolvimento Sustentável, confirma os 17 objetivos e suas metas. Tratam-se dos seguintes  aspectos: erradicação da pobreza; fome zero e agricultura sustentável; saúde e bem estar; educação de qualidade; igualdade de gênero; água potável e saneamento; energia acessível e limpa; trabalho decente e crescimento econômico, indústria inovação e infraestrutura; redução das desigualdades; cidades e comunidades sustentáveis; consumo e produção  responsáveis; ação contra a mudança global do clima; vida na água; vida terrestre; paz, justiça e instituições eficientes e parcerias e meios de implementação.

Há que se destacar o diferencial entre o ODM, Objetivos para Desenvolvimento para o Milênio do ano 2000, e ODS, Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável. Trata-se da participação e engajamento social desta última em contraposição ao primeiro,
elaborado de cima para baixo, desenvolvida por grupo de especialistas, que
acaba por ser a característica que se destaca na Agenda 2030. Esta, seguindo os
princípios que a constituíram, valoriza a participação da sociedade, seja na
sua implementação, seja no monitoramento de seu acompanhamento, visando
estabelecer um novo período futuro de planejamento; novamente se referirá a um
segmento de tempo de 15 anos, entre 2016 – 2030.

Como se pode observar, no curto período histórico do encaminhamento proposto à questão acima o problema é transformar intenções em prática, discurso em ação. Ou seja, talvez o problema não seja diagnosticar os problemas ou de ter conhecimento das práticas éticas que possam conduzir o ser humano a um futuro promissor, mas um gargalo entre o discurso e a operação, entre o que o sujeito diz e o que o sujeito faz.

Isto pode parecer fato secundário, porém, num sistema democrático é problema de primeira ordem, pois que neste temos vontade representada e representante, e ação desconectada do almejado; coloca em xeque o sistema democrático, à medida que o rito democrático das eleições não se converte em gestão democrática dos eleitos.

O problema é que as melhores intenções, quando não associadas às fontes dos recursos para sua implementação, acabam apenas atuando como discurso. Neste sentido, são esclarecedoras as palavras do Secretário Executivo do Meio Ambiente do Brasil, Francisco Gaetani (2015):

Se não enfrentarmos simultaneamente da discussão dos meios de financiamento destes objetivos, vamos estar trabalhando apenas no plano da retórica. Sem dúvida a formulação dos objetivos é muito importante, mas sem se dispor da origem dos recursos e forma de
alocá-los, a qualidade do gasto a produtividade deste investimento no
enfrentamento no enfrentamento destes objetivos, nós não estaríamos
proporcionando uma abordagem integral completa para enfrentar este desafio.

Outro aspecto crucial para a realização de tal ordem de objetivos é o engajamento da população, tal como da vontade política daqueles que estão à frente da administração pública, mas ainda assim isto não será o suficiente se não houver os recursos para
implementar os projetos propostos pelos ODS.

Se fazem necessárias parcerias globais, como participação de governos, da sociedade civil, do setor privado e do sistema ONU. Porém, ao engajar a população, sem sua contrapartida, este vazio de ações compromete a confiança no modelo de regime democrático em ser capaz de levar a equalização do bem estar social, e faz o cidadão se sentir como elemento manipulado em favor de interesses alheios.

Para equalizar o problema como ação em si, deve ser observado no plano microeconômico, tal como no macroeconômico, com integração da ação privada com a ação pública, sempre numa perspectiva sistêmica. São medidas tanto de amplitude da sociedade como um todo, mas também em outra linha outras que atuam no plano das organizações e dos indivíduos, que em síntese coloca em questionamento a relação indivíduo e meio que parece ser a interrogação a ser resolvida pelo mundo que quer ser civilizado.

 

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Tags: desenvolvimentismo desenvolvimento sustentável ONU PNUD produção progresso

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