
As «estrelas» da revolução tecnológica e de serviços estão a dar prejuízo aos investidores americanos.
Os dividendos anuais e a valorização das suas acções em empresas cotadas com mais de 500 milhões de dólares de rendimentos sofreram uma quebra brutal desde a recessão de 2001 até meados do ano passado.
O estudo realizado por Jean-Pierre Garnier, director-geral da GlaxoSmithKlein (GSK), e publicado na revista Harvard Business Review (edição de Maio de 2008), aponta para um terramoto no retorno anual médio dos accionistas nos sectores que foram as «estrelas» da revolução tecnológica e dos serviços entre 1985 e 2000, até ao «crash» do NASDAQ.
As novas galinhas de ovos de ouro
A farmacêutica – o sector em que trabalha Garnier – teve a quebra mais acentuada, passando da liderança até ao ano 2000, com 20,3% de retorno médio anual, para valores negativos entre 2001 e 2007. Trajectória semelhante se observa no sector das tecnologias de informação que passou de 17,4% para valor negativo, superior ao da farmacêutica. Outra queda acentuada, ainda que não atingindo, valores negativos entre 2001 e 2007, foi a das telecomunicações.
Como se pode observar no gráfico publocado na Harvard Business Review, quase todos os sectores caíram na sua «performance» de criação de valor para os accionistas – à excepção das novas «galinhas de ovos de ouro» ligadas ao disparo dos preços de algumas «commodities», a energia e os materiais.
E essa tendência continuou certamente ao longo do segundo semestre de 2007 e do primeiro quadrimestre deste ano, em virtude da continuação da quebra bolsista, segundo o analista Peter Cohan. «O sector financeiro deve ter tido, agora, uma evolução similar à que o estudo de Garnier refere para a farmacêutica e as TI, entrando em terreno negativo para os accionistas, se tivermos em conta o desenvolvimento da crise do «subprime» desde Agosto do ano passado», refere.
A receita da Glaxo
Jean-Pierre Garnier refere, por seu lado, que a doença principal no sector da farmacêutica que tem levado à sua baixa «performance» na criação de valor para os accionistas é o declínio da produtividade da Investigação & Desenvolvimento. Ele não acredita que a solução seja ir ao cesto das empresas de biotecnologia cada vez mais. “Há vantagens na dimensão”, diz. Por isso, advoga “a devolução de poder aos cientistas”.
A solução é a reestruturação dos departamentos “dinossáuricos” de I&D das farmacêuticas no sentido da criação de pequenos centros “internos” de cientistas de alto nível e multidisciplinares totalmente focalizados numa família de doenças correlacionadas. A GSK tem hoje 12, gerido cada um por um director-geral e com poucos patamares de hierarquia interna. Defende, também, uma política pró-activa de alianças no exterior para a criação de centros académicos de excelência também focalizados “que não parem na fase da descoberta e que cheguem até à comprovação clínica do conceito”.
R: Que houve uma mudança radical na economia global entre aqueles dois períodos. Entre 1985 e 2000, as empresas que ofereciam mais valor para os accionistas eram as que dependiam, por excelência, da propriedade intelectual e da economia do conhecimento. A partir de 2001, passaram a ser as ligadas a «commodities».
P: Essa mudança coloca em risco a economia do conhecimento?
R: A conclusão que pode tirar-se é que os sectores líderes anteriores cortaram na inovação – criando uma década perdida para as TI e um problema bicudo na farmacêutica. Esta última defronta-se com problemas em diferentes partes da sua cadeia de valor e com diferentes tipos de concorrentes.
P: Foi uma década perdida para as TI, em que sentido?
R: Houve alguma inovação – veja-se o caso do Google. Mas, no geral, o que assistimos foi a uma tentativa de “tirar da vaca” o máximo que ela podia dar, com o menor custo possível. A prioridade não foi inovar.