Nova sociedade: novos valores, compromissos e problemas

Isto é muito mais que uma mudança social. É uma mudança na condição humana. O que ela significa, quais são os valores, os compromissos e os problemas da nova sociedade ainda não é sabido. O que se sabe é que serão muito diferentes

A ascensão da classe que sucedeu os trabalhadores industriais não é uma oportunidade para eles, mas um desafio. O novo grupo dominante é dos trabalhadores do conhecimento. O termo era desconhecido há sessenta anos. Peter F. Drucker diz tê-lo criado no livro Landmarks of Tomorrow, de mil novecentos e cinquenta e nove. No final do século vinte, os trabalhadores do conhecimento representariam, na previsão de Drucker, um terço ou mais da força de trabalho nos Estados Unidos – tanto quanto os trabalhadores em fabricação jamais representaram, exceto em tempo de guerra. A maioria deles seria remunerada no mínimo tão bem quanto ou melhor que os trabalhadores em fabricação. E os novos empregos oferecem oportunidades muito maiores.


Porém – e este é um grande porém - , a maioria dos novos empregos requer qualificações que o trabalhador industrial não possui e está mal equipado para adquirir. Eles exigem muita educação forma e a capacidade de aplicar conhecimentso teóricos e analíticos. Eles demandam uma rentabilidade e abordagem diferentes ao trabalho e acima de tudo, um hábito de aprendizado contínuo. Assim, trabalhadores industriais demitidos não podem passar simplesmente para o trabalho do conhecimento da mesma maneira pela qual os agricultores e servidores domésticos passaram para o trabalho industrial. Na melhor das hipóteses, eles precisam mudar suas atitudes, crenças e valores básicos.


Nas últimas décadas do século vinte, a força de trabalho industrial encolheu mais e mais depressa nos Estados Unidos do que em qualquer outro país desenvolvido, enquanto a produção industrial cresceu mais depressa do que em qualquer outro país desenvolvido, com exceção do Japão.


Essa mudança agravou o mais antigo e menos tratável problema da América: a posição dos negros. Nos cinquenta anos seguintes à Segunda guerra mundial, a posição econômica dos afro-americanos na América melhorou mais rápido que aquela de qualquer outro grupo na história dos país – ou de qualquer país. Três quintos dos negros americanos alcançaram rendas da classe média. Desde a guerra, cada vez mais negros americanos alcançaram rendas da classe média; ants da Segunda Guerra Mundial, o número era um vinte avos ou a vigésima parte ou cinco por cento. Mas a metade desse grupo alcançou rendas de classe média, não empregos de classe média. Desde a guerra, cada vez mais negros foram ser trabalhadores sindicalizados da indústria de produção em massa, isto é, conseguiram empregos que pagavam salários das classes média e média alta e não exigiam formação escolar nem aptidões. Entretanto, esses são precisamente os empregos que estão desaparecendo mais depressa. O que é espantoso não é o fato de tantos negros não terem ido à escola, mas sim de tantos terem feito isso. Na américa pós-guerra, não era economicamente racional para um jovem negro permanecer na escola e aprender; era deixar a escola o mais cedo possível e obter um dos muitos empregos na produção em massa. Em consequência disso, a queda do trabalhador industrial atingiu os negros americanos de forma desporporcionalmente dura em termos quantitativos, mas mais ainda em termos qualitativos. Ela atingiu aquele que era o modelo mais forte na comunidade negra: o operário bem remunerado com segurança de emprego, seguro saúde e uma aposentadoria garantida – embora não possuísse aptidões nem muita formação escolar.
Mas os negros são uma minoria da população e da força de trabalho nos Estados Unidos. Para a maioria – brancos, mas também latinos e asiáticos - , a queda do trabalhador indistrial causou perturbações surpreendentes em comunidades que no passado eram totalmente dependentes de fábricas de produção em massa que foram fechadas ou cortaram drasticamente o número de empregados (por exemplo, as cidades do aço no oeste da Pensilvânia e no leste de Ohio, ou cidades automotivas como Detroit e Flint, em Michigan), as taxas de desemprego para adultos não-negros caíram, dentro de poucos anos, para níveis pouco acima da média dos Estados Unidos, ou seja, pouco superiores àquele de pleno emprego. Mesmo nessas comunidades não houve radicalização dos operários.


A única explicação é que para a comunidade não-negra o fato não foi uma surpresa, por mais ameaçador e doloroso que possa ter sido para os trabalhadores e suas famílias. Psicologicamente – mas em termos de valores e não de emoções - , os trabalhadores industriais americanos deviam estar preparados para aceitar como certa e adequada a passagem para empregos que exigem educação formal e pagam pelo conhecimento ao invés do trabalho manual, qualificado ou não.


Nos Estados Unidos, a mudança estava praticamente terminada por volta do ano mil e novecentos e noventa. Até o início do século vinte e um, ela havia ocorrido somente nesse país. Nos outros países desenvolvidos – no oeste enorte da Europa e no Japão – ela está apenas começando. Mas é certo que daqui em diante ela prossiga rapidamente nesses países, talvez mais depressa que nos Estados Unidos. A queda do trabalhador industrial nos países desenvolvidos também terá grande impacto nos países subdesenvolvidos, que não mais poderão basear seu desenvolvimento na mão de obra barata.


Uma crença generalizada, em especial por parte de líderes sindicais, é que a queda do trabalhador industrial nos países desenvolvidos deveu-se em grande parte o totalmente, à passagem da produção para o exterior, para países com abundância de mão de obra barata. Mas isso não é verdade.


Havia alguma verdade há meio século. Japão, Taiwan e, mais tarde, a Coreia do Sul (como está explicado no livro A sociedade Pós-Capitalista (do ano de mil novecentos e noventa e três) de autoria de Peter F. Drucker, conseguiram sua vantagem inicial no mercado mundial combinando, quase da noite para o dia, a invenção americana do treinamento para plena produtividade com custos salariais de um país pré-industrial. Mas esta técnica deixou de funcionar a partir da década de setenta.


Nos anos noventa, somente uma porcentagem insignificante dos bens manufaturados importados pelos Estados Unidos é produzida no exteriro devido aos baixos custos de mão de obra. Enquanto o total de importações naquele ano representou cerca de doze por cento da renda pessoal bruta americana, as importações de países com custos salariais significativamente inferiores representaram menos de três por cento – e somente a metade destas era constituída por produtos manufaturados. Portanto, praticamente nada do declínio dos empregos americanos em manufatura – de trainda a trinta e cinco por cento para entre quinze e dezoito por cento da força de trabalho – pode ser atribuído à passagem de trabalho para países com baixos salários. A principal concorrência para a indústria manufatureira americana – por exemplo, em automóveis, aço e máquinas operatrizes – veio de países como Japão e Alemanha, onde os salários são iguais ou maiores àqueles dos Estados Unidos. Atualmente, a vantagem comparativa que conta está na aplicação do conhecimento – por exemplo, no gerenciamento da qualidade total do Japão, em processos de fabricação enxuta, entrega just-in-time e custeio baseado no preço, ou no atendimento ao cliente oferecido pelas empresas de engenharia de porte médio alemãs ou suícas. Isto significa que os países em desenvolvimento não podem mais esperar firmar seu desenvolvimento em baixos salários. Também eles têm de aprender a baseá-lo na aplicação do conhecimento e nos trabalhadores do conhecimento, não é tradicional. Ela é a primeira sociedade na qual pessoas comuns – e isto quer dizer a maioria – não ganham o pão de cada dia com o suor do seu rosto. É a primeira sociedade na qual o trabalho honesto não significa mãos calejadas. Também é a primeira sociedade na qual nem todos fazem o mesmo trabalho, como era o caso quando a grande maioria era constituída por agricultores ou, como parecia provável há apenas cinquenta ou sessenta anos, todos iriam ser operadores de máquinas.


Isto é muito mais que uma mudança social. É uma mudança na condição humana. O que ela significa, quais são os valores, os compromissos e os problemas da nova sociedade ainda não é sabido. O que se sabe é que serão muito diferentes. Outras informações sobre o tema podem ser obtidas no livro Administrando em tempos de grandes mundaças de autoria de Peter F. Drucker.

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