Jack DelaVega
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23 de junho de 2008

Liderança

Gerente Bizarro

Texto publicado originalmente no site Tribo do Mouse.
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Não se sabe ao certo o que originou o fenômeno, se uma tempestade magnética, uma rachadura no espaço/tempo, radiação gama ou a simples ingestão de um cachorro quente com salsicha transgênica. Mas o fato é que o gerente mudou, dando lugar a sua cópia Bizarra. Assim como a versão Bizarra do Super-Homem, que fala “Tchau” quando se apresenta e “Oi” quando vai embora, ele imediatamente começou a negar as ações do original. O time não notou a diferença de início, tudo começou com um simples:
- Bom dia.
- Ããhn, Bom dia.
Apesar de estranhar o bom dia, o funcionário respondeu. Bom Dia? Pensou. Essa é a primeira vez que recebo um bom dia em dois anos de trabalho.
Logo depois a coisa começou a complicar. O gerente resolveu aparecer em uma reunião de acompanhamento de projeto e perguntou o que podia fazer para ajudar o time.
- Ajudar?
Eles se olharam perplexos. Já estavam acostumados a dar graças a deus quando o chefe não atrapalhava. Ajudar, essa é nova. O mais destemido resolveu responder:
- Bom, estamos precisando de alguns quadros brancos, falei com o financeiro e eles disseram que não estamos autorizados a comprar. Será que você pode dar uma força nisso?
Quando os quadros brancos apareceram dois dias depois eles tivera a confirmação de que algo estava realmente errado. Mais tarde na mesma semana, chamou um funcionário para conversar.
- Hoje eu gostaria de discutir a tua carreira.
- Minha carreira? Eu fiz algo errado?
– O sujeito começou a suar frio.
- Muito pelo contrário, venho acompanhando os teus resultados nos últimos tempos e acho que está na hora de encaminharmos um processo de promoção.
O sujeito olhou para os lados procurando a câmera. Será que estou em uma “pegadinha”? Mas pelo jeito o chefe estava falando sério. Então o boato de que ele foi abduzido por extraterrestres é verdadeiro mesmo.
E assim foi, ele finalmente sentou ao lado das pessoas para entender o que elas faziam, ouviu, aceitou sugestões de melhoria, recebeu feedback sem retrucar a famosa frase “Concordo mas...”.
O gerente Bizarro continuou seu trabalho, que acabou mudando radicalmente o ambiente de trabalho. É verdade que levou tempo até esquecerem o original, mas com certeza ninguém sentiu saudades. Reza a lenda que ele começou a escrever um blog que até virou livro, sob-pseudônimo, mas isso já é outra história.
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09 de junho de 2008

Dia-a-dia

Aquele Cafezinho

Texto publicado originalmente no site Tribo do Mouse.

Todo dia minha rotina é praticamente a mesma. Levanto, um café rápido, preto, uma fatia de pão com margarina. Depois, são quarenta e cinco minutos de ônibus até o trabalho. No inverno é pior porque a maior parte do trajeto é feito enquanto ainda é escuro.
Bato o ponto um pouco antes das sete da manhã. Aí vou fazer o café, o que leva uns quinze minutos no máximo. Então gosto de ficar limpando a cozinha, vendo o pessoal começar a chegar. Além de limpar os banheiros, as mesas e a cozinha, sou responsável pelo cafezinho. E que gosto mais mesmo é de fazer o café.
O primeiro café da manhã é geralmente o melhor da máquina, mas pouca gente sabe disso. O pessoal aqui costuma chegar mais tarde. O seu DelaVega gosta de chegar cedo, geralmente ele me cumprimenta, não fala muito, e sempre elogia o café. Acho que ele é Gremista, mas não gosta de futebol.
De uns tempos para cá ficou mais fácil porque compraram uma máquina nova. Ela é grande e prateada. É um pouco mais complicada de operar, mas guarda mais café. Assim faço café menos vezes por dia agora.
Lá vem o seu Bolívar, com aquele andar engraçado. Ele não gosta de café. Não sei se as pessoas gostam dele aqui no escritório porque ele sempre almoça sozinho. Bom, aposto que ajudaria se ele tivesse um sorriso no rosto de vez enquanto, e se cumprimentasse os outros também.
As pessoas não se dão conta do quanto é importante o café para o escritório. Ou o quanto ele diz sobre o ambiente. Por volta das dez da manhã, quando o movimento é maior, a gente fica sabendo das novidades. Quem vai ser promovido, quem vai ser demitido, às vezes até quem está dormindo com quem. Eu não faço parte da maioria das conversas, afinal eu sei o meu lugar, mas fico ouvindo, prestando atenção. Por isso estou sempre bem informado. Se eu fosse dono da empresa iria reduzir o número de e-mails e aumentar a área do cafezinho, mandar colocar uma máquina de expresso, quem sabe que até aquelas que fazem cappuccino. Tornaria a hora do café obrigatória, assim todo mundo iria saber das coisas importantes que estão acontecendo.
Ontem a máquina estragou e quase tivemos um motim. Gente nervosa, gritando. Nunca vi coisa parecida, são todos uns viciados em cafeína. Nos dias mais complicados, quando a gente vê o pessoal correndo pra lá e pra cá, chego a fazer seis ou sete máquinas, quando as coisas estão tranqüilas não passa de quatro. Tem gente que vem pelo café, tem gente que vem pela conversa. Tem gente que toma café, e tem gente que não. Uns gostam com açúcar, sem açúcar, com adoçante, tem uns que botam água, tem gente até que mistura no chá, já pensou?
Lá vem o seu Zambol para outra reunião. Ele fica me encarando um pouco, com o olhar perdido. Parece que está preocupado com alguma coisa.
Baixo a cabeça e desvio o olhar, sei o meu lugar.
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27 de maio de 2008

O Sol como Testemunha

Texto publicado orginalmente no site Tribo do Mouse

Naquela manhã ensolarada de quinta feira os deuses decidiram testar os limites da Lei de Murphy sobre a FarmaTech. Tudo começou com a aplicação de um patch em um dos servidores de banco de dados. Mas o que deveria ser uma simples operação de rotina tornou-se um verdadeiro pesadelo para o Administrador de sistemas. Às 8:00 da manhã, quando os vendedores chegaram, nada funcionava. Ivan, o responsável pela área, começou a acionar o seu time quase que imediatamente.
Às 08h15min ele já havia feito contato com a maioria deles, todos, menos com Norton Pires, o seu DBA(Administrador de Banco de Dados). Ivan achou o fato estranho, uma vez que Pires era um dos que costumava chegar mais cedo, e decidiu deixar um recado na caixa posta de voz.
- Pires, aqui é o Ivan. Estamos com um problema no sistema em função do patch de ontem. Cara, me liga e vem pra cá o mais rápido que tu puder. Estamos completamente fora do ar.
Às 09h32min, uma hora meia de sistema parado, a equipe estava perdida. Já haviam tentando inúmeros recursos, mas nada que fizesse o sistema voltar a funcionar.
Precisavam do Pires, e Ivan tentou o celular mais uma vez.
- Pires, cara o que houve? Precisamos de ti aqui, o bicho tá pegando. Me liga assim que puder.
Ligou pra casa de Norton, mas a resposta da esposa só serviu para piorar ainda mais a situação.
- O Norton saiu daqui hoje cedo, lá pelas 07h30min. Ele ainda não apareceu no trabalho? Ah meu deus, será que aconteceu alguma coisa? Deve der acontecido, ele leva normalmente vinte minutos pra chegar aí. Minha Santa Mãezinha! O que será que houve com o Norton? Vou começar a ligar para a polícia e os hospitais.
Às 10hs foi a vez do colega mais chegado tentar.
- Ôo Nortão, Nortão tu tá ai? Atende rapaz! A coisa tá preta aqui, e vai sobrar pro teu lado se tu não aparecer. O Diretor já tá pedindo a tua cabeça pro Ivan.
O celular de Norton vibrou e tocou e tocou. Estava dentro da mochila, que estava dentro do porta-malas do carro. Nem que quisesse, nem que estivesse ao lado do carro ele não escutaria a "Primavera de Vivaldi" lhe avisando do problema na FarmaTech. Ele tinha outros assuntos mais sérios para resolver no momento. Problemas que tinham começado exatamente às 07h45min quando ouviu no rádio a notícia, minutos antes de chegar ao trabalho.
- A ondulação está quebrando do quadrante norte, em séries de dois a três metros. O vento soprando em direção ao mar com intensidade moderada. A formação é boa e a condição excelente para a prática do surf no litoral gaúcho. A temperatura da água é de vinte seis graus e a prancha indicada é uma seis zero.
O surfista gaúcho é seguramente um dos seres mais renegados da criação. As chances matemáticas de um mar desses acontecer no sul são de um para trinta e cinco mil, ou seja, uma vez a cada década. Dotado de uma cabeça analítica, Norton levou exatamente sete segundos para tomar a decisão mais impulsiva da sua vida. Uma quadra antes de chegar ao trabalho, virou a esquina e se dirigiu para praia. Lá, comprou bermuda e camiseta de lycra, e alugou a prancha.
Exatamente às 11h23min, quando o diretor lhe ligava para informar que se ele não aparecesse em vinte minutos estaria demitido, ele viu a ondulação se formando. E remou forte para a que, provavelmente, seria a melhor onda da sua vida. 

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Enviado por Jack DelaVega às 09:28
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19 de maio de 2008

Casualidades de Guerra

Post publicado originalmente no blog Tribo do Mouse.

A conta de celular do Thomas foi R$233,00 esse mês. Mas ele não está reclamando, está feliz na verdade. Essa é a primeira vez, em dois anos, que ele paga uma conta de celular. Antes era a empresa que pagava. O celular era da empresa, o notebook era da empresa, a alma dele pertencia à empresa, de domingo a domingo sem exceção. Enquanto limpa o balcão do bar que pertence a sua família a duas gerações ele revisa a lista de ligações. Inúmeras chamadas para a namorada, várias para mãe, e o resto para os amigos. R$233,00 de conversas agradáveis, isso não é nada. Ele ainda acompanha os sites de desenvolvimento de software, e ,às vezes, muito de vez em quando, sente saudade de virar à noite programando. Mas não conta pra ninguém.

O casamento da Cíntia acabou. Não se sabe se por culpa dela ou do marido. Do pouco que se viam, brigavam. Bom, é difícil continuar tendo coisas em comum quando a gente se encontra uma vez a cada dois meses. Fazer o que? A vida anda e a gente tem que ganhar dinheiro. Ela continua gostando muito do que faz, ainda é uma grande gerente de projeto, só está um pouco mais triste.

Roberto quer ser pai. Quer dizer, pelo menos ele acha que quer. Mas primeiro vem o emprego. Chegar a diretor antes de completar 35 anos é um belo objetivo de vida, e, puxa, ele já está quase lá. Os últimos cinco anos tem sido fantásticos, difíceis, mas fantásticos. Mais dois ou três anos e ele consegue, foi o que lhe disseram. A Fernanda pode esperar mais um pouco, ela já agüentou tanto afinal. Mais dois anos. Não é hora de comprometer a carreira com um filho. Perder o foco agora pode ser fatal.

No seu primeiro ano como gerente Jorge aprendeu muita coisa. Aprendeu que gerente tem mesmo que deixar o coração na recepção. As pessoas simplesmente não respeitam quem costuma sorrir demais. Hoje, por exemplo, ele barrou a transferência do seu melhor funcionário para o outro setor. Claro que o sujeito ficou chateado. Foi para o bem do cara e ele não entende. Se no novo time ele seria promovido imediatamente, com Jorge ele tem uma carreira. Mais um ano, um ano e meio e aí sim, uma promoção consistente, sem risco. Fazendo a barba na frente do espelho Jorge repete para si mesmo esse argumento, mas não tem coragem de se olhar nos olhos.

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Jack DelaVega

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06 de maio de 2008

Vida no Escritório

Chá de Fraldas

Post publicado originalmente no site Tribo do Mouse

“Seja Bem vinda Natália!”
É o que diz na decoração da sala. Uma sala de reunião comum, agora irreconhecível por causa dos balões, faixas e fitas, isso sem falar o bolo no centro da mesa. Salgadinhos e refrigerante completam o Buffet.
Sinto-me desconfortável com a situação, a princípio não iria participar, fui convidado muito mais por cortesia do que qualquer outra coisa.
A pilha de presentes, a maioria de fraldas, ocupa um belo espaço da sala também. Daqui a pouco começam a abrir os pacotes.
Eu ainda não conheço o futuro pai pessoalmente, bem como a maioria do time que está na sala. Ele começou com a gente faz três meses, trabalha para um time que assumi semana passada. Sou apresentado para ele na comemoração. Apertamos as mãos e falamos amenidades. Ele tem 32 anos e esse é o seu segundo filho. Ele festeja a vinda de uma menina para completar o casal com um menino sapeca que agora está com dois anos.
Mas essa conversa só faz aumentar meu desconforto.
A comemoração começa, abrem os presentes, me pedem para cortar o bolo. Pedem pro futuro pai fazer discurso, mas ele encabula. Começam o famoso "Discurso! Discurso!". Ele finalmente levanta e fala algumas palavras de agradecimento.
Eles falam de filhos, família, planos para o futuro.
Dois goles de coca-cola e não tem jeito do bolo descer, o que parecia inapropriado no início, agora se mostra muito difícil, praticamente impossível. O embrulho no estômago sobe.
Finjo receber uma mensagem importante no celular, bendito celular, tem que servir para alguma coisa. Coloco o fone no ouvido e peço licença para me retirar. Eles entendem, deve ser alguma coisa importante, gerentes têm sempre coisas mais importantes para fazer.
Já do lado de fora a farsa não é mais necessária. Corro para as escadas, esse é o percurso mais longo para chegar ao carro da minha vida. Quando saio na porta ainda faltam mais alguns metros, respiro fundo, fica difícil segurar. Entro no carro, mas mesmo pelos vidros fumês, mesmo de óculos escuros, tenho certeza que todos podem ver as minhas lágrimas. Explodo soluçando, com a cabeça no volante, como não fazia faz anos.
O nome dele está na lista, ele vai ser demitido na próxima sexta.
Mais um dia difícil, mas sou pago para isso. 

[]s
Jack DelaVega

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Leandro Vieira
Leandro
Rogerio Martins
Rogerio

Dr. Zambol
Dr.
Reggie the Engineer
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