Me tire um rim, mas deixe meu celular

Na vida real, eu não consigo subir em um caixote numa praça pública e ficar gritando as coisas que penso sobre política, futebol, eleições americanas, feminismo etc. Mas no digital claro que isso é possível

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Eu não largo meu celular o dia inteiro. Não tem jeito. Me relaciono mais com ele do que com qualquer pessoa nesse mundo. E limpo a tela o dia todo, passo na calça mesmo. Afinal, minha vida passa pelo meu smartphone. É relevante demais tudo que surge pra mim naquela telinha em alta definição. Na vida real, eu não consigo subir em um caixote numa praça pública e ficar gritando as coisas que penso sobre política, futebol, eleições americanas, feminismo etc. Mas, no digital, claro que isso é possível, e ainda consigo escrever o que quiser, falar, gritar, com filtro, sem filtro, mexo em cores, saturação, edito, corrijo, mexo, tiro, ponho, arrumo, ajeito, bem melhor que liquid paper quando eu errava com a caneta, e nem precisa ficar assoprando depois. Aliás, não escrevo mais nem à lápis hoje em dia, só digito, e com uma extrema destreza na ponta de meus dedos. Teclar, teclar, teclar, cada vez mais rápido. Sem parar. Dia todo.

E minha memória, então? Não preciso recorrer a ela o tempo todo. O Facebook me lembra de tudo, dos aniversários, das minhas tarefas. Até sugestões prontas de mensagem de aniversário eles me trazem. Não preciso perder meu precioso tempo mais pensando em algo criativo, afinal são cerca de uns 300 parabéns que devemos desejar por ano, né? É muita coisa. Haja criatividade! Ligar para dar parabéns? Hahahah, custa caro, leva tempo e faz com que tenhamos que improvisar assuntos com pessoas que não falamos há meses. Que preguiça! Te amo, Facebook!

E o Facebook Live? Aquilo é demais! Uma estatueta do Oscar pra quem inventou isso! Eu não sou artista. Sou um Zé Ruela na vida, mas ali ganho meu minuto de fama. As pessoas me assistem ao vivo e a cores. É demais! Eu me sinto popular, pois escrevo e falo as mais desvairadas certezas e ainda recebo likes, as pessoas endossam as minhas bobagens. E quando estou entediado? Meus problemas acabaram. Fico ali passando o dedo na tela na timeline do Facebook e assisto tudo sobre todos. As opiniões, as brigas, as polêmicas, a vida dos outros. Coisas ruins não precisam ser mostradas, nem aqui na vida real, muito menos ali numa tela de celular. Dou check-in só em lugares legais e isso joga a meu favor. Check-in no Ráscal? Claro! No Spoleto? Nãoooo! Em Congonhas? Óbvio! Na rodoviária, nem ferrando!

Google? Ah, o Google! A melhor invenção da história da humanidade. Ele me dá de graça email, agenda, buscador, mapas, me tira do trânsito, me lembra de tudo. Até mesmo um lembrete para ler meus lembretes eu coloquei outro dia. E claro que alertas para beber água de hora em hora são vitais também. Bem, lembro-me das aulas de biologia do segundo colegial: se dizia que quando se usa cada vez menos alguma coisa é provável que essa coisa se atrofie com o passar dos tempos. O que acontecerá com a nossa memória daqui 200 anos? Eu sei lá. As próximas gerações que se virem. Não é problema meu.

E o Instagram? Minha rede social favorita. Eu queria morar dentro do Instagram. Tudo é lindo, tudo é belo, tudo brilha, tudo é #gratidão. Ele transforma nossas vidas em incríveis narrativas. É só passar o polegar pela timeline das pessoas que temos uma extrema clareza sobre quem ela é, ou sobre quem ela não é, certo? O fato é: rede social é algo muito bom! E o LinkedIn, então? O lugar onde todo mundo é CEO de alguma coisa. Todos os depoimentos são legais, todos endossam todos, o maior “ensaboa o meu que eu ensaboo o seu” do mundo, e segue a vida. A internet aceita tudo, mas o LinkedIn só aceita coisas que jogam a seu favor. É cada CV mais incrível que o outro. Tudo muito é TOP! Todo mundo ali já coordenou projetos globais em multinacionais. Uma mentirinha aqui ou ali não pega mal, ninguém checa, ninguém confere, dá trabalho.

Viva as redes sociais! Não! Pera! Será que é tão legal assim longe da convivência humana?

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