O que é preciso para ser um empreendedor?

"O que se nota em empreendedores de sucesso é um conjunto de fatores comuns", afirma escritor e especialista José Dornelas

Eber Freitas, Administradores.com,
Divulgação
EMPREENDEDORES PÚBLICOS? | "Há pessoas com comportamento empreendedor em todos os setores da economia"

Empreendedorismo é um conceito excessivamente abordado nos últimos anos. Entretanto, geralmente de forma superficial ou até mesmo oportunista. Em meio à moda, poucas vezes são propostos métodos, teorias ou ferramentas consistentes que forneçam ao empresário um meio de garantir a sobrevivência de seu negócio. A mortalidade de empresas no Brasil com menos de dois anos de atividade ainda é de 24%, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) -- baixa em relação a outros países, mas que muitas vezes ocorrem por falta de competência ou planejamento.

José Dornelas, autor do livro "Empreendedorismo para visionários", tenta suprir essa lacuna, sem dispensar questões cotidianas do empreendedor. Além disso, ele categoriza vários tipos de empreendedor, inclusive em setores antes desprezados -- como o serviço público. "Historicamente, rotulou-se de empreendedor aquele que cria um negócio próprio. Porém, o comportamento empreendedor pode e deve ser praticado por todo aquele que queira fazer a diferença e gerar valor para a sociedade", afirma, em entrevista ao Administradores.com. Confira a entrevista completa abaixo.

Nos últimos anos, têm sido publicados dezenas de livros sobre empreendedorismo e startups. Qual a inovação trazida por "Empreendedorismo para visionários"?


Empreendedorismo para visionários apresenta uma abordagem contemporânea do empreendedorismo do próprio negocio, valendo-se do conhecimento acadêmico gerado ao longo dos últimos anos sobre a prática do processo empreendedor, assim como da sistematização de experiências vividas pelos principais protagonistas quando o assunto é o empreendedorismo: os empreendedores inovadores, que buscam de maneira incessante realizar seus sonhos.

O livro é composto de capítulos estruturados em uma sequência lógica, mas que podem ser lidos separadamente, pois cada tema abordado não necessariamente depende da leitura dos capítulos anteriores. Inicia-se com a apresentação de uma visão acerca do que é o empreendedorismo nos dias atuais, comparando a experiência empreendedora contemporânea com o que se apregoava sobre o tema no passado. Assuntos relevantes são apresentados de maneira objetiva, tais como a importância da inovação para o sucesso de iniciativas empreendedoras; a globalização e seu impacto no empreendedorismo local e regional; a sustentabilidade como premissa para os novos negócios; a crescente participação das mulheres na criação e gestão de novas empresas; as oportunidades e desafios advindos do rápido desenvolvimento tecnológico atual; e o dilema que permeia a vida de muitos empreendedores em potencial: a tomada de decisão de empreender agora ou no futuro.

Cabe ressaltar que neste livro buscou-se ainda uma abordagem inovadora para estimular a interatividade e a discussão de dilemas comumente vivenciados pelos leitores, sejam eles estudantes, empreendedores em potencial ou empreendedores já estabelecidos. Questões e exercícios foram propostos não só ao final dos capítulos, mas ao longo da apresentação dos conceitos chave, de maneira a proporcionar uma troca rica de experiências entre os leitores no site do autor.

No livro, você destaca as qualidades presentes nos empreendedores. No entanto, "Visão" e "Paixão" aparecem muito à frente de qualidades importantes como "Lealdade" e "Dedicação à qualidade". Esse comportamento pode estimular um empreendedorismo de fachada, sem consistência? Como o empreendedor pode evitar isso?


Quando de destacam as qualidades ou características empreendedoras não há como ranquear o que é mais ou menos importante. O que se nota em empreendedores de sucesso é um conjunto de fatores comuns, já que o todo é mais importante que apenas alguns traços que possam indicar algo de empreendedor na pessoa. Por isso, o empreendedor deve sempre pensar em seu Plano Empreendedor Pessoal, um instrumento que apresentamos no livro e que auxilia todo empreendedor no desenvolvimento de suas habilidades empreendedoras.

Entre os tipos de empreendedor você citou um que eu acho particularmente interessante: o empreendedor público. Empregados do setor público sempre carregaram a pecha de "conformados" ou coisas piores. Você acha que isso mudou nos últimos anos? Ou os empreendedores públicos sempre estiveram lá, mas não eram muito vistos?


Há pessoas com comportamento empreendedor em todos os setores da economia. Historicamente, rotulou-se de empreendedor aquele que cria um negócio próprio. De fato, os exemplos mais difundidos de empreendedorismo relacionam-se ao dono da própria empresa. Porém, o comportamento empreendedor pode e deve ser praticado por todo aquele que queira fazer a diferença e gerar valor para a sociedade. E o empreendedor público não só existe, como é um agente de extrema importância para que a máquina pública funcione. Eu particularmente conheço vários empreendedores públicos que são pessoas admiráveis e que têm consciência do relevante papel que prestam à sociedade.

Você também destaca outros tipos de empreendedores (cooperado, social) que têm como objetivo o "lucro social", digamos assim. Por que se tornou necessária essa dilatação do conceito de empreendedorismo? Esses empreendedores são tão necessários quanto os "Steve Jobs" e "Sergey Brins" da vida?

Como mencionado anteriormente, o comportamento empreendedor pode e deve ser praticado em todos os setores da sociedade. Não basta apenas existirem os empreendedores do próprio negócio, caso contrário o equilíbrio deixará de existir. Lembrando que o lema do empreendedor contemporâneo, como destaco no livro, deve ser o de gerar valor para a sociedade e não só para si.

Nos últimos anos surgiu a figura do empreendedor como o cara desenrolado, que realiza grandes projetos e pensa alto. Todos aqueles que não têm essas características são classificados como os fracassados. Fiquei mais confortável quando vi no livro que qualquer pessoa com qualquer temperamento pode ser um empreendedor em sua realidade, sem que isso signifique necessariamente o topo do mundo. Você acha que todas as pessoas deveriam ser empreendedoras nesse sentido?

O Brasil se destaca como um país com um contingente significativo de sua população economicamente ativa envolvida com o próprio negócio. Mas a maioria dos brasileiros cria negócios simples, pouco inovadores, e não deixam de ser empreendedores por isso. Há espaço para todos os empreendedores e para todo tipo de empreendedor (não só os do próprio negócio). Porém, os países que mais se desenvolvem e, por consequência, permitem que sua população tenha mais qualidade de vida, são aqueles que têm a inovação como mantra na prática dos negócios. O Brasil precisa necessariamente seguir o mesmo caminho, caso contrário seremos um país empreendedor que não cria condições mínimas de qualidade de vida e oportunidade de desenvolvimento para sua população. Isso é tratado no livro quando se fala do empreendedorismo inovador e da necessidade de termos mais empreendedores que pensam grande, que queiram internacionalizar seus negócios, gerar mais empregos, faturar mais e, assim, pagar mais impostos e retribuir gerando mais valor à sociedade.

Tenho notado que empreendedores que criam serviços para melhorar de fato a vida das pessoas (como o Colab.re) têm mais destaque, são mais bem vistos e conquistam mais clientes do que aqueles que conseguem um aporte milionário de um fundo de capital de risco. Essa mudança cultural é recente no Brasil? Você considera importante?

Há espaço para todo tipo de empreendedor. O sistema capitalista ainda é o que move o mundo e todo negócio precisa de dinheiro (seu combustível) para se desenvolver. Os modelos de negócios mais recentes, que visam à cooperação e o envolvimento dos usuários no processo (os clientes ajudam no desenvolvimento do negócio) são extremamente bem vindos e refletem uma demanda da sociedade moderna, principalmente dos mais jovens. Mas ainda é cedo para dizer se essa tendência se tornará o principal mote dos negócios. Por enquanto, podem ser considerados modelos inovadores que têm feito a diferença em alguns setores. E isso reflete a natureza eclética e transformadora do empreendedorismo, como trato no livro Empreendedorismo, transformando ideias em negócios.

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