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E-book torna leitura um processo interativo com o autor

Livro eletrônico permite ligação entre leitor e autor; novidade rompe o segredo que sempre existiu – para autores e editores – sobre o que pensa, e como reage, o leitor, durante o seu processo de contato com o livro e seu conteúdo

Renato Bernhoeft,

O processo interativo, e de invasão de privacidade, que praticamente abrange nos dias atuais quase todas as atividades humanas, chegou agora também ao universo da intimidade que envolve o leitor de livros.

E esta novidade interativa rompe o segredo que sempre existiu – para autores e editores – sobre o que pensa, e como reage, o leitor, durante o seu processo de contato com o livro e seu conteúdo.

Mas o que chama ainda mais a atenção, e merece destaque nesta nova descoberta do mundo virtual, é que autores e editores agora conseguem não só acompanhar o processo de leitura de cada usuário do “e-book”, mas ele também permite que o leitor possa interferir no andamento e conteúdo da obra.

Fornece aos autores idéias, sugestões, motivos e opiniões que podem influir, ou até mesmo criar argumentos e conteúdos, para futuras obras literárias.

É evidente que todas estas mudanças provocam discussões concordâncias e divergências, numa verdadeira relação de amor e ódio entre os autores e seus editores.

O romancista Scott Turow afirma que sempre achou frustrante a incapacidade que o mercado editorial apresentava para estudar a sua base de clientes.

“Quando reclamei a um dos meus editores que, depois de tanto tempo publicando, eu ainda não sabia quem comprava meus livros, obtive como resposta de que no meio editorial ninguém tinha esta informação.”

Turow, que é presidente da Associação dos escritores dos EUA, a Authors Guild, prossegue afirmando que “se der para saber que um livro é longo demais e que é preciso ser mais rigoroso no corte, eu, pessoalmente, adoraria esta informação.”

Para outros autores e editores, como Jonathan Galassi, diretor de operações da editora Farrar, Straus & Giroux, ele considera que esse apego

a dados possa acabar impedindo o escritor de assumir os riscos da criação. E complementa dizendo que estes riscos tem sido, ao longo do tempo, um dos principais responsáveis pela grande literatura.

E cita como exemplo o fato de que “não vamos encurtar ‘Guerra e Paz’, só porque alguém não conseguiu chegar ao fim”.

A Kobo, que fabrica leitores digitais, tem um serviço que armazena 2,5 milhões de livros e conta com mais de oito milhões de usuários. Ela consegue verificar quantas horas os leitores dedicam a este ou aquele título e até onde avançam na leitura.

Mas o mais incrível ainda é o que já vem fazendo a Barnes & Noble, pelo Nook, que tem um programa intitulado “escolha sua própria aventura”, que permite ao leitor alterar personagens e tramas. Engenheiros da empresa consolidam os dados obtidos de seleções feitas por leitores e enviam os resultados para o autor. Desta forma ele poderá ajustar a trama dos seus próximos livros, influenciado pela opinião do público leitor. 

Todo este volume de informações, e interatividade entre escritores, editora e leitor, pode ir muito além da invasão de privacidade. Mas também poderá criar uma produção literária de conveniência, com base em informações obtidas no mercado.

Olhando por outro ângulo, também permite que o mundo literário possa iniciar um processo muito mais participativo do leitor e até o eventual aproveitamento da sua criatividade. E até mesmo conhecer suas reações aos enredos propostos pelos escritores.

Segundo alguns analistas o livro eletrônico – e-book – abre uma janela para a história por trás das cifras de vendas, revelando não só quanta gente compra um determinado livro, mas com que intensidade a obra foi, e está sendo lida.

É evidente que todos estes avanços tecnológicos não vão tornar obsoleto o livro impresso em papel. Eu próprio já sou testemunha da excelente convivência entre ambos. O livro eletrônico é um bom companheiro que ocupa menos volume nas viagens. Torço para que estas novidades possam aumentar e estimular o número de leitores.


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