Afinal, quais são os segredos de sucesso do Waze?

Imagina consultar um dispositivo e descobrir rotas para se livrar (em partes) daquele imenso trânsito de sua cidade? Um grupo de amigos criou um aplicativo assim, que vem conquistando milhares de motoristas em todo o mundo. Conversamos com o Uri Levine, presidente do Waze, que revelou os motivos para tanto sucesso

Por Agatha Justino,
Reprodução
Entrevista foi publicada na edição nº 20 da revista Administradores

Criar um produto inovador que possa facilitar a vida de um grande número de pessoas; saber onde está concentrado o trânsito e encontrar uma alternativa para não precisar encará-lo; criar um sistema de interação entre motoristas para que possam compartilhar informações sobre o tráfego em tempo real.  Essas são apenas algumas das propostas de um aplicativo que tem se espalhado entre os usuários de smartphones pelo mundo, o Waze.  

Desde que foi lançado nos EUA, em 2009, o Waze angariou mais de 20 milhões de usuários no mundo (1,4 milhão no Brasil) e foi eleito o “aplicativo do ano para iPhone” pela Apple, sendo destacado pela empresa como uma das alternativas ao fracassado Apple Maps. Entretanto, o sucesso do Waze é cercado por polêmicas, já que ele também é utilizado por motoristas que comunicam a outros onde estariam montadas as blitz da Lei Seca. A Administradores conversou com o israelense Uri Levine, um dos cofundadores e presidente do Waze, para saber todos os detalhes deste negócio.  

Como surgiu a ideia de criar uma rede social voltada essencialmente para motoristas, como o Waze?

Na verdade tudo começou com a ajuda de Ehud Shabtai, engenheiro de software. Ele estava brincando com um aparelho de navegação e queria adicionar mais conteúdos. Foi então que percebeu que para fazer isso ele precisaria de um mapa. Esse mapa deveria ser digital, para poder ser editado e expandido. Shabtai também percebeu que se ele estava planejando desenvolver algo voltado para o uso da comunidade, então a mesma também deveria estar habilitada para mapear a área. Foi assim que surgiu a primeira versão do aplicativo, que se chamava Free Map. 

O Free Map era capaz de fazer navegação, mas não disponibilizava as informações em tempo real e estava sempre colhendo informações dos usuários para construir o mapa.  Em 2007, nós nos juntamos - Eu, Ehub e Amir Shinar - ao aplicativo e raciocinamos o seguinte: muitas vezes, quando viajamos e queremos voltar para casa, existem várias opções de estradas disponíveis e nós sempre queremos saber qual se encontra menos engarrafada. E o fato de que existem outros motoristas que saíram antes de você e estão dirigindo na sua frente é a maneira mais eficaz de descobrir qual o melhor caminho. Então nós decidimos converter essa ideia em um aplicativo para smartphones e assim saber onde estão os engarrafamentos, em tempo real. 

Qual a principal diferença entre o Waze e os outros mapas, como o Google Maps ou o GPS comum?

Existem alguns fatores que podem explicar a diferença. A primeira é o poder do crowdsourcing: toda informação disponibilizada pelo Waze foi gerada pelos usuários; foi criada pelos motoristas e para os motoristas, é como a Wikipedia deles. Doze anos atrás, não existia Wikipedia, mas hoje, quem não existe é a enciclopédia Brittanica. 

O segundo fator é o que chamamos de “mapa ao vivo”, ou seja, uma plataforma que sofre transformações todos os dias. Se você viaja para um novo lugar, ele será adicionado no outro dia ao aplicativo e estará disponível para todo mundo.   A comunidade agora está habilitada a se amparar. As pessoas que estão sofrendo paradas no trânsito podem se ajudar. A principal diferença entre o que nós estamos fazendo e o que os outros estão fazendo não está na navegação, e sim na interação entre quem está dirigindo. 

Aqui no Brasil algumas autoridades afirmam que as redes sociais e aplicativos como o Waze estão ajudando pessoas que bebem e dirigem a fugir das blitz organizadas pela polícia. O que você diria sobre isso?

Não apoio quem bebe e decide pegar no volante, mas não acredito que uma pessoa bêbada consiga utilizar o Waze. Na realidade, não sei de pessoas que utilizam o aplicativo com essa finalidade. Mas tenho conhecimento de motoristas que utilizam o Waze para fugir dos radares de velocidade. Mas esse comportamento está dentro dos nossos objetivos: que os motoristas saibam onde estão os radares e diminuam a velocidade. Queremos que as pessoas dirijam devagar e com segurança.

Ano passado, Tim Cook sugeriu o Waze como um bom aplicativo para quem precisa de mapas. E depois, algumas publicações especularam sobre uma parceria entre a Apple e o Waze. Você acredita que essa parceria possa acontecer?

Nós do Waze não gostamos de comentar acerca de rumores, mas acreditamos sim em parcerias. Inclusive, nós temos um grande parceiro no Brasil, a Multispectral, com quem trocamos muitas informações. 

No Brasil, o Waze atingiu a marca de mais um milhão de usuários em um curto período. O que você acha que pode mudar no trânsito com a ajuda do crowdsourcing?

Eu acredito que temos hoje um milhão e meio de usuários brasileiros participando do Waze. Nós estamos crescendo aproximadamente 2.500 usuários por mês. E, no geral, estimulamos a interação entre os motoristas, para que eles comecem a se ajudar, fornecendo as informações necessárias para que os outros escolham o melhor caminho sem se preocupar com o trânsito. Em termos práticos, nós economizamos 15% do tempo do motorista. Uma pessoa que passa 100 horas por mês na estrada tem a possibilidade de economizar 15 horas com o uso do Waze.  É um tempo significante, não é simplesmente evitar polícia, é conhecer o que está acontecendo nas ruas, quanto tempo é necessário para se chegar a um determinado lugar. 

Acredito que os motoristas no Brasil percebem e valorizam este fator. Há um mercado enorme no país, veja a quantidade de veículos em São Paulo. É interessante perceber que sempre que vou a uma metrópole diferente, os cidadãos do lugar acreditam que o seu trânsito é o mais engarrafado do mundo.

E qual é a cidade que você acredita ter os maiores engarrafamentos do mundo?

Na realidade, o que nós medimos é a velocidade média na hora do rush. Esse número reflete o quão devagar ou rápido as pessoas andam.  Em São Paulo, temos 20 km por hora; em Jacarta, na Indonésia temos 17 km; Já em Lagos, na África, são 14 km por hora.

Você poderia explicar como funciona o sistema de mapeamento e medição de tráfego?

Essencialmente, quando você dirige com o aplicativo, nós coletamos dados de rastreamento do GPS que está no smartphone. Com base nisso, nós podemos dizer exatamente onde você está e a velocidade com que está dirigindo. Dessa maneira, calculamos a média de cada motorista e encontramos uma média para cada pedaço da rodovia. É assim que obtemos a velocidade e o tempo médio do tráfego no sistema, utilizando os dados de rastreamento do GPS que está no seu aparelho. 

Nós conectamos todos os pontos - o sistema faz isso automaticamente. Além disso, nós damos oportunidade para que a comunidade possa participar desse processo. Com as ferramentas de edição do mapa, é possível adicionar informações como os nomes de ruas. Nós demos aos motoristas dois mecanismos: o automático e o manual, para que eles possam escrever aquilo que acham necessário. É um processo 80% automático e 20% manual, com a ajuda da população. 


Curta o Administradores.com no Facebook
Acompanhe o Administradores no Twitter
Receba Grátis a Newsletter do Administradores


Fique informado

Receba gratuitamente notícias sobre Administração