Um... ou mais pontos fora da curva

Aplicativos podem influir na mobilidade urbana? Por enquanto isso não passa de possibilidade e muito marketing. Lembra daquele produto que parecia remédio mas não era? Há outros idênticos no mercado

Recentemente representei o vereador Adilson Amadeu em um evento da FIESP chamado RED – Riscos à Economia Digital – Mobilidade Urbana.  Confesso que a ideia era ser apenas uma observadora do debate, mas ele próprio havia me autorizado a me manifestar se houvesse oportunidade.

O vereador Adilson Amadeu é autor do projeto de lei 349/2014 que restringe o transporte individual de passageiros aos táxis (como, aliás, manda a lei vigente), deixando claro que o uso de aplicativos não isenta os prestadores de serviço de respeitar as regras do setor. Ou seja, ainda que o usuário faça o pedido de um meio de transporte por aplicativo, esse meio precisa estar dentro da lei – no caso ele terá de usar táxis. Essa exigência tem criado inúmeros conflitos e debates, a maioria deles sem a isenção e a profundidade que a questão merece.

Em primeiro lugar é bom que se diga: o vereador não é contra aplicativos, tecnologia, nada disso. Ele é contra a politica agressiva da empresa que se instala onde quer, em completo desrespeito a lei vigente, impõe suas próprias regras e faz uso (aí sim de forma muito competente) do seu peso econômico e uma bem planejada ação de marketing.

No meio de tanto disse me disse, algumas informações básicas acabaram sendo omitidas por falta de informação, interesses e até má fé.  Antes, convido você a voltar ao período anterior à (fatídica) Copa do Mundo e ler o que era publicado sobre táxis, incluindo aplicativos que até então trabalhavam exclusivamente com carros regulares (http://vejasp.abril.com.br/materia/teste-aplicativos-de-taxi/). No período pós-copa, o Observatório do Turismo demonstrou que os turistas aprovaram o serviço de táxi. Para alguns, o serviço brasileiro era até melhor que em seus próprios países, mas claro que tudo pode ser melhorado sempre. Nada é perfeito.

A ideia de que os taxistas são avessos á tecnologia também não condiz com a realidade. Quando a Uber chegou, a 99taxis já tinha 70 mil taxistas cadastrados onde operava, 28 mil em São Paulo. Hoje, o número de cadastrados é de 120 mil, 32 mil em São Paulo. Nada mal para uma frota que não chega a 35 mil carros. Detalhe: os apps de táxis também coletam a avaliação do usuário e a nota está entre boa e ótima, apesar do que dizem.  

Passados 12 meses da Copa, com a entrada da Uber na concorrência, mais que criticados os taxistas passaram a enfrentar uma campanha de desmoralização sem precedentes.  Não foi coincidência. A empresa vem usando as redes sociais para se favorecer, incentivando usuários a publicar em seus perfis  suas avaliações (para não falar de possíveis perfis falsos).  O cliente nem percebe que está sendo usado, afinal hoje não basta testar e conhecer é preciso se mostrar antenado, conectado. Além disso, além da bala e da água, a Uber oferece um suposto status. Chegar a um local de táxi é uma coisa, com um suposto motorista particular é outra. Por outro lado, problemas naturais para uma frota autônoma acabam amplificados tornando-se maiores do que são. Estatísticas comprovam isso.

Nesse cenário, não há condição para  debates isentos. Prova disso é que todos os que se propõem a tratar de mobilidade nos últimos tempos acabam convergindo para um único tema: UBER. 

A estratégia da empresa também muda ao sabor do vento. Primeiro ela se posicionou como empresa de tecnologia que aproximava motoristas e passageiros promovendo “carona remunerada”.  Culturalmente, caronas não proporcionam ganho financeiro. No máximo divide-se a gasolina, o pedágio. Depois, passou a defender o “compartilhamento” como forma de reduzir a frota circulante nas cidades. O compartilhamento pode até produzir esse efeito, mas não é o que ela faz. Compartilhamento de viagens é carona não paga. Compartilhamento de veículo é car sharing, não oferece motorista. Na prática, ela fomentou o serviço clandestino de transportes, colocando mais carros na rua. A contribuição da Uber para a mobilidade é zero. O negócio dela é transporte e, se o que ela faz é compartilhamento, os táxis fazem isso há  mais tempo. O impacto dos aplicativos sobre a mobilidade ainda são incertos. Além disso, é preciso lembrar que os carros autônomos já  começam a rodar experimentalmente e prometem ser a nova revolução nesse mercado. Quando isso acontecer taxistas e parceiros Uber terão, juntos, um grande desafio pela frente.  

As teses de segundo rendimento e uso de veículos ociosos, também exploradas pela empresa, não cabem. Afinal, carro ocioso fica na garagem e não circulando pelas ruas. A última foi o “direito de escolha”.  A sociedade tem o direito de escolha, mas que camada da sociedade está mesmo preocupada com esse assunto, lembrando que vivemos uma crise  e, só no mes  de julho, mais de 150 mil pessoas foram demitidas? Minoria? Maioria?  Imagine milhares de pessoas apostando no transporte para evitar o desemprego. O que aconteceria?  Além disso, se perguntarmos a qualquer pessoa se ela prefere andar na primeira classe ou na econômica de um avião, ela escolherá a primeira opção, mas pergunto: todas terão acesso a 1ª classe?  O “direito de escolha” é garantido por educação, emprego e salários dignos. O resto é marketing.   

Nesse cenário, a questão parece dividida entre mocinhos e vilões. Na prática há inúmeras questões a serem discutidas como os reais efeitos sobre a mobilidade (e há propostas mais eficientes, acredite), seguridade social, tributação, direitos trabalhistas, segurança das informações armazenadas, direitos dos taxistas, qualidade do serviço, licenciamento (será que o descontrole da frota não traria mais problemas?)

Numa avaliação superficial o projeto do vereador Adilson Amadeu parece um ponto fora da curva, mas existem outros que chamam atenção. Como uma empresa que desrespeita leis, gera conflitos onde se instala, consegue crescer 300% num ano e continuar atuando sem que ninguém a incomode ou a questione? Será mesmo que nessa história só há um ponto fora da curva?

Impedir a Uber de continuar atuando é só uma maneira de deter a voracidade de uma empresa que não tem a ética e a responsabilidade social como parte de sua filosofia.  Ao apoiá-la podemos estar contribuindo para a criação de um novo monopólio, danoso para o usuário e para o trabalhador. Quanto à regulamentação, não há nenhuma garantia de que ela respeitará qualquer ordenamento. O desrespeito faz parte do DNA da empresa.

Como dizia Joseph Goebbels, chefe da propaganda nazista, “uma mentira repetida muitas vezes, torna-se verdade”. A internet tem um lado B que proporciona a aplicação dessa regra com excelentes resultados. Cuidado.

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